
Um disco sobre cidades que apodrecem, empregos que nos consomem, amizades que quebram e a estranha experiência de voltar para casa e perceber que ela continuou mudando sem você.
Existem discos que eu consigo separar da época em que os conheci e existem outros que, por mais que os anos passem, continuam carregando versões antigas de mim dentro deles. Crisis pertence completamente ao segundo grupo. Alexisonfire já fazia parte da minha vida havia muito tempo, mas existe alguma coisa nesse álbum que sempre me pareceu maior do que simplesmente uma coleção de músicas de uma banda que gosto. Talvez porque ele tenha chegado em 2006, justamente numa época em que eu estava entrando cada vez mais profundamente no hardcore, emo, post-hardcore e naquela internet em que descobrir uma banda ainda significava procurar vídeos, MySpace, comunidades, fóruns, baixar arquivos de procedência criminalmente duvidosa e depois tentar convencer os amigos de que eles também precisavam ouvir aquilo imediatamente.
Talvez porque Crisis tenha envelhecido junto comigo e algumas das coisas que eu entendia apenas emocionalmente aos quinze anos façam muito mais sentido agora, depois de trabalhar, mudar de país, trocar de cidade incontáveis vezes e descobrir que crescer também significa voltar para lugares conhecidos e perceber que eles continuaram existindo sem esperar você.
Revisitei o álbum inteiro agora porque tive a oportunidade de assistir ao Alexisonfire tocando Crisis em comemoração aos vinte anos do disco. Talvez seja difícil imaginar uma cidade mais apropriada para assistir a esse aniversário do que Buffalo, porque a própria história de Crisis está enterrada naquela região. O terceiro álbum do Alexisonfire foi lançado em 22 de agosto de 2006, produzido pela banda com Julius "Juice" Butty e gravado entre fevereiro e março daquele ano, principalmente no Metalworks Studios, em Mississauga e no Silo Recording Studio. Foi também o primeiro álbum de estúdio com Jordan Hastings na bateria, depois da saída de Jesse Ingelevics e acabou estreando em primeiro lugar no Canadá, transformando uma banda que já era enorme dentro da cena numa anomalia maravilhosa: um grupo de post-hardcore com um vocalista berrando como se estivesse tentando expulsar os próprios pulmões do corpo chegando ao topo das paradas nacionais.
George Pettit disse recentemente que Crisis representou para eles a sensação de terem encontrado uma espécie de "porta secreta" para a cultura popular e acho que essa descrição resume muito bem o lugar estranho que o álbum ocupa. Ele é acessível sem parecer domesticado. É melódico sem abandonar a agressividade. Possui refrões enormes, mas continua carregando uma sujeira e uma urgência que impedem que tudo soe excessivamente polido. George posteriormente descreveu o disco como provavelmente a coisa mais concisa que a banda já fez, estilística, conceitual e sonoramente. E acho que essa coesão faz Crisis continuar funcionando tão bem como álbum vinte anos depois.

Eu gosto muito de Watch Out!, gosto da estranheza mais caótica do primeiro disco e acho fascinante acompanhar tudo o que a banda fez depois, mas Crisis parece o momento em que todas as peças descobriram exatamente quanto espaço deveriam ocupar. George pode soar completamente desesperado enquanto Dallas Green entra com uma melodia quase bonita demais para pertencer à mesma música e Wade MacNeil aparece entre os dois adicionando outra textura vocal e guitarras que nunca deixam o peso desaparecer. Chris Steele e Jordan Hastings transformam tudo numa base rítmica muito mais sólida do que a palavra "post-hardcore" costuma sugerir. Em 2006, a própria crítica já observava que o álbum soava consideravelmente maior do que os anteriores, mantendo a agressividade enquanto tornava as composições mais intrincadas e deliberadas.
O resultado é um disco pesado que nunca confunde peso com monotonia. Alexisonfire sempre teve três vozes muito diferentes disponíveis e Crisis entende perfeitamente como utilizá-las como personagens dentro da mesma conversa. George representa o colapso, Dallas frequentemente parece a consciência tentando atravessar aquele caos com alguma clareza melódica e Wade ocupa o espaço intermediário, às vezes ampliando a agressividade, às vezes criando outra camada de resposta. Quando tudo funciona simultaneamente, a banda parece menos um grupo com múltiplos vocalistas e mais uma discussão acontecendo dentro da mesma cabeça.
"This is from our hearts"
O álbum começa com "Drunks, Lovers, Sinners and Saints" e existe algo quase programático na maneira como a música apresenta aquilo que virá depois. A primeira frase já estabelece uma preocupação com sinceridade que atravessa o disco inteiro e isso importa porque Crisis foi lançado justamente durante uma época em que o post-hardcore, screamo e emo estavam atravessando a fronteira entre subcultura e mercado de massa. De repente havia dinheiro, videoclipes, Warped Tour, capas de revista e gravadoras tentando descobrir quantas franjas laterais poderiam ser monetizadas antes que a adolescência coletiva mudasse de corte de cabelo.
Alexisonfire poderia facilmente ter produzido uma versão mais palatável de si mesmo.
Em vez disso, fez Crisis.
É um álbum mais acessível, sem dúvida, mas existe uma diferença enorme entre aprender a escrever músicas melhores e diluir aquilo que fazia uma banda interessante. O refrão pode ter crescido, a produção pode ter ficado maior e Dallas pode carregar melodias capazes de atravessar rádio e televisão, mas George continua soando como alguém discutindo fisicamente com a música. A banda não removeu seus extremos; aprendeu a organizá-los.
Acho que por isso que a transição imediatamente para "This Could Be Anywhere in the World" continue sendo tão eficiente. Se existe uma música capaz de resumir o Alexisonfire para alguém que nunca ouviu a banda, provavelmente é essa. Não necessariamente porque seja a melhor composição de toda a discografia, embora esteja muito perto, mas porque tudo que torna o grupo particular aparece nela ao mesmo tempo: peso, melodia, urgência, guitarras, múltiplas vozes e um refrão que consegue ser cantado por milhares de pessoas sem transformar a música numa tentativa calculada de produzir um hino.
Durante muito tempo eu ouvi a frase sobre uma cidade assombrada de uma maneira quase abstrata, como parte daquela estética de decadência urbana que combinava perfeitamente com a música. Só depois comecei a prestar atenção no que a letra realmente estava dizendo. Os fantasmas não são sobrenaturais. São pessoas de lares destruídos, pobreza, abandono e uma cidade que parece consumir lentamente quem vive nela. A música nasceu das mudanças que a banda observava em St. Catharines, Ontario, cada vez que voltava de turnê, mas o próprio título recusa transformar aquilo numa história exclusivamente local: poderia ser qualquer lugar do mundo. Em entrevistas recentes sobre os vinte anos do álbum, Dallas falou justamente sobre voltar para casa depois de passar tempo na estrada e perceber que a cidade estava mudando enquanto ele próprio também mudava; George acrescentou que essa experiência é universal, porque praticamente todo mundo conhece a sensação de observar o lugar onde cresceu se transformar, nem sempre para melhor.
Essa música significa muito mais para mim hoje justamente por isso. Eu conheço intimamente a sensação de ir embora e voltar. Fiz isso com Osasco, São Paulo, cidades nos Estados Unidos, bairros onde morei e até com o próprio Brasil. Existe uma fantasia estranha de que os lugares onde crescemos permanecem congelados quando não estamos olhando, como se fossem cenários esperando nosso retorno e uma das experiências mais desorientadoras da vida adulta é descobrir que não funciona assim. Você muda enquanto está longe, o lugar muda sem você e, quando os dois se encontram novamente, existe reconhecimento suficiente para produzir nostalgia e diferença suficiente para produzir estranhamento.
"This Could Be Anywhere in the World" fala sobre uma cidade, mas para mim também fala sobre esse rompimento entre memória e geografia. Às vezes sentimos saudade de um lugar que tecnicamente continua existindo, só que a versão da qual sentimos saudade não existe mais.
Talvez nós também não.
Boiled Frogs e a descoberta adulta de que emprego também pode ser violência lenta
Se "This Could Be Anywhere in the World" ganhou novas camadas conforme fui mudando de cidade, "Boiled Frogs" ganhou novas camadas conforme comecei a trabalhar.
A música utiliza a conhecida metáfora do sapo colocado numa panela cuja temperatura aumenta lentamente, a ideia de que mudanças graduais podem se tornar insuportáveis sem produzir um momento único em que percebemos que deveríamos ter pulado fora. A história do sapo não funciona literalmente como zoologia, mas funciona muito bem como metáfora, e George explicou que a inspiração veio da experiência de seu pai no trabalho: depois de décadas numa empresa, mudanças nas condições e benefícios tornavam a permanência progressivamente pior para funcionários antigos, incentivando-os a sair antes que a empresa precisasse arcar com determinadas obrigações. A leitura contemporânea do disco também destaca justamente essa crítica à deterioração gradual das condições de trabalho.
Aos quinze anos, isso era uma música ótima, depois de adulta, vira praticamente documentação trabalhista com breakdown.
Existe uma perversidade muito específica na deterioração gradual porque ela dificulta localizar o momento em que uma situação deixou de ser aceitável. Um emprego raramente acorda numa terça-feira e anuncia formalmente que vai começar a destruir sua saúde mental. Primeiro muda uma política. Depois alguém sai e não é substituído. Depois a equipe absorve outra responsabilidade. Depois existe uma reorganização. Depois benefícios diminuem, metas aumentam, pessoas começam a desaparecer e todo mundo continua trabalhando porque cada mudança isoladamente parece administrável. Quando finalmente olhamos ao redor, a água está fervendo e alguém provavelmente acabou de marcar uma reunião sobre eficiência operacional.
É uma música de 2006 que continua funcionando assustadoramente bem em 2026. Talvez melhor.
Crisis começou com uma tempestade real
A estética de inverno do álbum nunca foi apenas decoração. A capa e o encarte utilizam fotografias relacionadas à devastadora Blizzard of 1977, que atingiu a região de Niagara e Western New York, exatamente o território compartilhado entre o sul de Ontario e a região de Buffalo. A tempestade acumulou neve em proporções absurdas, isolou comunidades, paralisou estradas e matou dezenas de pessoas; as fotografias históricas utilizadas pelo disco incluem imagens de jornais da região, inclusive The Buffalo News, St. Catharines Standard e Welland Tribune.
Por isso assistir à faixa-título "Crisis" em Buffalo vinte anos depois produziu uma conexão geográfica que eu não tinha planejado sentir tão intensamente. Eu tinha acabado de passar horas atravessando o estado de Nova York para chegar ali e estava ouvindo uma música construída a partir da memória coletiva de uma catástrofe que aconteceu justamente naquela região.
A faixa transforma a tempestade em horror social. Não existe romantização de neve bonita caindo pela janela. Existe isolamento, gente presa, frio, dependência química, vulnerabilidade e aquela sensação claustrofóbica de perceber que a natureza simplesmente decidiu interromper a infraestrutura humana. George e Dallas cresceram ouvindo histórias familiares sobre a tempestade e ambos falaram recentemente sobre como aquelas fotografias carregavam uma familiaridade regional que ajudou a construir o conceito do álbum.
Agora faz sentido por eu sempre ter achado a capa tão poderosa. Não parece uma imagem criada para representar dramaticamente a palavra crisis. É documentação. Pessoas realmente viveram aquilo. Existe uma materialidade na fotografia que combina perfeitamente com um álbum interessado em crises que não são abstratas: cidades deteriorando, pessoas perdendo trabalho, dependência, amizades quebrando, paranoia, medo e a dificuldade de continuar funcionando quando aquilo que parecia estável começa lentamente a desaparecer.
Um álbum sobre estruturas quebrando
Quanto mais volto para Crisis, menos vejo o disco como uma coleção aleatória de assuntos. Existe uma ideia atravessando quase tudo: estruturas que deveriam oferecer segurança deixam de funcionar.
A cidade deveria abrigar seus moradores, mas está expulsando e abandonando pessoas. O emprego deveria oferecer estabilidade, mas começa a consumir quem dedicou décadas a ele. Amizades deveriam sobreviver às mudanças, mas algumas quebram. A casa deveria proteger da tempestade, mas pode desaparecer debaixo da neve. A própria mente deveria ser um lugar minimamente confiável, mas paranoia e sofrimento conseguem transformar percepção em ameaça.
É nesse contexto que músicas como "Keep It on Wax" e "To a Friend" funcionam melhor para mim. A primeira nasceu diretamente da ruptura da banda com o antigo baterista Jesse Ingelevics, algo que George confirmou em entrevistas da época. É amarga, pessoal e talvez até desconfortavelmente específica, justamente porque não tenta transformar o fim de uma amizade numa abstração elegante sobre crescimento. Algumas relações simplesmente terminam de maneira feia.
"To a Friend", logo depois, muda completamente a temperatura emocional. Existe nela uma preocupação com alguém que está afundando e a percepção de que certas batalhas não deveriam ser enfrentadas completamente sozinho. Colocadas lado a lado, as duas músicas acabam formando uma sequência interessante sobre amizade: uma relação pode quebrar porque alguém mudou de uma maneira que já não conseguimos acompanhar, enquanto outra pessoa pode precisar desesperadamente que alguém permaneça.
Essa contradição me parece muito mais adulta hoje do que quando conheci o disco. Existe uma fase da juventude em que amizade parece uma categoria permanente. Alguém vira "melhor amigo" e nosso cérebro registra aquilo quase como parentesco. Depois descobrimos que relações também possuem condições materiais: distância, saúde mental, trabalho, parceiros, dinheiro, vícios, ressentimento, prioridades e versões diferentes de quem cada pessoa decidiu se tornar.
Algumas sobrevivem, outras não.
Nenhuma camiseta de banda consegue garantir compatibilidade eterna, infelizmente.
"You Burn First" é o momento em que o disco fica genuinamente sombrio
No meio de tudo isso aparece "You Burn First", com participação de Gared O'Donnell, do Planes Mistaken for Stars e a atmosfera muda quase completamente. Existe algo sufocante nessa música que impede o álbum de permanecer apenas no território dos grandes refrões e das guitarras explosivas. É um dos momentos em que Crisis lembra que Alexisonfire sempre teve uma relação muito boa com desconforto.
Eu gosto disso porque um álbum chamado Crisis seria muito menos interessante se todas as crises fossem transformadas em músicas perfeitas para multidões cantarem juntas. Algumas precisam continuar parecendo desagradáveis.
A produção inteira entende essa diferença. O disco soa enorme, mas não homogêneo. Existem momentos em que as guitarras parecem ocupar a sala inteira e outros em que a banda deixa espaços suficientes para a tensão respirar. Jordan Hastings também faz uma diferença enorme aqui. A bateria parece constantemente empurrar as músicas para frente sem transformar velocidade em bagunça e na minha opinião, isso deixa o álbum ser simultaneamente tão agressivo e tão preciso.
A banda estava ficando tecnicamente melhor, mas, mais importante, estava aprendendo quando não precisava demonstrar isso.
Rough Hands é uma maneira cruelmente bonita de terminar
Se Crisis passa grande parte de seus quarenta e poucos minutos observando estruturas externas quebrando, a última música reduz tudo para uma escala quase íntima. Depois de cidades, tempestades, trabalho, conflitos e paranoia, o álbum termina olhando para relações e para aquela vulnerabilidade específica de perceber que gostar de alguém não significa necessariamente saber como permanecer junto.
Dallas Green sempre foi a arma melódica secreta do Alexisonfire, mas chamar sua função apenas de "vocais limpos" parece quase diminuir o que acontece quando ele entra numa música. Sua voz cria contraste emocional. George consegue transformar uma frase em urgência física; Dallas consegue cantar dentro da mesma composição como se estivesse observando aquela urgência depois que todo mundo foi embora.
"Rough Hands" utiliza exatamente essa diferença.
É uma música que não precisa terminar o álbum explodindo porque a crise já aconteceu.
O que resta são as pessoas tentando entender os danos.
E é por isso que gosto tanto dela como encerramento. Crisis começa declarando sinceridade e termina sem oferecer resolução. Não existe discurso dizendo que tudo ficará bem. Existe apenas a percepção de que certas coisas machucam justamente porque importaram.
Aos quinze anos, eu provavelmente entendia isso romanticamente. Hoje entendo de várias outras maneiras.
Por que esse disco ficou tão grande?
Crisis estreou em primeiro lugar no Canadá e posteriormente alcançou certificação de platina, tornando-se o maior sucesso comercial da fase original da banda. "This Could Be Anywhere in the World" teve enorme circulação em rádio e televisão e o álbum colocou Alexisonfire numa posição bastante incomum: eram grandes demais para serem tratados apenas como banda underground, mas continuavam agressivos demais para encaixar confortavelmente no rock mainstream.
Acho que essa posição explica parte da longevidade do disco, ele nunca pareceu completamente pertencente a nenhum dos mundos.
Era possível assistir ao videoclipe na televisão e depois encontrar a mesma banda num festival de hardcore. Era possível alguém chegar pelo refrão de Dallas e descobrir George berrando imediatamente depois. Duas décadas depois, a própria banda parece ter entendido que essa posição intermediária nunca foi um problema a ser resolvido, mas justamente uma das razões pelas quais Crisis sobreviveu tão bem. Alexisonfire conseguia circular entre espaços diferentes sem parecer que estava interpretando personagens diferentes para cada público. O disco podia alcançar gente que vinha do rock alternativo, do emo ou da MTV sem abandonar aquilo que fazia sentido para quem já acompanhava a banda dentro do post-hardcore e do hardcore. Dallas conseguia carregar um refrão gigantesco enquanto George continuava berrando alguns segundos depois, Wade preenchia o espaço entre os dois e ninguém parecia preocupado em decidir qual dessas versões representava o Alexisonfire "verdadeiro". Todas representavam.
Isso também ajuda a explicar por que acho um pouco injusto quando Crisis é reduzido à nostalgia da era emo dos anos 2000. É evidente que o álbum pertence àquele momento e carrega marcas estéticas e culturais dele, mas a música é muito menos dependente dessa nostalgia do que vários discos que envelheceram junto com a cena. Você não precisa reconstruir mentalmente uma franja lateral, um perfil no MySpace e um Vans xadrez para que Boiled Frogs continue funcionando; infelizmente basta ter um emprego. Você não precisa lembrar como era ter quinze anos para entender This Could Be Anywhere in the World; basta voltar para uma cidade conhecida depois de alguns anos e perceber que o lugar que existia na sua memória não coincide mais perfeitamente com aquele diante dos seus olhos. O contexto mudou, mas os conflitos permaneceram reconhecíveis.
Talvez seja essa a diferença entre um álbum que representa uma época e um álbum que fica preso nela. Crisis representa 2006 perfeitamente, mas não precisa de 2006 para continuar existindo.

Vinte anos depois, em Buffalo

Assistir ao disco inteiro ao vivo também mudou a maneira como pensei sobre ele enquanto escrevia esta review. Existe uma diferença enorme entre colocar um álbum antigo para tocar em casa e estar em espaço cheio de pessoas que carregaram aquelas músicas durante vinte anos por motivos completamente diferentes. Algumas provavelmente compraram Crisis quando ele saiu; outras descobriram Alexisonfire muitos anos depois; algumas estavam revivendo a adolescência e outras talvez nem fossem nascidas quando o disco chegou às lojas. Ainda assim, bastavam os primeiros segundos de determinadas músicas para milhares de pessoas reconhecerem exatamente o que estava por vir.
Foi um dos melhores shows que já vi, não apenas do Alexisonfire, mas no geral e acho que parte disso veio justamente da relação entre o álbum e o lugar onde estávamos. Depois de sete horas dirigindo desde Brooklyn, de esquecer minha carteira num banheiro de posto, eu já tinha produzido uma quantidade suficiente de pequenos problemas para justificar emocionalmente o nome Crisis antes mesmo de chegar ao lugar. Felizmente, minha crise era administrativa e reversível; a carteira continuou esperando por mim no caminho de volta.
Também existe algo muito bonito em observar uma banda tocar um disco de vinte anos sem parecer que está visitando um museu dedicado à própria juventude. Não senti que estava assistindo a cinco pessoas reproduzindo respeitosamente um artefato de 2006 para um público nostálgico. As músicas ainda pareciam vivas e a banda parecia se divertir tocando-as. Isso faz diferença porque turnês comemorativas podem facilmente ganhar uma atmosfera de reunião de ex-alunos em que todo mundo concorda silenciosamente que o melhor já aconteceu. Não foi essa a sensação que tive em Buffalo, o que eu senti foi continuidade.
Música também é uma maneira de medir tempo
Vinte anos é um número abstrato até você ouvir uma música e perceber quantas versões suas existiram desde a primeira vez que ela entrou na sua vida. De repente o tempo deixa de ser calendário e vira memória. Existem pessoas que estavam comigo quando ouvi determinadas bandas pela primeira vez e que hoje não fazem mais parte da minha vida; existem cidades onde eu não moro mais, relações que terminaram, trabalhos que nem existem, casas que outra pessoa ocupa e versões minhas que provavelmente teriam dificuldade de imaginar onde eu acabaria chegando.
A música continua ali no meio, não intacta, porque a maneira como escutamos também muda. Aos quinze anos eu podia entender emocionalmente Boiled Frogs, mas não tinha passado anos dentro de empresas suficientes para compreender completamente o que significa observar condições de trabalho se deteriorarem aos poucos. Eu podia sentir a melancolia de This Could Be Anywhere in the World, mas ainda não tinha passado uma década morando em outro país e voltado repetidamente para lugares que continuavam familiares sem continuar iguais. Eu podia gostar de Rough Hands porque era triste e bonita; hoje existem experiências suficientes acumuladas para que vulnerabilidade não seja mais um conceito abstrato.
Por isso eu amo revisitar discos antigos, eles não permanecem iguais porque nós não permanecemos iguais. A gravação é tecnicamente a mesma, mas aquilo que levamos para dentro dela muda, então certas músicas que pareciam secundárias aos quinze anos conseguem se tornar essenciais aos trinta, enquanto outras que pareciam explicar nossa existência inteira passam a ocupar um lugar mais afetivo do que intelectual.

Foi também por isso que comprei o vinil de Crisis no show. Streaming é infinitamente mais prático e provavelmente será a maneira como vou ouvir o álbum na maior parte do tempo, mas existe algo sobre objetos físicos que ainda me interessa, principalmente agora que estou justamente reduzindo meus pertences e decidindo o que merece atravessar comigo a próxima mudança. Um disco ocupa espaço, pesa na mala, precisa ser guardado e provavelmente vai atravessar um oceano dentro de uma caixa quando eu finalmente enviar minhas coisas para o Brasil. Em termos de eficiência, é uma tecnologia absolutamente inferior a apertar play no celular. Ainda assim, eu comprei aquele disco pelo valor emocional que ele tem em minha vida.
Agora ele não representa apenas Crisis. Representa dirigir de Bed-Stuy até Buffalo para assistir uma banda que conheço desde adolescente tocar um álbum inteiro enquanto eu mesma estou desmontando uma vida construída durante dez anos neste país. Objetos ficam interessantes quando acumulam histórias que não vieram impressas na embalagem.
O que Crisis deixou para trás
É sempre complicado falar sobre influência musical porque cenas não funcionam como uma árvore genealógica organizada em que uma banda produz diretamente a seguinte. Artistas ouvem dezenas de coisas ao mesmo tempo, cenas locais se contaminam, ideias circulam por turnês, amizades, fóruns, gravadoras, shows e anos depois alguém tenta desenhar uma linha reta entre acontecimentos que nunca foram retos. Ainda assim, é difícil ignorar como a combinação de agressividade e melodia que Alexisonfire aperfeiçoou em Crisis ajudou a consolidar uma linguagem que se tornaria cada vez mais comum no post-hardcore.
O detalhe importante é que a banda nunca pareceu construir essa mistura como uma fórmula. Se fosse apenas "um cara grita e outro canta o refrão", existiriam centenas de discos intercambiáveis produzidos naquela década e muitos realmente existiram. O que torna Alexisonfire diferente é que as vozes não funcionam como departamentos independentes. George, Dallas e Wade interferem uns nos outros e as guitarras também participam dessa conversa. As músicas possuem tensão porque parecem capazes de seguir em direções diferentes antes de encontrar algum ponto de convergência.
Dallas Green já desenvolvia City and Colour paralelamente, o que deixa essa dinâmica ainda mais interessante. Sozinho, existe espaço para sua sensibilidade melódica ocupar praticamente tudo; dentro do Alexisonfire, aquela voz precisa sobreviver cercada por distorção, bateria, George e Wade. Em outra banda, Dallas poderia facilmente se tornar o centro absoluto. Aqui, justamente por não ser essa a dinamica, cada entrada dele ganha mais peso.
O resultado é uma banda cuja personalidade depende de equilíbrio, mas nunca de moderação.
Essa é principal herança de Crisis: não uma fórmula específica de post-hardcore, mas a demonstração de que contraste não precisa ser resolvido. Uma música pode ser bonita e violenta, acessível e estranha, emocional e agressiva, tecnicamente precisa e ainda parecer prestes a sair do controle. Você não precisa escolher uma dessas identidades para tornar a outra legítima.
Também não consigo ignorar como vários temas do álbum parecem ter envelhecido na direção errada, no sentido de que eu preferia que tivessem se tornado menos relevantes. A precarização do trabalho discutida em Boiled Frogs não desapareceu; em muitos setores ficou ainda mais sofisticada. Empresas aprenderam novas maneiras de chamar cortes de "reestruturação", sobrecarga de "agilidade" e insegurança de "flexibilidade", enquanto trabalhadores continuam tentando descobrir em qual momento exatamente a água começou a esquentar.
A decadência urbana de This Could Be Anywhere in the World também não parece uma fotografia distante de St. Catharines em meados dos anos 2000. Crise habitacional, gentrificação, pessoas sem moradia, dependência química e cidades onde trabalhadores essenciais já não conseguem pagar para morar perto dos lugares que mantêm funcionando continuam sendo problemas extremamente atuais. O título talvez tenha envelhecido melhor do que deveria: realmente poderia ser qualquer lugar do mundo.
Até a Blizzard of 1977 utilizada como memória visual do álbum ganhou outra camada depois de duas décadas em que eventos climáticos extremos passaram a fazer parte cada vez mais frequente das nossas conversas. O disco nunca foi sobre mudança climática e seria forçar uma interpretação retroativa afirmar isso, mas sua imagem de comunidades descobrindo rapidamente quanto dependem de infraestruturas frágeis continua desconfortavelmente compreensível.
E é por isso que para mim Crisis ainda pareça tão vivo, ele não depende de uma única narrativa, mas existe uma preocupação recorrente com sistemas que deveriam sustentar pessoas e deixam de cumprir essa função. Trabalho, cidade, amizade, casa, mente, comunidade. As crises mudam de escala, mas existe sempre alguém tentando continuar funcionando dentro delas.
Isso é muito mais interessante para mim agora do que era quando eu simplesmente achava o disco pesado, bonito e emocional.

Reouvir Crisis inteiro antes e depois do show me fez perceber que ele envelheceu melhor do que minha própria nostalgia precisava que envelhecesse. Existem discos que amamos porque funcionam como máquinas do tempo, mesmo quando conseguimos perceber claramente que determinadas escolhas de produção, composição ou estética pertencem ao período em que foram feitas. Você perdoa algumas coisas porque ama aquilo que o álbum representou.
Não sinto que precise fazer esse esforço aqui.
A produção continua enorme sem soar completamente esterilizada, as guitarras ainda possuem textura, a bateria continua física, os três vocalistas permanecem uma combinação estranha que nenhuma quantidade de imitação conseguiu tornar banal e principalmente, as músicas continuam sustentando aquilo que dizem. Mesmo os elementos mais associados ao post-hardcore dos anos 2000 não parecem existir apenas porque aquela era a moda do gênero.
Não sei se Crisis é objetivamente o melhor disco do Alexisonfire, porque quanto mais envelheço menos interessante acho transformar música em campeonato. Dependendo do dia, posso querer a instabilidade do primeiro álbum, a evolução de Watch Out!, a escuridão de Old Crows / Young Cardinals ou alguma coisa completamente diferente. O que consigo afirmar é que Crisis provavelmente representa o ponto em que todas as características que mais gosto na banda aparecem simultaneamente na proporção mais satisfatória: agressividade, melodia, crítica social, vulnerabilidade, caos, técnica e aquela sensação de comunidade que sempre fez Alexisonfire parecer maior do que apenas cinco pessoas tocando juntas.
Também acho bonito que um álbum tão interessado em deterioração tenha sobrevivido tão bem ao próprio tempo. As cidades mudaram. A indústria musical mudou. A cena mudou. Nós mudamos. A banda chegou a terminar, passou anos separada, voltou e agora consegue reunir milhares de pessoas para comemorar um disco lançado quando boa parte de nós ainda estava tentando descobrir quem seria quando crescesse.
Acho que por isso que o show tenha me marcado tanto neste momento específico. Estou justamente numa fase em que não sei onde vou morar, estou guardando dez anos de vida em caixas, pensando em voltar para o Brasil, viajando pelos Estados Unidos e tentando descobrir o que ainda quero carregar comigo. Então atravessei o estado de Nova York para ouvir um álbum sobre lugares mudando, estruturas quebrando e pessoas tentando continuar enquanto tudo ao redor delas se reorganiza.
Às vezes a música encontra um timing quase irritantemente bom.
E Crisis, como álbum, continua funcionando porque nunca prometeu que essas coisas teriam resolução fácil, ou se quer seriam resolvidos.