Hackers
Muito antes de a internet se tornar um produto, ela já era uma estética.

Quando penso em Hackers, percebo que a minha memória nunca começa pelo filme. Ela começa pelo momento da vida em que eu o assisti. Eu era adolescente, passava mais tempo na frente do computador do que em qualquer outro lugar da casa e já começava a descobrir aquele universo que, alguns anos depois, acabaria definindo completamente minha carreira. Enquanto muita gente da minha idade sonhava em ser cantora, atriz ou jogadora de futebol, eu estava lendo sobre computadores, desmontando máquinas, tentando entender por que alguma coisa parava de funcionar e descobrindo que existia um mundo inteiro escondido atrás daquela tela bege ligada ao Windows 98.
Acho que por isso que Hackers ocupou um espaço tão especial na minha memória. Não porque fosse tecnicamente preciso, muito pelo contrário, mas porque foi um dos primeiros filmes que olhou para pessoas obcecadas por computadores sem tratá-las apenas como caricaturas sociais. Pela primeira vez eu via jovens que passavam madrugadas em frente ao monitor, conversavam sobre sistemas, invadiam redes, frequentavam encontros de hackers e tratavam computadores como uma extensão da própria personalidade. Aquilo parecia muito mais próximo da minha realidade do que qualquer filme adolescente tradicional.

Hoje, como profissional de tecnologia, consigo enxergar todos os absurdos técnicos espalhados pelo roteiro. A maior parte dos "hackeamentos" mostrados ali não faz absolutamente nenhum sentido, as interfaces gráficas parecem ter sido desenhadas depois de alguém misturar um clube de música eletrônica com um fliperama futurista, e a internet é representada como um gigantesco espaço tridimensional onde dados viajam como se fossem naves espaciais. Ainda assim, acho curioso que muita gente use exatamente esses exageros para diminuir o filme. Para mim, essa crítica sempre pareceu olhar para Hackers pela perspectiva errada.
O filme nunca tentou mostrar como computadores realmente funcionavam, ele tentou mostrar como a internet parecia. Essa diferença muda completamente a experiência.
Em 1995, pouquíssimas pessoas tinham uma relação cotidiana com computadores conectados à internet. O público médio jamais entenderia uma cena composta por linhas de comando, protocolos de rede, logs de sistema ou engenharia social acontecendo durante quinze minutos. O cinema precisava transformar um processo invisível em alguma coisa visualmente interessante. Em vez de representar dados como texto, representou a sensação de navegar por eles. Aqueles túneis digitais, edifícios luminosos, circuitos gigantescos e cidades eletrônicas nunca foram uma tentativa de explicar tecnologia. Eram uma tradução cinematográfica daquilo que a internet parecia ser para quem a estava descobrindo pela primeira vez: um território completamente novo, misterioso e praticamente infinito.
Olhando hoje, acho até curioso perceber que o filme acabou capturando uma verdade muito mais importante do que qualquer detalhe técnico. Em meados dos anos 90, entrar na internet realmente parecia explorar um lugar desconhecido. Não existiam redes sociais gigantes organizando toda a experiência. Não existiam algoritmos decidindo o que você veria em seguida. Existiam BBS, IRC, fóruns, FTPs, páginas pessoais, servidores universitários e uma quantidade absurda de pequenos espaços independentes espalhados pela rede. Você precisava procurar as coisas. Precisava aprender. Precisava errar. Havia uma sensação permanente de descoberta.

Talvez por isso Hackers continue funcionando tão bem para mim, ele envelheceu mal como demonstração técnica, envelheceu extraordinariamente bem como retrato cultural.
Muito antes de "cyber" virar estética, já existiam hackers
Existe uma injustiça curiosa na maneira como Hackers costuma ser lembrado hoje. Sempre que alguém comenta sobre o filme, a primeira reação costuma ser rir das interfaces impossíveis, dos computadores explodindo em animações tridimensionais ou dos vírus representados como criaturas digitais atravessando cidades feitas de circuitos. É um comentário compreensível, mas também um pouco preguiçoso, porque ignora completamente o contexto em que o filme foi produzido.
Hackers chegou aos cinemas em 1995. O Windows 95 havia acabado de ser lançado. A internet comercial ainda engatinhava, a maioria das pessoas jamais tinha enviado um e-mail, muito menos navegado pela World Wide Web, e boa parte da cultura hacker permanecia praticamente invisível para o grande público. Hoje qualquer adolescente sabe, pelo menos superficialmente, o que significa invadir um sistema. Naquela época, "hacker" era uma palavra cercada por mitologia, sensacionalismo e um certo pânico moral alimentado pela mídia.
Isso fica evidente logo na primeira cena do filme. Dade Murphy, ainda criança, é proibido de tocar em computadores depois de provocar um acidente envolvendo centenas de sistemas financeiros. É completamente absurdo do ponto de vista técnico, mas captura perfeitamente o imaginário dos anos 90. O hacker aparecia quase como um super-herói ou um supervilão digital, alguém capaz de derrubar governos apenas apertando algumas teclas. O filme exagera deliberadamente essa fantasia porque ela já existia muito antes dele.

A cultura hacker retratada ali não nasceu da criminalidade, ela nasceu da curiosidade. Os personagens passam mais tempo explorando sistemas do que tentando destruí-los. Eles colecionam apelidos, frequentam encontros presenciais, competem entre si para descobrir quem consegue chegar mais longe e tratam conhecimento técnico quase como uma forma de arte. Essa parte envelheceu muito melhor do que todas as interfaces psicodélicas que costumam virar meme.
Como alguém que trabalha com tecnologia, sempre achei curioso o quanto o termo "hacker" foi esvaziado ao longo dos anos. Hoje ele costuma aparecer associado quase exclusivamente a crimes digitais, vazamentos de dados e ransomware. Historicamente, porém, a palavra tinha um significado muito mais amplo. Hacker era, antes de tudo, alguém profundamente curioso, obcecado por entender sistemas, desmontá-los e descobrir maneiras inesperadas de fazê-los funcionar. Nem todo hacker era criminoso. Na verdade, a maior parte deles nunca foi.
Essa diferença é importante porque o próprio filme parece defender essa ideia o tempo inteiro. O antagonista da história não é um hacker. É alguém que domina tecnologia para proteger interesses corporativos e manipular informação. Os protagonistas, apesar de cometerem uma quantidade impressionante de crimes ao longo do roteiro, são apresentados como pessoas movidas muito mais pelo prazer da descoberta do que pela destruição. Existe quase uma ética hacker atravessando o filme inteiro: informação deve circular, sistemas existem para ser compreendidos e autoridade nunca deve deixar de ser questionada.
É impossível assistir a Hackers hoje sem perceber como esse discurso continua atual. A tecnologia mudou completamente. Os modems barulhentos desapareceram, as BBS praticamente viraram peças de museu, e a internet se transformou numa infraestrutura dominada por algumas poucas empresas gigantes. Ainda assim, a tensão entre curiosidade técnica e controle institucional continua exatamente a mesma. Só mudaram as ferramentas.

Acho que por isso que o filme continue parecendo tão vivo. Ele não estava realmente tentando prever como os computadores funcionariam no futuro. Estava tentando capturar uma cultura que já existia e que, de certa forma, continua existindo até hoje, embora cada vez mais escondida atrás de interfaces elegantes, aplicativos fechados e ecossistemas cuidadosamente controlados.
Foi essa cultura que me fascinou quando assisti ao filme pela primeira vez. Eu ainda estava muito longe de imaginar que um dia trabalharia com tecnologia, bancos de dados e comunidades online, mas já existia uma curiosidade enorme dentro de mim. Eu queria entender como as coisas funcionavam. Queria desmontar computadores, descobrir por que um programa travava, aprender HTML para modificar páginas, explorar menus escondidos e apertar botões que provavelmente não deveriam ser apertados. Não era vandalismo. Era curiosidade. Acho que foi justamente isso que me fez sentir tão próxima daqueles personagens, mesmo sabendo que boa parte do que eles faziam seria completamente impossível na vida real.
Na prática, Hackers não me fez querer invadir computadores, ele me fez querer entendê-los.
Um filme que entende melhor a cultura hacker do que a tecnologia
Mas, apesar de todos esses exageros, o filme captura com uma precisão impressionante a mentalidade de uma geração que estava descobrindo a internet antes de ela se transformar em um serviço.
Existe uma diferença enorme entre usar tecnologia e ser fascinado por ela. Os personagens de Hackers pertencem claramente ao segundo grupo. Eles desmontam sistemas porque querem entender como funcionam, colecionam conhecimento técnico da mesma forma que outras pessoas colecionam discos ou livros, e parecem genuinamente encantados pela possibilidade de existir um mundo inteiro escondido atrás da tela do computador. Essa curiosidade talvez seja a característica mais marcante da cultura hacker original e, curiosamente, é também a parte que mais desapareceu da imagem popular construída ao longo das últimas décadas.

Hoje a palavra "hacker" costuma aparecer imediatamente associada a crimes digitais, vazamentos de dados, golpes financeiros e ransomware. Pouca gente lembra que, durante muito tempo, ela descrevia principalmente pessoas obcecadas por compreender sistemas. O hacker não era necessariamente alguém interessado em destruir alguma coisa. Era alguém que acreditava que praticamente qualquer tecnologia podia ser desmontada, estudada e remontada de uma maneira diferente daquela imaginada por quem a criou. Essa filosofia sempre me pareceu muito mais próxima da engenharia do que da criminalidade.
Talvez por isso eu nunca tenha conseguido enxergar os protagonistas de Hackers como delinquentes, apesar da quantidade absurda de crimes que eles cometem ao longo do filme. Eles são apresentados muito mais como exploradores do que como destruidores. Existe uma ética implícita ali que sempre me chamou atenção. Informação deve circular. Sistemas devem ser compreendidos. Autoridade deve ser questionada. É uma visão extremamente romântica da cultura hacker, claro, mas também muito mais fiel às suas origens do que a caricatura construída posteriormente pelo cinema e pela televisão.
Essa perspectiva também torna o antagonista muito mais interessante. Eugene Belford, conhecido como The Plague, não representa simplesmente um criminoso. Ele representa alguém que domina tecnologia sem compartilhar da curiosidade que move os outros personagens. Enquanto Dade, Kate e o restante do grupo usam conhecimento técnico para explorar sistemas, Belford utiliza exatamente o mesmo conhecimento para consolidar poder, manipular informação e proteger interesses corporativos. O conflito principal do filme nunca foi entre hackers e computadores. Sempre foi entre duas maneiras completamente diferentes de enxergar tecnologia.

Talvez seja justamente aí que Hackers revele sua camada política mais interessante. O filme foi lançado numa época em que a internet ainda era percebida como um território relativamente aberto, descentralizado e difícil de controlar. Hoje vivemos praticamente o cenário oposto. Boa parte da nossa experiência online acontece dentro de plataformas fechadas, controladas por poucas empresas capazes de definir algoritmos, regras de moderação, modelos de negócio e até aquilo que conseguimos ou não encontrar.
Revendo o filme trinta anos depois, é difícil não perceber que aquela tensão entre indivíduos curiosos e estruturas corporativas continua existindo. Mudaram os servidores, mudaram os protocolos e mudaram as interfaces, mas a disputa entre abertura e controle permanece praticamente a mesma.
Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido assistir a Hackers apenas como um filme sobre computadores. Para mim, ele sempre foi um filme sobre liberdade intelectual. A tecnologia aparece como ferramenta, mas a curiosidade continua sendo o verdadeiro motor da narrativa. Talvez isso explique por que ele conversa tão bem com a minha própria trajetória. Muito antes de trabalhar com bancos de dados, infraestrutura ou comunidades online, eu já era exatamente aquele tipo de adolescente que passava horas na frente do computador tentando descobrir como tudo funcionava. Não porque alguém tivesse mandado. Não porque existisse uma recompensa no final. Simplesmente porque entender sistemas sempre me pareceu uma das formas mais divertidas de explorar o mundo.

O figurino talvez tenha envelhecido melhor do que a própria tecnologia
Em Hackers você pode esquecer completamente o diálogo e continuar entendendo quem são aqueles personagens apenas olhando para a maneira como eles se vestem. Isso não acontece por acaso. O figurino nunca foi pensado apenas como roupa; ele funciona quase como uma extensão da personalidade de cada um. Hoje estamos acostumados a chamar esse tipo de construção visual de worldbuilding, mas o filme fazia isso numa época em que Hollywood ainda tratava a maior parte dos adolescentes como pessoas vestidas exatamente da mesma maneira.
É impossível falar sobre isso sem mencionar Angelina Jolie.
Kate Libby, ou Acid Burn, continua sendo uma das personagens mais estilosas já colocadas num filme sobre tecnologia. Existe uma mistura muito específica de cyberpunk, moda clubber, rave, streetwear dos anos 90 e estética industrial que continua funcionando incrivelmente bem quase trinta anos depois. As jaquetas de couro, os óculos coloridos, as botas, os cabelos curtos, os cortes assimétricos e a maneira como ela ocupa cada cena fazem parecer que aquele universo inteiro foi construído ao redor dela.
Não vou fingir imparcialidade aqui. Acho que todo mundo que cresceu assistindo Hackers teve algum tipo de crush na Angelina Jolie naquela época, mas o meu sempre foi o Jonny Lee Miller e Matthew Lillard. Os dois juntos... *suspiros*
Existe alguma coisa muito carismática na forma como Miller interpreta Dade Murphy. Talvez porque ele nunca tente parecer o gênio inalcançável que Hollywood normalmente associa a personagens extremamente inteligentes. Ele continua sendo um adolescente inseguro, competitivo, um pouco arrogante, extremamente curioso e completamente apaixonado por computadores. Como alguém que passou boa parte da adolescência exatamente na frente de um monitor, era impossível não me identificar um pouco com aquilo. Eu definitivamente não era a pessoa mais popular da escola. Também nunca fui a pessoa que parecia mais interessante à primeira vista. Mas bastava me colocar na frente de um computador para eu esquecer completamente o resto do mundo.
Talvez por isso eu tenha criado um vínculo tão forte com esse tipo de filme. Enquanto muita gente cresceu sonhando em ser astronauta, cantora ou atleta profissional, eu passava horas vendo qualquer coisa relacionada a hackers, inteligência artificial, ficção científica, terror, horror psicológico ou cyberpunk. Eram justamente essas histórias que alimentavam minha curiosidade. Eu queria entender como computadores funcionavam, aprender inglês para conseguir acessar mais conteúdo sobre tecnologia, desmontar equipamentos, descobrir como páginas da internet eram construídas e entender por que determinadas coisas simplesmente aconteciam quando apertávamos alguns botões. Sem perceber, aquele interesse acabou moldando não apenas meus hobbies, mas toda a minha carreira.
Acho que existe uma conexão muito forte entre Hackers e boa parte da ficção científica produzida nos anos 90. Diferentemente da estética extremamente limpa que dominou parte dos anos 2000, aqueles filmes imaginavam o futuro como um lugar caótico, colorido, cheio de cabos aparentes, telas enormes, luzes neon, equipamentos improvisados e pessoas tentando adaptar tecnologias novas a uma realidade que ainda não sabia muito bem o que fazer com elas. Era um futuro bagunçado, quase artesanal, e talvez seja justamente isso que continue tornando aquela direção de arte tão interessante.

Hoje chamamos isso de retrofuturismo, na época, era simplesmente o futuro.
É curioso perceber como praticamente todas as previsões tecnológicas do filme erraram em detalhes, mas acertaram completamente o sentimento. Os computadores não evoluíram daquela maneira. A internet também não. Ainda assim, a ideia de que viveríamos cercados por tecnologia, vigilância, redes globais, disputas por informação e uma relação cada vez mais íntima entre identidade e computadores acabou se tornando muito mais verdadeira do que qualquer visualização tridimensional dos sistemas mostrada na tela.
Eu nunca consigo assistir a Hackers apenas como uma curiosidade nostálgica. Para mim, ele continua funcionando como uma fotografia de uma internet que ainda acreditava que tecnologia significava liberdade. Não porque aquela internet realmente fosse perfeita, muito longe disso, mas porque existia um sentimento muito forte de exploração, criatividade e descoberta que hoje parece cada vez mais raro. Talvez eu também esteja romantizando parte dessa época, afinal a memória faz isso o tempo inteiro, mas acho difícil assistir ao filme sem sentir uma certa saudade daquele momento em que entrar num computador parecia menos consumir uma plataforma e mais descobrir um mundo inteiro escondido atrás da tela.
A trilha sonora entendia exatamente quem era aquele público
Se existe uma coisa que envelheceu tão bem quanto o figurino, talvez seja a trilha sonora. Na verdade, acho que ela envelheceu ainda melhor. Enquanto alguns efeitos visuais inevitavelmente entregam a idade do filme, a seleção musical continua parecendo absurdamente moderna. Não é exagero dizer que Hackers possui uma das melhores trilhas sonoras dos anos 90, principalmente se você gosta de música eletrônica.
Orbital, Underworld, Leftfield, The Prodigy, Massive Attack, Carl Cox... olhando hoje, parece quase impossível acreditar que um estúdio tenha aprovado uma seleção tão específica para um filme voltado ao grande público. Em vez de usar música apenas para preencher silêncio, Hackers transforma cada faixa numa extensão daquele universo. A música não acompanha a tecnologia. Ela é parte dela.
Isso também diz muito sobre o momento em que o filme foi produzido. A cultura rave ainda estava crescendo, a música eletrônica começava a ocupar um espaço muito maior na cultura pop e existia uma associação quase imediata entre computadores, clubes underground, hackers e esse imaginário futurista. Hoje essas conexões parecem menos óbvias porque a tecnologia foi completamente absorvida pelo cotidiano. Em 1995, porém, computadores ainda carregavam uma aura de novidade. Eles pertenciam muito mais ao futuro do que ao presente.
A trilha sonora traduz exatamente essa sensação.
Ela nunca tenta soar tecnológica de maneira óbvia. Pelo contrário. Ela transmite energia, velocidade, experimentação e movimento. É difícil imaginar Hackers funcionando da mesma maneira com uma trilha sonora orquestral ou com rock convencional. A música eletrônica faz parte da identidade do filme tanto quanto os computadores.
Por isso que sempre que escuto algumas dessas faixas hoje, minha memória não volta apenas para o filme, ela volta para aquela época inteira. Volta para o começo da internet, para os CDs que eu gravava, para os fóruns, para o Winamp tocando música enquanto eu passava horas navegando sem objetivo nenhum além de descobrir alguma coisa nova.

Acho que poucas trilhas conseguem fazer isso.
Hollywood nunca mais conseguiu fazer outro Hackers
O mais curioso é que Hollywood passou os trinta anos seguintes tentando repetir Hackers sem perceber exatamente por que ele funcionava. Vieram filmes como Swordfish, The Net, Blackhat e dezenas de produções que tentavam representar invasões de sistemas de maneira cada vez mais "realista". Algumas acertaram muito mais tecnicamente. Nenhuma conseguiu capturar a mesma energia. Isso acontece porque Hackers nunca dependeu da precisão técnica, ele dependia de personalidade. A maioria dos filmes sobre tecnologia trata computadores como ferramentas. Em Hackers, computadores fazem parte da identidade dos personagens, eles não apenas usam tecnologia.
Também existe uma influência enorme sobre tudo aquilo que veio depois. É impossível olhar para produções como Mr. Robot, por exemplo, sem perceber que boa parte da estética hacker construída pelo cinema passou primeiro por Hackers. A série de Sam Esmail obviamente é muito mais precisa tecnicamente, mas ela também herda aquela ideia de que computadores não são apenas máquinas. São espaços onde pessoas projetam identidade, obsessões, medos e desejos.

Da mesma forma, boa parte da estética cyber dos anos seguintes parece carregar um pouco do DNA visual do filme. Não porque Hackers tenha inventado o cyberpunk, muito longe disso, mas porque ajudou a popularizar uma linguagem visual que misturava moda, música eletrônica, computadores, grafite, skate, cultura rave e tecnologia como se tudo fizesse parte da mesma subcultura.
É engraçado pensar que Hackers provavelmente seria muito menos divertido se fosse tecnicamente correto. Imagine assistir durante duas horas a pessoas digitando comandos em um terminal, esperando processos terminarem, consultando documentação e depurando scripts. Seria uma representação muito mais fiel da realidade e infinitamente menos interessante como cinema. Apesar de ter cenas onde eles discutem livros técnicos e lidam com dezenas de papeis impressos para decifrar um virus, mas nada perto da tortura do dia a dia.
O filme escolhe mentir sobre computadores para dizer uma verdade muito maior sobre a relação que uma geração inteira desenvolveu com eles.

Quando assisti Hackers pela primeira vez, eu não saí acreditando que seria possível navegar pela internet voando entre prédios digitais. Saí com a sensação de que existia um mundo inteiro esperando para ser explorado. Acho que essa foi exatamente a mesma sensação que tive quando meu pai me apresentou meu primeiro computador e imprimiu um manual inteiro do Windows 98 para que eu aprendesse a usá-lo. Naquela época, abrir um computador parecia menos usar uma ferramenta e mais abrir uma porta.
Hoje consigo enxergar todos os defeitos de Hackers. O roteiro exagera, a tecnologia é completamente fantasiosa, algumas cenas beiram o absurdo e boa parte das interfaces parecem ter sido desenhadas depois de uma madrugada inteira misturando cafeína, música eletrônica e Photoshop.
Hackers nunca foi um documentário sobre segurança da informação, foi uma carta de amor à cultura hacker antes de ela ser reduzida ao estereótipo do criminoso digital. Foi um filme sobre curiosidade, comunidade, liberdade e sobre aquele momento específico da história em que a internet ainda parecia um território desconhecido, cheio de possibilidades e longe de ser dominado por meia dúzia de empresas.
Talvez eu também tenha um carinho especial por ele porque me lembra uma versão muito específica de mim mesma. A adolescente que passava horas na frente do computador, aprendendo inglês quase sem perceber, desmontando máquinas, customizando perfis, assistindo filmes de terror, horror, ficção científica e cyberpunk enquanto imaginava como seria trabalhar com tecnologia algum dia. Olhando para trás, é engraçado perceber que, de certa forma, eu acabei vivendo um pedacinho daquela fantasia. Não do jeito exagerado do cinema, claro, mas do jeito muito mais interessante que a vida costuma encontrar.













