O que Lou Koller me ensinou sobre comunidade

Por Vanny28 de julho de 20268 min de leitura

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Desde que o Lou se foi, muita gente passou pelo vídeo que publiquei com um trecho da entrevista que fiz com ele anos atrás. Pessoas de vários países começaram a compartilhar lembranças, agradecer pelo registro, contar histórias de encontros em shows, bastidores e festivais. Algumas eu já conhecia. Outras vieram de gente que nunca vi na vida e provavelmente nunca vou conhecer.

Passei horas lendo esses relatos.

Não porque estivesse procurando conforto, mas porque queria entender por que a morte dele parecia ter aberto exatamente a mesma ferida em tanta gente diferente.

Quanto mais eu lia, mais uma coisa chamava minha atenção: quase ninguém falava primeiro do vocalista do Sick of It All. Falavam do homem que respondia mensagens de desconhecidos, que lembrava nomes, que fazia questão de apoiar fotógrafos, bandas pequenas, zines independentes e qualquer pessoa que estivesse tentando construir alguma coisa por conta própria.

Foi só então que eu percebi que a minha história com o Lou não era excepcional.

Ela era parte de um padrão.

E, curiosamente, isso não diminuiu em nada a importância que aqueles momentos tiveram para mim. Fez exatamente o contrário. Me fez entender que aquela generosidade não era um privilégio reservado aos amigos mais próximos. Era simplesmente a forma como ele escolhia existir no mundo.

É justamente por isso que é tão difícil escrever sobre ele.

Este não é um texto sobre alguém que eu admirava à distância. Também não é uma tentativa de convencer ninguém da importância do Sick of It All. A história da banda já faz isso muito melhor do que qualquer artigo poderia fazer.

O que me interessa aqui é outra coisa.

É tentar entender por que, quase quarenta anos depois da fundação de uma banda de hardcore no Queens, milhares de pessoas espalhadas pelo mundo sentem que perderam alguém que, de alguma forma, fazia parte da própria comunidade.

Eu conheci o Sick of It All muito antes de conhecer o Lou.

Como muita gente da minha geração, minha formação musical aconteceu numa internet que praticamente não existe mais. Não havia algoritmos dizendo o que ouvir em seguida, playlists personalizadas nem uma infinidade de vídeos curtos tentando resumir a história de um gênero musical em sessenta segundos. Descobrir uma banda era quase um trabalho de investigação.

Eu passava horas em comunidades do Orkut, blogs pessoais e fóruns procurando discos novos para baixar. Sempre havia alguém recomendando alguma coisa, escrevendo sobre um show, traduzindo letras, contando histórias da cena ou compartilhando aquele álbum que era impossível encontrar em qualquer outro lugar.

Foi assim que comecei a conhecer o hardcore de Nova York.

Madball. Murphy's Law. Gorilla Biscuits. Judge. Cro-Mags. Agnostic Front. H2O. Sick of It All.

Entre todos aqueles nomes, o Sick of It All acabou ocupando um lugar diferente. A banda surgiu em 1986, no bairro do Queens, fundada pelos irmãos Lou e Pete Koller, ao lado de Craig Setari e Armand Majidi. Não foi uma das pioneiras do New York Hardcore, mas pertenceu à geração que transformou aquela cena local em uma referência mundial. Ao longo de quase quatro décadas, lançou discos fundamentais como Blood, Sweat and No Tears, Just Look Around, Scratch the Surface, Built to Last e Yours Truly, influenciando bandas muito além do hardcore tradicional. É difícil encontrar um músico do hardcore, do metalcore ou até do punk contemporâneo que não cite o Sick of It All como uma influência.

Na época, eu não fazia ideia da importância histórica daquelas bandas. Eu simplesmente gostava da música. Gostava de ler as letras. Gostava de perceber que existia alguma coisa ali que era diferente de tudo o que eu tinha ouvido até então.

Com o tempo, fui entendendo que o hardcore nunca tinha sido só música.

A cena de Nova York nasceu em um período de crise econômica, violência e abandono urbano. O punk já existia, mas o hardcore surgiu como uma resposta ainda mais direta, urgente e ligada ao cotidiano de quem vivia aquela realidade. Era uma música agressiva, mas construída sobre uma lógica profundamente coletiva. As bandas dividiam equipamentos, organizavam shows, dormiam na casa umas das outras durante as turnês, ajudavam zines independentes, fotógrafos, selos pequenos e qualquer pessoa disposta a manter aquela cultura viva.

Muito antes de "comunidade" virar palavra de marketing, ela já fazia parte do vocabulário do hardcore.

O Sick of It All carregou essa filosofia por toda a carreira. Mesmo depois de tocar os maiores festivais do mundo e conquistar respeito internacional, a banda nunca abandonou o circuito de casas menores, festivais independentes ou eventos beneficentes. Continuou dividindo palco com bandas iniciantes, fortalecendo projetos pequenos e mantendo uma relação de proximidade com a própria cena. Essa postura acabou se tornando tão importante quanto a discografia.

Na época em que comecei a ouvir a banda, eu obviamente não enxergava nada disso. Eu era só uma adolescente tentando entender o mundo através das músicas que encontrava pela internet.

Só muitos anos depois percebi que aquelas letras não falavam apenas de um ideal. Falavam de uma maneira de viver.

Em 2015, comecei um projeto completamente maior do que a minha experiência permitia.

Queria produzir um documentário sobre mulheres na cena hardcore.

Hoje olho para trás e acho engraçado o tamanho da coragem que eu tinha. Eu não era documentarista. Não tinha equipe, patrocínio ou grandes equipamentos. Só sentia que aquelas histórias mereciam ser registradas antes que desaparecessem.

Comecei entrevistando amigos, bandas da cena paulista e pessoas que encontrava com frequência nos shows.

Quando soube que o Sick of It All voltaria ao Brasil, resolvi tentar uma coisa que parecia improvável.

Mandei uma mensagem pelo Instagram da banda explicando o projeto.

Quem respondeu foi o Lou.

Até hoje acho curioso lembrar disso, porque meu inglês estava longe de ser bom. Mesmo assim, ele respondeu com entusiasmo, perguntou sobre o documentário e disse que toparia gravar.

Quando chegou o dia do show, aconteceu uma cena que nunca saiu da minha cabeça. A produção tentava controlar quem entrava no backstage e eu ainda estava tentando explicar por que estava ali quando o Lou me viu do outro lado. Ele sorriu, me chamou pelo nome e resolveu tudo em poucos segundos.

É uma lembrança simples, mas hoje ela ganhou outro significado. Não porque ele lembrou de mim. Mas porque, depois da morte dele, descobri centenas de histórias parecidas.

Lembrar das pessoas era simplesmente quem ele era.

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Depois daquele dia, nossos caminhos continuaram se cruzando.

Eu me mudei para os Estados Unidos e passei a encontrar o Sick of It All em shows, festivais e turnês por aqui e também na Europa. Sempre que havia oportunidade, a conversa continuava exatamente de onde tinha parado da última vez.

Falávamos sobre música. Sobre fotografia. Sobre política. Sobre a vida.

Em vários shows, ele fez questão de colocar meu nome na lista de fotógrafos para que eu pudesse continuar desenvolvendo meu trabalho. Em outras ocasiões, perguntava se eu morava perto de algum festival e dizia para eu aparecer.

Durante muito tempo achei que aquilo fosse um gesto reservado às pessoas que ele conhecia melhor.

Lendo todos esses relatos nos últimos dias, percebi que não.

Era assim que ele tratava as pessoas.

Existe uma diferença enorme entre ser simpático e investir tempo no trabalho dos outros.

Lou fazia isso. Compartilhava projetos independentes, incentivava fotógrafos, dava espaço para bandas pequenas, participava de entrevistas de canais que estavam começando, gravava vídeos para quem pedia com respeito e respondia mensagens.

Não porque precisava. Porque acreditava que era assim que uma cena continuava viva.

Foi numa dessas conversas que agradeci por ele sempre apoiar os meus projetos.

A resposta veio de maneira tão espontânea que eu nunca mais esqueci: "Você apoia a gente. Eu apoio você."

Na época achei bonita. Hoje acho que ela explica a filosofia do hardcore melhor do que muitos livros.

Apoio nunca foi uma via de mão única. Uma banda só existe porque alguém compra um ingresso. Porque alguém fotografa o show. Porque alguém escreve sobre aquele disco. Porque alguém organiza o evento. Porque alguém imprime um cartaz. Porque alguém leva um amigo que nunca ouviu falar daquela banda.

Nenhuma cena sobrevive sozinha. Músicos não constroem uma cultura sozinhos. Eles fazem parte dela.

E o Lou nunca deixou ninguém esquecer disso.

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Nos últimos anos acompanhei, como tantos outros fãs, a luta dele contra o câncer.

Era impossível não torcer para que ele voltasse aos palcos. Não apenas porque o Sick of It All ainda tinha muito a oferecer, mas porque era difícil imaginar aquela cena sem uma pessoa que parecia funcionar como ponto de encontro entre tanta gente diferente.

Hoje, revendo entrevistas, fotografias, vídeos e mensagens, finalmente consegui entender por que essa perda me atingiu de uma maneira tão diferente.

Eu não perdi apenas um músico que ouvi durante quase metade da minha vida. Perdi alguém que confirmou, na prática, que os valores que me fizeram amar o hardcore quando eu era adolescente ainda podiam existir.

Num momento em que quase tudo parece calculado para gerar engajamento, seguidores ou retorno financeiro, conhecer alguém que realmente acreditava na força da comunidade foi um lembrete de que outro jeito de viver ainda é possível.

Foi por isso que tantas homenagens pareciam contar a mesma história. Porque elas realmente contavam.

E acho que finalmente encontrei a resposta para a pergunta que me acompanhou desde o dia em que a notícia da morte dele foi anunciada.

O legado do Sick of It All nunca esteve apenas nos discos.

Ele vive nas pessoas que aprenderam, através da banda, que comunidade não é um discurso. É uma prática.

Lou Koller passou quase quarenta anos cantando sobre isso.

O mais bonito é perceber que, quando saía do palco, ele continuava vivendo exatamente da mesma maneira.

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