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Por que resolvi construir um site do zero quando já existiam plataformas?

Por Vanny31 de julho de 202625 min de leitura

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Aviso de conteúdo: este artigo pode conter gatilhos.

Há alguns meses, achei que tinha perdido quinze anos da minha vida. Não porque meu computador queimou. Não porque fui roubada. Nem porque um HD resolveu morrer sem aviso. Bastou uma notificação dizendo que minha conta do Instagram havia sido suspensa para eu perceber o quanto da minha história estava armazenado em um lugar que, no fim das contas, nunca foi realmente meu.

Desde 2011, eu uso aquela conta como muita gente da minha geração usou a internet: para registrar a própria vida. Tem fotografias de shows que nunca vou conseguir repetir, viagens, mudanças de país, amigos que conheci pelo caminho, conversas, stories, projetos, fases boas, fases péssimas e um monte de momentos completamente banais que, justamente por serem banais, acabaram se tornando importantes. Durante alguns dias eu realmente não soube se conseguiria recuperar aquilo tudo. Consegui. Mas o susto ficou.

O curioso é que o medo não veio apenas da possibilidade de perder uma rede social. O medo veio porque eu já tinha vivido exatamente essa sensação outras vezes.

Ela só tinha outro nome.

Chamava Orkut.

Chamava Fotolog.

Chamava MySpace.

Chamava comunidade.

Chamava fórum.

Chamava blog.

Quando eu era adolescente, nunca imaginei que aquelas plataformas desapareceriam. Acho que ninguém imaginava. A gente simplesmente usava. Escrevia. Conversava. Publicava fotografias horríveis tiradas por câmeras de dois megapixels. Personalizava perfis durante horas. Fazia amizades que, em muitos casos, duram até hoje. Era um registro espontâneo da vida. Ninguém pensava que um dia precisaria fazer backup da própria adolescência.

Hoje, olhando para trás, percebo que uma parte enorme dela simplesmente deixou de existir.

E não foi só a minha.

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Recentemente assisti a um vídeo falando sobre preservação da memória digital. Um dado me chamou a atenção: aproximadamente um quarto das páginas publicadas entre 2013 e 2023 já desapareceram da internet. Quando o recorte vai para conteúdos anteriores a 2013, a perda é ainda maior. Não estamos falando apenas de links quebrados. Estamos falando de diários, fóruns, blogs pessoais, registros familiares, músicas, fotografias e comunidades inteiras que simplesmente deixaram de existir porque uma empresa fechou, mudou de estratégia ou fez uma migração desastrosa.

O caso mais conhecido talvez seja o MySpace. Durante anos, ele foi uma vitrine para músicos independentes. Milhões de faixas foram publicadas ali antes mesmo de serviços de streaming se tornarem o padrão. Em 2019, uma migração de servidores apagou praticamente todo o conteúdo publicado antes de 2016. Não houve recuperação. Não havia uma cópia escondida esperando ser restaurada. Aquela parte da história simplesmente desapareceu.

Antes disso, o GeoCities já tinha levado consigo quinze anos da internet dos anos 90. Depois vieram LiveJournal, Xanga, fóruns antigos, comunidades e tantas outras plataformas que pareciam permanentes enquanto existiam.

Para mim, a perda mais dolorosa aconteceu na internet brasileira.

O Orkut desapareceu levando comunidades inteiras que ajudaram uma geração a construir amizades, descobrir bandas, organizar shows e encontrar pessoas que moravam literalmente no bairro ao lado.

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A Mari Moon diva-inspiração!

O Fotolog levou consigo anos de fotografias, comentários e conversas. O Flogão, os blogs do Blogspot, do UOL Blog, do Terra Blog e tantas outras páginas pessoais também foram sendo abandonados, fechados ou simplesmente esquecidos à medida que a internet passou a concentrar tudo em poucas plataformas gigantes.

Na época, aquilo parecia normal. A gente criava um perfil novo, mudava de site e seguia a vida. Só muitos anos depois eu percebi que não estava apenas trocando de plataforma. Eu estava deixando pedaços da minha memória espalhados por lugares que talvez nunca mais voltassem a existir.

Penso muito nas pessoas que conheceram o primeiro namorado no Orkut, registraram a adolescência inteira no Fotolog, escreveram diários no Blogspot ou passaram anos publicando textos em blogs pessoais. Muita coisa foi preservada em capturas de tela e no Internet Archive, mas a maior parte simplesmente desapareceu. Comentários, listas de amigos, comunidades, personalizações, scraps, depoimentos... tudo aquilo fazia parte da experiência e, em muitos casos, nunca poderá ser reconstruído.

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A internet costuma ser tratada como se tivesse memória infinita. Na prática, ela sofre de um tipo curioso de amnésia. Ela esquece justamente as coisas que pareciam pequenas demais para alguém imaginar que um dia precisariam ser guardadas.

Quando um livro deixa de ser publicado, alguém ainda pode encontrar um exemplar usado em um sebo. Quando um filme sai de catálogo, ainda existe a possibilidade de alguém ter guardado um DVD numa estante qualquer. A internet, paradoxalmente, parece muito mais permanente do que qualquer mídia física, mas muitas vezes ela desaparece sem deixar vestígios.

Talvez por isso eu tenha ficado tão abalada quando perdi temporariamente o acesso ao Instagram. Não era apenas uma conta. Era a lembrança concreta de todas as outras vezes em que achei que aquelas memórias estariam disponíveis para sempre e descobri, tarde demais, que não estavam.

Foi durante aqueles dias de espera que percebi uma coisa. Eu não estava construindo um site. Eu estava tentando reconstruir uma casa.

O primeiro lugar onde eu realmente gostei de morar

Quando penso na internet da minha infância, não lembro primeiro de um site. Lembro do Windows 98.

Foi meu primeiro sistema operacional. Até hoje basta olhar para aquela interface cinza, aqueles ícones pixelados ou ouvir o som de inicialização para alguma coisa muito antiga despertar dentro de mim. Não é apenas nostalgia. É uma memória afetiva profundamente ligada a uma das poucas conexões que consegui construir com meu pai.

Ele trabalhava com tecnologia. Nossa relação nunca foi simples. Durante boa parte da minha vida, tive a sensação de que procurava nele uma figura paterna que existia mais como possibilidade do que como presença. Mas havia um assunto sobre o qual nós dois conseguíamos conversar: computadores.

Foi ele quem me apresentou aquele universo.

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Também foi ele quem imprimiu um manual inteiro do Windows 98 para eu ler. Não lembro quantas páginas tinha. Só lembro que eu realmente li quase tudo. Descobri como funcionava o sistema, aprendi a explorar configurações, fuçar o MS-DOS, entender por que as coisas quebravam e, principalmente, descobrir que quase tudo podia ser aprendido se eu tivesse curiosidade suficiente.

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Hoje é muito fácil dizer que foi ali que nasceu meu interesse por tecnologia. É verdade. Mas acho que essa explicação ainda está incompleta.

Eu gostava de computadores porque eles eram fascinantes.

Também gostava porque eram uma das poucas coisas que pareciam me aproximar do meu pai.

Ele sempre falava do trabalho. Das promoções, dos desafios, das empresas por onde passava. Era um dos poucos assuntos que despertavam entusiasmo nele. Durante muito tempo, acho que tentei encontrar um jeito de fazer parte daquele mundo porque queria que ele também enxergasse alguma coisa em mim. Talvez eu estivesse procurando aprovação. Talvez estivesse procurando conexão. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo.

Não consigo separar completamente essas motivações.

E, sinceramente, acho que nem preciso.

Antes da internet ser um lugar para trabalhar, ela foi um lugar para existir

Eu cresci numa família simples. Minha mãe trabalhava praticamente o tempo inteiro. Minha avó era extremamente protetora, e com razão. O bairro onde eu morava não era exatamente o tipo de lugar onde uma criança podia passar o dia inteiro brincando na rua sem preocupação.

Isso significava que eu passava muito tempo dentro de casa.

Eu sempre fui uma criança curiosa. Gostava de aprender, desmontar coisas, fazer perguntas, conversar. Também era uma criança que se entediava com facilidade. Acho que essa combinação explica boa parte da minha personalidade até hoje.

Quando aquele computador chegou, ele deixou de ser apenas um objeto. Virou um lugar.

Um lugar onde minha curiosidade não era inconveniente. Onde eu podia abrir programas só para descobrir o que faziam, explorar menus sem medo, aprender alguma coisa nova todos os dias e passar horas tentando entender como tudo funcionava. Enquanto muita gente lembra do Windows 98 por causa do visual ou dos jogos, eu lembro principalmente da sensação de liberdade que ele me dava.

Foi provavelmente o primeiro espaço onde senti que podia explorar o mundo sem pedir permissão. Na época eu ainda não tinha palavras para descrever isso. Hoje percebo que aquele computador me oferecia exatamente o que eu mais precisava: autonomia. Porque fora dele eu tinha muito pouca.

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Meu acesso à internet veio logo depois, e ele também era limitado. Não existia banda larga em casa. Era internet discada da BOL, daquelas que anunciavam para a casa inteira que alguém estava prestes a ocupar a linha telefônica. Eu sabia exatamente em que horário era mais barato conectar e, sem perceber, comecei a reorganizar minha vida em torno disso. Passei a dormir durante o dia e ficar acordada durante a madrugada porque era quando a internet finalmente ficava acessível. É engraçado pensar que um dos hábitos que mais me acompanhou por anos (e volta, de vez em quando) talvez tenha começado por causa da tarifa reduzida de uma operadora telefônica.

Antes mesmo do computador, eu já brincava com internet pelo celular. Era aquele WAP primitivo, em aparelhos com teclado numérico, onde escrever uma frase exigia uma paciência quase arqueológica. Depois vieram as salas de bate-papo do UOL, do BOL, do iG. Hoje parece absurdo imaginar uma adolescente conversando com completos desconhecidos em chats públicos durante a madrugada, mas aquela internet ainda era um território sendo descoberto. Ninguém sabia exatamente quais eram as regras, os perigos ou as consequências. A gente simplesmente entrava.

Foi ali que comecei a perceber uma coisa que mudaria completamente a minha vida: existiam pessoas parecidas comigo.

Isso pode parecer uma descoberta pequena para quem cresceu com redes sociais capazes de conectar qualquer nicho em poucos segundos, mas não era. No meu bairro, eu me sentia uma exceção. Na escola, então, nem se fala. Eu gostava de bandas que quase ninguém conhecia, usava roupas que chamavam atenção e tinha interesses que pareciam completamente deslocados do ambiente onde cresci. Eu não queria ser diferente por rebeldia. Eu simplesmente era.

A internet me mostrou que eu não era uma exceção. Eu só estava procurando no lugar errado.

No Orkut, bastava encontrar uma pessoa interessante e abrir a lista de amigos dela. Depois a lista dos amigos daqueles amigos. De repente, você descobria outra menina alternativa que morava em Carapicuíba, um garoto de Osasco que frequentava os mesmos shows, alguém do ABC que tinha o mesmo Fotolog salvo nos favoritos. Curiosamente, aquela internet era muito mais local do que a de hoje. Antes de conhecer gente do outro lado do mundo, eu conhecia pessoas que moravam a vinte minutos da minha casa e que, por alguma razão, eu nunca teria encontrado sem um perfil do Orkut.

As redes sociais atuais vivem prometendo conectar o planeta inteiro. Às vezes tenho a impressão de que, no processo, elas esqueceram como conectar uma cidade.

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Sempre que alguém fala sobre nostalgia da internet, existe uma tendência a transformar aquele período numa espécie de paraíso perdido. Não era. A internet dos anos 2000 também era cheia de problemas, preconceitos, desinformação e situações perigosas. Eu jamais romantizaria isso.

O que sinto falta não é daquela internet especificamente. É da facilidade com que ela permitia construir comunidades.

Hoje passamos horas vendo conteúdo produzido por pessoas que provavelmente nunca responderão uma mensagem nossa. Naquela época, a internet parecia muito mais horizontal. Você comentava no Fotolog de alguém e a pessoa respondia. Entrava numa comunidade do Orkut e realmente conversava com quem estava ali. Descobria uma banda no MySpace e, muitas vezes, conseguia trocar algumas mensagens diretamente com os integrantes.

Foi assim que conheci pessoas que continuam fazendo parte da minha vida até hoje.

Alguns dos meus melhores amigos surgiram dessas plataformas. Conheci músicos de bandas que eu admirava. Fiz amizades internacionais quando meu inglês ainda era péssimo e eu passava mais tempo procurando palavras no dicionário do que escrevendo frases completas. Sem perceber, eu estava aprendendo outro idioma porque queria conversar com pessoas, não porque alguém tinha colocado aquilo numa prova.

Hoje fala-se muito sobre comunidades online como estratégia de negócio, retenção de usuários ou construção de marca. Engraçado pensar que, antes de tudo isso virar um mercado, para mim comunidade era simplesmente um grupo de pessoas que fazia você se sentir menos sozinho.

Talvez seja por isso que passei os últimos cinco anos trabalhando justamente com comunidades. Quando entrei nessa área profissionalmente, muita gente perguntava como eu tinha ido parar ali. Para mim, a pergunta sempre pareceu invertida. Eu praticamente cresci dentro da internet. Passei mais de vinte anos observando fóruns, redes sociais, comunidades, plataformas, sistemas de reputação, ferramentas de moderação e diferentes maneiras de pessoas interagirem umas com as outras. Trabalhar com isso acabou parecendo uma consequência muito mais natural do que uma mudança de carreira.

Passei anos participando de discussões sobre experiência do usuário, estrutura de plataformas, comportamento de comunidades, design de funcionalidades, moderação, sistemas de reputação e até posicionamento de anúncios. Aprendi muito vendo o que aproximava as pessoas de um espaço e, principalmente, o que fazia com que elas o abandonassem.

Sem perceber, eu estava reunindo as ferramentas que usaria para construir este lugar.

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Enquanto eu descobria tudo isso, a vida fora da tela estava ficando cada vez mais difícil.

Sofri bullying durante boa parte da adolescência. Troquei de escola mais de uma vez. Me envolvi em brigas que nunca procurei, mas das quais também nunca soube fugir. Sempre fui uma pessoa muito aberta a fazer amizades, independentemente do gosto musical, da forma de se vestir ou da tribo de alguém. Nunca precisei que uma pessoa gostasse das mesmas bandas que eu para querer conversar com ela.

Ao mesmo tempo, nunca consegui ficar calada quando via alguma injustiça.

Essa combinação raramente produz uma adolescência tranquila.

Eu era uma das poucas meninas claramente alternativas na escola. Num bairro onde a maior parte das pessoas ouvia os estilos mais populares da época ou frequentava igrejas evangélicas, aparecer de preto, ouvir hardcore, metal ou emo fazia com que eu parecesse quase uma personagem de ficção. Não demorou para surgirem os comentários. Satânica. Estranha. Esquisita. Sem futuro. Parecia que qualquer diferença estética autorizava as pessoas a imaginar todo o resto da minha personalidade.

Hoje eu olho para trás e percebo que aquilo dizia muito mais sobre o medo que as pessoas tinham do diferente do que sobre mim.

Na época, porém, eu só sentia que havia alguma coisa errada comigo.

O bullying começou a afetar meus estudos. Eu sempre fui uma boa aluna, mas também era uma criança que se entediava facilmente e, sem saber que tinha TDAH, passava boa parte do tempo acreditando que simplesmente não fazia esforço suficiente. Aos poucos fui deixando de conseguir prestar atenção nas aulas, perdi completamente a vontade de estar naquele ambiente e acabei abandonando a escola durante o segundo ano do ensino médio.

Passei aproximadamente seis meses quase sem sair de casa.

Foi um dos períodos mais difíceis da minha vida.

Naquela época eu não sabia explicar o que estava acontecendo. Não falava sobre depressão porque nem entendia direito o que aquela palavra significava. Só sabia que existia uma angústia constante, uma falta absurda de energia e uma sensação de que nada fazia muito sentido. Dormia durante o dia, passava a madrugada inteira acordada e evitava até mesmo alguns dos poucos amigos que ainda tentavam me procurar.

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Foi durante esse período que tentei tirar a minha própria vida.

Hoje consigo falar sobre isso de um lugar completamente diferente. Não porque tenha deixado de doer, mas porque finalmente entendo o que eu não conseguia enxergar aos dezesseis anos. Eu não queria acabar com a minha vida. Eu queria acabar com aquele estado permanente de sofrimento. Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas, mas, quando você está no fundo de uma depressão, elas parecem exatamente iguais.

A internet não me salvou. Seria irresponsável dizer isso. Mas ela fez algo que, olhando para trás, considero extremamente importante: ela me manteve curiosa quando eu já não conseguia encontrar interesse em quase mais nada.

Enquanto eu passava horas editando fotografias, personalizando o MySpace, aprendendo HTML sem perceber que estava aprendendo HTML, conversando em comunidades do Orkut ou tentando escrever em inglês para músicos que admirava, alguma parte da minha cabeça continuava funcionando. Eu achava que estava apenas matando tempo. Na verdade, eu estava construindo ferramentas que usaria pelo resto da vida.

Naquela época, eu jamais imaginaria que passar horas customizando um perfil do MySpace, aprendendo um pouco de HTML para mudar a cor de um menu ou tentando entender por que um código quebrava completamente o layout pudesse ter qualquer utilidade profissional. Eu só queria que meu perfil ficasse bonito. Queria que ele tivesse a minha cara. Queria entrar na minha própria página e sentir que ela era diferente das outras.

Sem perceber, eu estava aprendendo lógica.

Aprendendo design.

Aprendendo experiência do usuário.

Aprendendo arquitetura da informação.

Aprendendo a observar como as pessoas interagiam com interfaces.

Aprendendo que uma pequena mudança visual podia fazer alguém permanecer mais tempo em um site ou abandoná-lo completamente.

Na época eu chamava isso de brincar na internet. Hoje chamam de UX, front-end, design de produto, gestão de comunidades ou estratégia digital. A diferença é que, quando eu comecei, ninguém usava esses nomes.

A mesma coisa aconteceu com fotografia. Passei horas editando imagens para postar no Fotolog porque queria que elas transmitissem uma sensação específica. Depois vieram os vídeos, os fóruns, os blogs, os perfis personalizados, os fakes do Orkut, os layouts, os códigos, as comunidades. Quando olho para trás, percebo que boa parte da minha carreira foi construída muito antes de eu entrar numa faculdade. Ela começou enquanto eu tentava deixar um perfil bonito às três da manhã.

É curioso como a sociedade costuma chamar isso de "perder tempo" quando você é adolescente e de "experiência" quando você coloca no currículo.

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Quando finalmente consegui sair daquela depressão, voltar a estudar e reorganizar minha vida, eu já não era a mesma pessoa que tinha abandonado a escola meses antes. Eu tinha aprendido muita coisa. Só que quase nada tinha vindo da sala de aula.

Aprendi inglês porque queria conversar com pessoas de outros países.

Aprendi fotografia porque queria registrar shows e meu estilo.

Aprendi edição porque queria que minhas imagens ficassem parecidas com as das pessoas que eu admirava.

Aprendi HTML porque queria personalizar um perfil.

Aprendi a escrever porque passei anos publicando textos em comunidades, fóruns e blogs.

Aprendi sobre convivência porque participei de espaços onde pessoas completamente diferentes precisavam dividir o mesmo ambiente.

Aprendi sobre moderação porque vi comunidades excelentes morrerem quando ninguém estabelecia limites e outras florescerem quando existia uma cultura saudável.

Aprendi que tecnologia nunca foi apenas tecnologia.Ela sempre foi um jeito de aproximar pessoas. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar completamente minha vida profissional da minha vida pessoal. A internet nunca foi apenas um trabalho para mim. Ela sempre foi um lugar onde vivi.

A ironia é que eu ajudei outras plataformas a construir comunidades enquanto ainda sonhava com a minha

Anos depois, acabei trabalhando justamente com aquilo que havia feito durante toda a adolescência.

Passei mais de cinco anos ajudando a construir comunidades online, participando de discussões sobre experiência do usuário, produto, design, comportamento, moderação e crescimento de plataformas. Tive a oportunidade de trabalhar ao lado de pessoas extremamente inteligentes, acompanhar pesquisas, testar funcionalidades e entender, por trás das cortinas, como um grande produto digital toma decisões.

Foi uma experiência que mudou completamente a forma como enxergo a internet.

Quando você trabalha numa plataforma desse tamanho, percebe que praticamente tudo é pensado. A posição de um botão. A quantidade de anúncios. A cor de um elemento. O fluxo de cadastro. O momento em que uma notificação aparece. Quanto tempo uma pessoa permanece lendo um texto. O que faz alguém voltar amanhã.

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Existe uma engenharia enorme por trás de experiências que parecem completamente naturais. Eu aprendi muito observando tudo isso.

E, inevitavelmente, comecei a imaginar como seria construir um espaço onde eu pudesse aplicar essas ideias sem abrir mão daquilo que considero mais importante: a personalidade.

Porque existe uma diferença enorme entre uma plataforma eficiente e uma plataforma memorável.

A internet ficou extremamente eficiente.

Mas, em muitos casos, deixou de ser memorável.

Eu não queria apenas publicar. Eu queria construir um lugar.

Essa talvez seja a parte mais difícil de explicar...

Muita gente me perguntou por que eu simplesmente não criava uma newsletter, um Substack, um Medium ou qualquer outro serviço pronto. Afinal, já existem dezenas de plataformas que resolvem praticamente todos os problemas de quem quer escrever.

E eu fiz. Elas resolvem. Mas elas resolvem um problema diferente do meu. Eu nunca quis apenas um editor de texto. Eu queria um lugar. Queria abrir uma página e sentir a mesma curiosidade que sentia quando entrava no site de alguém nos anos 2000. Queria que as pessoas explorassem o desktop, clicassem em ícones, descobrissem detalhes escondidos, encontrassem playlists, livros, fotografias, artigos e pequenos pedaços da minha personalidade espalhados pelo caminho.

Queria que visitar o site fosse uma experiência, não apenas uma leitura.

Hoje quase todas as plataformas seguem a mesma lógica. Você entra, rola infinitamente para baixo, consome o conteúdo e vai embora. Elas foram desenhadas para reduzir atrito. Faz sentido do ponto de vista do negócio. Só que eu sentia falta justamente do atrito. Sentia falta da descoberta. Da sensação de entrar numa página e perceber que alguém realmente passou horas pensando em como ela deveria parecer. Daquela impressão de que você não estava apenas consumindo conteúdo. Estava visitando alguém. Foi isso que tentei construir aqui.

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Enquanto eu construía este site, comecei a reparar num monte de gente fazendo movimentos parecidos, mesmo que por caminhos completamente diferentes. Pessoas voltando a comprar CDs, colecionar vinis, restaurando câmeras digitais antigas, comprando iPods, montando aparelhos de som enormes só para ouvir um álbum do começo ao fim.

Outras começaram a construir cyberdecks usando Raspberry Pi, reaproveitando sucata eletrônica, transformando computadores velhos em máquinas completamente novas. Tem gente imprimindo peças em 3D para montar um computador que parece ter saído de um filme de ficção científica dos anos 90. E, curiosamente, quase todas essas pessoas falam da mesma sensação: a de finalmente estar construindo alguma coisa.

No começo achei que fosse apenas nostalgia. Afinal, eu mesma tenho uma coleção de vinis, alguns VHS, DVDs, fitas cassete e uma dificuldade enorme de passar por um aparelho eletrônico antigo sem imaginar como ele funcionava por dentro. Só que quanto mais eu via esse movimento crescer, menos ele me parecia uma tentativa de voltar ao passado.

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Acho que ninguém quer voltar para a internet discada. Ninguém sente falta de esperar uma foto carregar linha por linha. Ninguém quer pagar por minuto de conexão. O que muita gente parece querer recuperar é outra coisa. É a sensação de participar da tecnologia em vez de apenas consumi-la.

Durante muito tempo a internet nos convidava a mexer nela. Você aprendia HTML porque queria deixar seu perfil diferente. Aprendia Photoshop porque queria editar uma fotografia. Descobria como instalar um sistema operacional, trocar uma peça do computador ou montar um blog porque aquilo fazia parte da experiência. Hoje quase tudo já vem pronto. Funciona melhor, é infinitamente mais rápido e acessível, mas também deixa muito menos espaço para curiosidade.

Talvez seja por isso que eu nunca tenha conseguido abandonar completamente essa vontade de construir as minhas próprias coisas.

Quando vejo alguém montando um cyberdeck, não penso apenas em um computador bonito. Eu lembro do dia em que montei o meu primeiro computador com o meu pai. Lembro das peças espalhadas pela mesa, do cheiro de equipamento eletrônico, da curiosidade de entender para que servia cada cabo. Fiz curso de manutenção de computadores mais tarde, passei anos desmontando máquinas minhas e de amigos, consertando qualquer coisa eletrônica que aparecesse na minha frente. Sempre gostei dessa sensação de entender como as coisas funcionam. Não porque eu precisasse. Porque isso me dava uma sensação estranha de autonomia.

Acho que o VannyZone nasce exatamente desse mesmo impulso. Não foi suficiente abrir uma conta em mais uma plataforma. Eu queria entender como ela funcionava. Queria decidir onde cada botão ficava. Queria desenhar as janelas. Queria que a experiência de entrar aqui dissesse alguma coisa sobre mim antes mesmo de alguém começar a ler um texto.

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Passei cinco anos trabalhando com comunidades na internet e participei de inúmeras discussões sobre experiência do usuário, produto, design, moderação e comportamento. Aprendi muito observando como pequenos detalhes mudavam completamente a forma como as pessoas interagiam com uma plataforma. O curioso é que esse conhecimento nunca me fez querer criar uma rede social. Fez com que eu tivesse ainda mais vontade de criar um lugar.

Existe uma diferença enorme entre manter alguém preso numa plataforma e fazer alguém querer voltar porque gosta de estar ali.

É essa segunda sensação que eu quero construir aqui.

Outro dia assisti a um vídeo dizendo que talvez o cyberpunk já tenha começado e que a gente simplesmente não percebeu porque passou décadas esperando braços robóticos, carros voadores e cidades iluminadas por neon. Fechei o vídeo dando risada, mas continuei pensando naquilo. Porque, olhando ao redor, realmente parece que algumas previsões estavam certas. Nunca tivemos tanta tecnologia, tanta inteligência artificial, tanto poder de processamento no bolso e, ao mesmo tempo, tanta gente da minha geração sem perspectiva de comprar uma casa, construir patrimônio ou ter a estabilidade que alguns tiveram no passado.

Talvez seja coincidência que tanta gente esteja voltando a construir pequenos mundos próprios justamente agora.

Talvez não seja.

Quando a realidade parece cada vez mais difícil de controlar, faz sentido procurar algum lugar onde ainda seja possível escolher as cores da parede. Algumas pessoas fazem isso montando um jardim. Outras reformam móveis antigos. Tem quem faça cerâmica, costure roupas, monte teclados mecânicos, colecione discos ou transforme lixo eletrônico em computadores novos.

Eu por ter TDAH, fiz tudo isso e mais um pouco, além de construir esse site. (E dezenas de outros antes desse)

E talvez isso pareça uma enorme perda de tempo para muita gente. Honestamente, eu também já pensei assim algumas vezes. Mas, olhando para trás, percebo que as maiores coisas que aprendi na vida quase sempre começaram desse jeito. Pareciam hobbies completamente inúteis. Pareciam distrações. Pareciam apenas uma forma de passar o tempo. Foi assim que aprendi inglês, fotografia, tecnologia e foi assim que construí minha carreira.

E, talvez sem perceber, seja assim que estou conseguindo atravessar mais uma fase difícil da minha vida. Porque, no fundo, este site nunca existiu para competir com Instagram, Substack ou qualquer outra plataforma. Ele existe porque eu precisava de um lugar que não me desse a sensação de estar morando de favor.

Eu não sei onde vou morar. Mas finalmente sei onde quero registrar os próximos anos da minha vida.

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Tem uma ironia nessa história toda que só percebi enquanto escrevia este texto. Passei boa parte da minha vida procurando um lugar onde sentisse que pertencia. Primeiro na escola, depois na internet, depois em relacionamentos, depois no trabalho, depois em outro país. Hoje continuo numa fase de transição. Não sei se vou continuar morando nos Estados Unidos, se vou voltar para o Brasil ou se minha vida vai tomar um rumo completamente diferente. Pela primeira vez em muitos anos, eu realmente não tenho uma resposta pronta para essa pergunta.

Durante muito tempo isso me incomodou. Eu sempre gostei de ter um plano. Saber qual era o próximo passo. Organizar a vida como se ela fosse uma lista de tarefas que bastasse executar na ordem certa. Só que existe uma diferença enorme entre resolver um problema de banco de dados e descobrir onde você quer construir a sua vida.

Infelizmente, SQL não ajuda muito nessa parte. A depressão também não.

Uma das coisas mais estranhas da depressão é que ela muda a escala das coisas. Ela faz você acreditar que o problema é muito maior do que realmente é, ou que não existe solução possível, mesmo quando, racionalmente, você sabe que existe. Hoje eu sei que não estou sozinha. Tenho amigos incríveis, minha mãe, pessoas da minha família e uma rede de apoio pela qual sou profundamente grata.

Mesmo assim, continuo tendo dificuldade de pedir ajuda. Sempre tive. É muito mais fácil escrever. Talvez por isso este blog necessite existir. Não porque escrever substitua terapia. Não substitui. Não porque eu ache que desconhecidos na internet devam carregar problemas que pertencem à minha vida. Também não é isso. Escrever, para mim, sempre foi uma forma de organizar pensamentos. Quando uma ideia sai da minha cabeça e ganha um parágrafo, ela deixa de ser apenas uma sensação confusa e passa a ocupar um lugar onde posso observá-la de fora.

Às vezes continuo sem encontrar uma resposta, mas pelo menos consigo formular a pergunta correta. E acho que é exatamente isso que quero fazer aqui.

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Nem todos os textos vão falar sobre saúde mental. Muito pelo contrário. Quero escrever sobre música, livros, filmes, fotografia, tecnologia, internet, carreira, política, comportamento, moda, viagens, cultura e todas essas obsessões aleatórias que ocupam espaço demais na minha cabeça. Quero fazer reviews. Quero escrever ensaios enormes sobre assuntos que provavelmente interessam a poucas pessoas. Quero compartilhar produtos que realmente uso, roupas que gosto, equipamentos, discos, lugares que visitei, ideias que ainda estou tentando entender e até cursos que pretendo finalmente tirar do papel.

Não quero me limitar a um único assunto porque eu nunca consegui viver desse jeito.

Sempre achei estranho quando diziam que uma pessoa precisava escolher apenas um nicho para existir na internet. Como se a gente pudesse separar a própria personalidade em departamentos completamente independentes.

A música influenciou a maneira como penso sobre política.

A tecnologia mudou a forma como enxergo comunidades.

Livros alteraram minha maneira de ouvir determinados discos.

Viagens mudaram minhas opiniões sobre cultura.

Tudo conversa entre si.

Então faz sentido que este lugar também funcione assim.

Talvez esse seja o maior motivo de eu ter construído o VannyZone. Eu não queria uma plataforma onde eu publicasse conteúdo. Eu queria um lugar onde todas essas partes da minha vida pudessem finalmente conversar umas com as outras. Quem sabe, um dia, esse espaço cresça. Quem sabe eu consiga transformá-lo em algo maior, com cursos, projetos colaborativos ou até páginas para outras pessoas criarem seus próprios cantos na internet.

Essa ideia me anima muito, mas não tenho pressa. Acho que uma das vantagens de construir a própria casa é justamente poder levantar um cômodo de cada vez.

Passei anos ajudando outras plataformas a aproximarem pessoas. Agora quero tentar fazer isso do meu jeito. Não porque ache que vou reinventar a internet. Muito menos porque acredito que um blog vai mudar o mundo. Mas porque, durante muito tempo, a internet foi o lugar onde encontrei pessoas que mudaram a minha vida.

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Foi nela que conheci alguns dos meus melhores amigos. Foi nela que descobri bandas que me acompanharam até hoje. Foi nela que aprendi inglês, fotografia, tecnologia e tantas outras coisas que acabaram definindo minha carreira. Foi nela que encontrei comunidades que me fizeram sentir menos estranha quando eu tinha certeza de que havia alguma coisa errada comigo.

Se este site conseguir proporcionar uma fração dessa experiência para outra pessoa, já terá valido a pena.

Talvez alguém descubra uma banda por causa de um texto meu.

Talvez encontre um livro que mude sua forma de pensar.

Talvez decida criar um blog, montar um computador, aprender alguma coisa nova ou simplesmente perceba que não é a única pessoa tentando entender a própria vida.

Já seria suficiente.

Quando comecei este texto, achei que estava escrevendo sobre um site. Agora percebo que estava escrevendo sobre pertencimento. Passei muitos anos procurando um lugar onde eu sentisse que cabia. Em alguns momentos encontrei esse lugar em comunidades do Orkut. Em outros, numa casa de shows, numa sala de bate-papo, numa faculdade, numa empresa, numa cidade ou em pessoas específicas. Todos esses lugares me ajudaram a chegar até aqui, mas nenhum deles permaneceu exatamente igual.

Talvez seja essa a natureza das casas. Elas mudam. As pessoas mudam. A gente também.

Não faço ideia de onde estarei daqui a cinco anos. Não sei em que país vou morar, que trabalho vou estar fazendo ou quais serão minhas próximas obsessões. Talvez este site esteja completamente diferente. Espero que esteja. Significa que eu também continuei mudando.

Mas, neste exato momento, enquanto termino de escrever este texto, existe uma coisa da qual tenho certeza. Depois de muitos anos morando em plataformas de outras pessoas, finalmente comecei a construir a minha própria casa.

Se você chegou até aqui, obrigado por entrar.

Pode ficar à vontade!

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