Fleabag
Uma série sobre culpa, luto, sexo, intimidade e a estranha segurança de observar a própria vida de fora.

Existem personagens com quem nos identificamos porque compartilham nossos gostos, nossa história ou alguma característica muito específica da nossa personalidade e existem aqueles que produzem uma identificação um pouco mais desconfortável, porque reconhecemos neles mecanismos que talvez preferíssemos continuar tratando como peculiaridades exclusivamente nossas. Fleabag pertence completamente ao segundo grupo para mim. Não porque eu tenha feito exatamente as mesmas coisas que ela, embora eu também já tenha sido filha da puta em situações suficientes para não assistir à série ocupando nenhuma posição moral particularmente elevada, mas porque reconheci imediatamente a maneira como ela observa a própria vida enquanto participa dela.
A quebra da quarta parede é obviamente uma das características mais famosas da série, mas acho pouco chamar aquilo apenas de recurso cômico. Fleabag olha para a câmera durante conversas, sexo, encontros familiares, momentos constrangedores e situações emocionalmente insuportáveis porque existe sempre uma segunda conversa acontecendo paralelamente àquela que as outras pessoas conseguem ouvir. Ela pode estar sorrindo educadamente para alguém enquanto nos entrega, com uma sobrancelha levantada, a versão completamente diferente daquilo que realmente está pensando. É engraçado porque cria cumplicidade, mas quanto mais a série avança, mais fica evidente que essa cumplicidade também funciona como esconderijo.
Phoebe Waller-Bridge explicou que queria inicialmente que o público parecesse um amigo que Fleabag havia convidado para sua vida, até que essa amizade começasse a se aproximar demais e a câmera passasse a permanecer ali por mais tempo do que ela gostaria. Essa intenção muda completamente o significado do recurso. Nós não somos simplesmente espectadores privilegiados com acesso à versão verdadeira da personagem; somos parte do mecanismo que ela utiliza para não precisar permanecer inteiramente presente na própria experiência.
Foi isso que tornou a série estranhamente pessoal para mim.
Passei boa parte da vida fazendo alguma versão interna dessa mesma coisa. Não literalmente olhando para uma câmera imaginária, embora às vezes a minha cabeça provavelmente merecesse uma equipe de documentário, mas observando situações enquanto elas aconteciam como se uma parte de mim tivesse recuado alguns passos para comentar aquilo de fora. Eu consigo estar numa conversa e simultaneamente construir outra dentro da cabeça, analisar a pessoa, analisar minha própria reação, produzir uma piada, imaginar o que realmente gostaria de responder e decidir que talvez seja melhor manter tudo ali dentro.

Em parte, isso sempre me pareceu segurança.
Quando exponho exatamente aquilo que estou sentindo, nem sempre consigo controlar a intensidade depois que a porta abre. Dentro da cabeça consigo editar. Posso ser cruel sem machucar ninguém, posso ficar furiosa sem transformar imediatamente a raiva em ação, posso admitir coisas que seriam difíceis de dizer e posso observar sentimentos contraditórios sem precisar escolher instantaneamente qual deles representa minha posição oficial. Permanecer nesse espaço interno me dá alguns segundos extras entre sentir e agir.
O problema aparece quando essa distância deixa de ser apenas processamento e começa a se parecer com ausência.
É aí que Fleabag deixa de usar a quarta parede como uma brincadeira formal e começa a fazer algo que considero muito mais inteligente. A câmera não mostra apenas o que Fleabag pensa. Ela mostra para onde Fleabag vai quando não quer sentir aquilo que está acontecendo.
Uma crítica publicada quando a série estreou já descrevia esses apartes como uma estratégia de enfrentamento: enquanto Fleabag está olhando para nós e refugiada dentro da própria cabeça, ela não precisa lidar inteiramente com o mundo real. O que inicialmente parece apenas uma forma sofisticada de narração começa, portanto, a se comportar como sintoma narrativo.
E então aparece o Padre.
“Where did you just go?”
A segunda temporada poderia simplesmente ter repetido o recurso que tornou a primeira tão reconhecível. Fleabag continuaria olhando para a câmera, nós continuaríamos compartilhando o segredo e a série teria preservado uma fórmula extremamente eficiente. Em vez disso, Waller-Bridge faz uma das coisas mais inteligentes que já vi com uma quarta parede: coloca dentro da história alguém capaz de perceber quando Fleabag a atravessa.
Quando o Padre nota seu olhar e pergunta para onde ela acabou de ir, a sensação é quase invasiva. Sian Clifford, que interpreta Claire, descreveu essa ideia como o momento em que percebeu que Waller-Bridge estava tentando fazer algo radical com televisão, e críticas da temporada também identificaram a cena como uma espécie de quebra da própria quebra da quarta parede.
Para mim, porém, o que torna a cena extraordinária não é a esperteza metalinguística.
É o terror de ser percebida.
Até aquele momento existe um lugar em Fleabag ao qual ninguém possui acesso. A família não entra, os homens com quem transa não entram, Claire não entra, nós entramos. A câmera funciona como um quarto mental secreto onde ela pode correr sempre que a realidade começa a chegar perto demais. Então aparece alguém que olha diretamente para a porta e pergunta o que existe ali.
Eu entendo profundamente por que isso seria simultaneamente assustador e irresistivelmente atraente.

Existe uma fantasia enorme em encontrar alguém capaz de perceber quando você desaparece sem precisar que você produza um relatório detalhado sobre o desaparecimento. Alguém que reconheça a piada como piada, mas também perceba o segundo exato em que ela virou defesa. Alguém que consiga acompanhar a velocidade da sua cabeça sem transformar isso numa disputa e que, principalmente, não aceite automaticamente a versão cuidadosamente editada que você oferece.
É por isso que acho incompleto resumir a segunda temporada a Fleabag se apaixonando pelo Padre gostoso. Ela se apaixona por uma pessoa que consegue vê-la utilizando o próprio mecanismo narrativo que até então garantia que ninguém conseguiria vê-la completamente.
Para alguém que passou a vida se sentindo mais segura dentro da própria cabeça, existe pouca coisa mais íntima do que alguém perceber que você acabou de fugir para lá.
Nós não somos a ausência da máscara. Nós somos uma das máscaras.
Essa talvez seja minha interpretação favorita da série.
No começo, a câmera nos faz acreditar que conhecemos a verdadeira Fleabag. As outras pessoas recebem a versão socialmente editada, enquanto nós recebemos comentários, julgamentos, desejos, irritações e pensamentos inadequados. Parece intimidade absoluta. Só que, aos poucos, percebemos que ela também está performando para nós.
Ela quer nos fazer rir, quer que concordemos com ela, quer controlar como interpretamos as pessoas ao redor.
Quer garantir que, quando fizer alguma coisa horrível, entendamos pelo menos por que aquilo aconteceu.

A própria adaptação da peça para televisão tornou isso mais complexo. Waller-Bridge comentou que, no monólogo original, a descrição de Fleabag era praticamente a única perspectiva disponível sobre as outras pessoas; quando essas personagens passaram a existir fisicamente na série, o público ganhou a capacidade de perceber quando a narrativa dela sobre alguém não correspondia completamente ao que estávamos vendo.
Isso é fundamental porque Fleabag é uma narradora extremamente carismática, mas não necessariamente confiável.
Nós gostamos dela e, portanto, começamos querendo absolvê-la, mas série não deixa.
E eu também já fui filha da puta
Essa talvez seja uma das coisas que mais gosto em Fleabag: a série não precisa transformar uma mulher complicada numa vítima perfeita para justificar que continuemos interessados nela.
Fleabag sofreu, perdeu pessoas, está emocionalmente destruída e também fez merda.
A revelação envolvendo Boo reorganiza praticamente tudo que assistimos anteriormente. Até então, Fleabag parece uma mulher usando sexo, cinismo e humor para sobreviver ao luto pela melhor amiga. Depois descobrimos que sua relação com aquela morte também está contaminada pela culpa. A primeira temporada, que inicialmente parece uma comédia extremamente ácida sobre uma mulher caótica em Londres, revela gradualmente uma estrutura muito mais sombria sobre luto, culpa e autodestruição. Emily Nussbaum descreveu essa primeira temporada justamente como uma obra mais crua sobre culpa e sofrimento, enquanto a crítica inicial do New Yorker já destacava como a vulnerabilidade coexistia com comportamento destrutivo e julgamento questionável.
Gosto disso porque autoconsciência não é vacina contra filha-da-putagem.
Eu já soube que estava fazendo uma coisa ruim enquanto fazia, já magoei pessoas, já fui egoísta, já escolhi aquilo que queria sabendo que outra pessoa poderia sofrer com a decisão.
Não fiz o que Fleabag fez com Boo, evidentemente, mas não preciso encontrar equivalência literal para reconhecer o mecanismo. Existe uma versão muito infantil da moralidade em que pessoas boas fazem coisas boas e pessoas ruins fazem coisas ruins. A vida adulta destrói essa organização rapidamente. Pessoas que amamos conseguem ser cruéis. Pessoas generosas conseguem agir por egoísmo. Podemos reconhecer perfeitamente nossos padrões e ainda repeti-los.

Às vezes fazemos terapia, adquirimos vocabulário psicológico impecável para explicar por que fazemos determinada merda e então fazemos a mesma merda com uma descrição muito melhor.
Fleabag entende isso.
Sexo também pode ser uma maneira de não estar presente
A sexualidade da personagem foi uma das coisas que mais chamou atenção quando a série estreou, principalmente porque mulheres ainda eram frequentemente escritas dentro de uma divisão bastante tediosa entre sexualmente reprimidas ou sexualmente libertadas. Fleabag parecia pertencer completamente à segunda categoria até a série começar a desmontar essa aparência.
Waller-Bridge explicou que queria construir alguém cuja confiança sexual funcionasse como uma fachada aparentemente impenetrável, uma forma de controlar as emoções e sua maneira de existir no mundo, para depois mostrar as rachaduras dessa performance.
Isso muda bastante a leitura das cenas de sexo.
Sexo pode ser prazer, pode ser conexão, pode ser curiosidade, mas também pode ser distração, validação, anestesia, autossabotagem ou simplesmente alguma coisa para fazer enquanto você evita pensar naquilo que realmente está acontecendo. E Fleabag consegue circular entre todas essas possibilidades sem que a série precise produzir uma palestra sobre empoderamento feminino depois.
A autoestima delirante que aparece sem aviso prévio
Outra coisa em Fleabag que considero extremamente realista é a capacidade de oscilar entre autoaversão e uma confiança quase delirante sem qualquer transição psicológica razoável. Eu entendo.
Existem dias em que consigo analisar cada decisão da minha vida e concluir que talvez tenha administrado tudo de maneira completamente incompetente. Algumas horas depois posso me olhar no espelho e pensar que, sinceramente, sou um acontecimento.
Nenhuma informação nova foi adquirida nesse intervalo.
O conselho administrativo apenas mudou de opinião.

Fleabag consegue fazer exatamente isso. Ela pode estar emocionalmente devastada e continuar convencida de que consegue seduzir alguém, manipular uma situação ou sair por cima dela. Isso torna a personagem muito mais humana porque autoestima raramente funciona como uma barra fixa de videogame. Podemos nos sentir fracassadas numa dimensão e absolutamente irresistíveis em outra. Às vezes simultaneamente.
Claire e a forma mais irritante de amor: família
Se Fleabag é caos performando controle, Claire é controle tentando desesperadamente impedir o caos.

A relação entre as duas talvez seja minha relação favorita da série porque não existe qualquer necessidade de transformá-las em irmãs cinematograficamente perfeitas. Elas se irritam, competem, julgam, escondem coisas, sabem exatamente onde machucar uma à outra e, ainda assim, existe um vínculo que permanece debaixo de tudo.
Sian Clifford interpreta Claire como alguém permanentemente a alguns minutos de uma pane administrativa. Sua vida inteira parece uma planilha que adquiriu ansiedade. O casamento com Martin é miserável, sua relação com Fleabag é atravessada por ressentimentos e a necessidade de parecer funcional frequentemente é tão autodestrutiva quanto o caos explícito da irmã. A crítica da segunda temporada destacou justamente como Claire permanece presa à tensão e à infelicidade produzidas em grande parte pelo casamento, enquanto Olivia Colman transforma Godmother numa especialista quase olímpica em agressividade passiva.
Godmother, aliás, merece respeito técnico. Aquela mulher consegue transformar uma frase perfeitamente educada numa tentativa de homicídio. É quase admirável.
A série também é sobre mulheres que não precisam ser agradáveis
Existe uma dimensão política em Fleabag que considero muito mais interessante do que simplesmente perguntar se a personagem é uma “boa feminista”. Ela não precisa representar mulheres.
Esse deveria ser um direito básico de personagens femininas: poder ser uma pessoa específica e não uma campanha institucional sobre o gênero inteiro.
Homens fictícios passaram décadas sendo mafiosos, psicopatas, alcoólatras, pais ausentes, assassinos e completos fracassados enquanto críticos discutiam sua complexidade. Mulheres desagradáveis frequentemente recebem uma auditoria moral para determinar se são suficientemente simpáticas para justificar protagonismo.
Fleabag não está particularmente interessada em passar nessa auditoria.
E acho que parte da influência cultural da série veio justamente daí. Uma retrospectiva publicada em 2026, dez anos depois da estreia, observou como o sucesso de Fleabag ajudou a ampliar espaço para comédias dramáticas protagonizadas por mulheres imperfeitas, embora também tenha criado uma espécie de molde industrial próprio, com inúmeras comparações posteriores a protagonistas brancas, de classe média e emocionalmente caóticas.
Essa ressalva de classe também importa.
Fleabag sofre genuinamente, mas não existe fora de condições materiais. Sua família possui dinheiro, capital cultural e determinados mecanismos de proteção que alteram as consequências possíveis do caos. Reconhecer isso não invalida o sofrimento da personagem. Apenas impede que uma experiência bastante específica seja transformada automaticamente numa representação universal da mulher contemporânea.

O Padre gostoso não veio para salvá-la
Também gosto muito do fato de que a segunda temporada introduz religião sem transformar fé em piada nem em solução. Fleabag não precisa encontrar Deus. O padre não precisa abandonar Deus para provar que ama Fleabag.
A tensão existe justamente porque duas coisas verdadeiras podem ser incompatíveis.
Waller-Bridge conversou extensamente com um sacerdote antes de escrever a temporada porque queria compreender celibato, tentação e por que alguém escolheria a fé como estrutura para a própria vida. Isso aparece no personagem. Ele não funciona simplesmente como fetiche proibido, embora Andrew Scott tenha feito um trabalho bastante eficiente em garantir que a internet ignorasse qualquer tentativa de sobriedade nesse assunto.
Ele possui sua própria relação com algo invisível. Fleabag também. Ele chama de Deus. Ela chama de nós. Talvez seja por isso que ele consiga perceber a câmera.
Os dois mantêm uma relação íntima com uma presença que ninguém ao redor consegue enxergar, e essa simetria torna o romance muito mais interessante do que apenas “mulher ateia se apaixona por padre gostoso”.
Ele não cura Fleabag, ele consegue alcançá-la.Existe diferença.
“It’ll pass”
O final funciona justamente porque a série recusa uma recompensa convencional.
Ela ama alguém. Ele ama também. Não é suficiente.
Existem escolhas, compromissos e identidades que continuam existindo mesmo quando sentimentos são verdadeiros. Acho isso muito mais doloroso e muito mais adulto do que a fantasia de que amor suficientemente intenso automaticamente reorganiza todas as circunstâncias ao redor dele.
A série também não termina com Fleabag destruída.
Ela vai embora.
E, mais importante, não permite que nós acompanhemos.

Depois de duas temporadas em que fomos seu esconderijo, cúmplices, plateia e depósito emocional, Fleabag olha para a câmera e sinaliza que ficaremos para trás. Uma leitura publicada depois do final interpretou o público da primeira temporada justamente como recipiente da culpa e do auto-ódio da personagem, enquanto a segunda temporada mostra sua capacidade gradual de se conectar novamente com alguém fora dessa relação secreta conosco.
É por isso que não interpreto aquele gesto simplesmente como “ela está curada”. Seria muito fácil.
Para mim, significa que ela não precisa narrar aquele momento, não precisa produzir uma piada, não precisa verificar nossa reação, não precisa transformar imediatamente aquilo que sente numa performance inteligente sobre aquilo que sente. Ela consegue simplesmente ir e talvez essa tenha sido a parte que mais me atingiu.
Passei muito tempo acreditando que observar minhas emoções significava necessariamente processá-las. Às vezes significa. Outras vezes, analisar infinitamente uma experiência é apenas uma maneira extremamente sofisticada de permanecer a alguns centímetros dela. Podemos conhecer todas as razões pelas quais estamos tristes sem realmente permitir que a tristeza atravesse o corpo. Podemos fazer uma piada perfeita sobre alguma coisa que nos destruiu e ainda não ter chegado perto de aceitar aquilo.
Fleabag começa a série nos convidando para dentro da cabeça porque aquele parece ser o único lugar onde possui controle absoluto, termina descobrindo que talvez não precise morar ali o tempo inteiro.
Minha review
Eu comecei Fleabag achando que me identificava com ela porque nós duas fazemos comentários mentais inadequados, temos uma autoestima ocasionalmente delirante, já fizemos escolhas afetivas que não sobreviveriam a uma análise estética muito rigorosa e conseguimos ser filhas da puta mesmo sabendo perfeitamente que estamos sendo filhas da puta.
Terminei percebendo que a identificação estava em outro lugar.
Era a câmera, era aquela pequena fuga lateral. A possibilidade de sair mentalmente de uma situação por alguns segundos, observá-la de fora, produzir uma interpretação, esconder o que realmente está acontecendo e voltar quando parecer seguro. A sensação de que permanecer dentro da própria cabeça oferece controle porque ali ninguém consegue interromper, interpretar errado ou receber uma emoção numa intensidade que você não sabe mais como recolher depois.
A série entende que esse mecanismo pode ser simultaneamente inteligência e defesa. Fleabag é extremamente perceptiva. Ela percebe absurdos sociais, hipocrisias, desconfortos e pequenas violências antes de quase todo mundo.
A série entende que esse mecanismo pode ser simultaneamente inteligência e defesa. Fleabag é extremamente perceptiva. Ela percebe absurdos sociais, hipocrisias, desconfortos e pequenas violências antes de quase todo mundo. O problema é que perceber tudo não significa necessariamente saber lidar com aquilo que percebe. Muitas vezes, essa inteligência serve justamente para produzir uma interpretação antes que ela precise sentir a experiência por inteiro. Ela transforma constrangimento em piada, rejeição em comentário sarcástico, desejo em provocação e dor em alguma observação que divide silenciosamente conosco. Existe sempre uma pequena saída de emergência disponível, e nós estamos do outro lado dela.

É por isso que a quarta parede funciona tão bem para mim como representação de dissociação, mesmo que eu não ache que a série esteja tentando diagnosticá-la clinicamente dessa maneira. Fleabag consegue estar presente fisicamente numa conversa e, ao mesmo tempo, observar a própria participação nela. Enquanto alguém fala, existe uma segunda versão da situação acontecendo dentro da cabeça dela, onde ela comenta, julga, reorganiza e transforma aquilo em alguma coisa que consegue controlar. Eu me identifico muito com isso porque passei grande parte da vida fazendo algo parecido. Às vezes é mais seguro permanecer dentro da minha cabeça, formulando exatamente o que penso, do que colocar aquilo no mundo, principalmente porque, quando finalmente resolvo falar, nem sempre tenho a mesma habilidade de editar a intensidade depois.
A diferença é que Fleabag ganhou uma câmera para onde olhar. Eu infelizmente precisei construir a minha imaginária.