Backrooms
O que uma fotocopiadora, a memória humana e a inteligência artificial têm em comum.

Existem filmes que terminam quando os créditos começam a subir. Existem outros que parecem começar exatamente naquele momento, quando você fecha o player e percebe que continua pensando neles durante dias. Backrooms foi uma dessas experiências para mim. Em vez de procurar outra coisa para assistir, passei horas pesquisando teorias, revendo os vídeos do Kane Pixels, lendo discussões no Reddit, acompanhando entrevistas e tentando entender por que aquele universo parecia ficar mais interessante quanto menos respostas oferecia. Quanto mais eu pesquisava, menos tinha a impressão de estar diante de uma história sobre monstros. Aos poucos comecei a enxergar uma narrativa sobre memória, sobre cópias, sobre percepção e, curiosamente, sobre inteligência artificial, embora essa provavelmente nunca tenha sido a intenção original de Kane Parsons.
Talvez seja justamente isso que faça Backrooms funcionar tão bem. As melhores obras de ficção científica quase nunca falam realmente sobre tecnologia; elas usam a tecnologia para falar sobre pessoas. O horror costuma fazer a mesma coisa. O monstro raramente é o assunto principal da história. Ele funciona como uma ferramenta para nos obrigar a olhar para alguma ansiedade que já existia muito antes de ele aparecer. Nos Backrooms, essa ansiedade nasce da arquitetura, do silêncio e daquela estranha sensação de reconhecer um lugar que, racionalmente, sabemos nunca ter visitado.

O mais curioso é que toda essa mitologia começou da maneira mais simples possível.
Em maio de 2019, um usuário anônimo publicou uma fotografia no 4chan acompanhada por um pequeno texto sugerindo uma hipótese extremamente específica: às vezes a realidade falha. Se alguém tiver azar o suficiente, pode "noclipar", atravessando os limites do mundo da mesma forma que um personagem atravessa uma parede bugada em um videogame, e acabar preso numa dimensão composta por corredores infinitos, carpetes amarelados, paredes bege e lâmpadas fluorescentes que nunca param de zumbir.
Não existia uma cronologia, um protagonista ou qualquer tentativa de explicar aquele lugar. Existia apenas uma fotografia e uma ideia. Ainda assim, aquilo foi suficiente para criar uma das maiores mitologias espontâneas da internet.
O motivo pelo qual aquela imagem funcionou tão bem talvez esteja justamente na sua aparente normalidade. Ela não mostrava um cenário impossível, futurista ou sobrenatural. Pelo contrário. Parecia um escritório, hotel, ou corredor qualquer. Qualquer pessoa que cresceu frequentando escolas, consultórios, centros comerciais ou prédios corporativos provavelmente já entrou em algum ambiente parecido. A fotografia não desperta o medo do desconhecido; ela desperta o medo do quase conhecido. É um espaço que pertence claramente ao nosso mundo, mas onde alguma pequena regra deixou de funcionar corretamente.

Foto tirada do porão de uma casa que estava checando para alugar.
Foi só depois que os Backrooms se popularizaram que muita gente começou a associá-los ao conceito de liminal spaces. Apesar de "liminal" existir há muito tempo na antropologia para descrever estados de transição, a internet acabou transformando o termo em outra coisa. Hoje ele costuma definir lugares construídos para receber pessoas, mas que aparecem completamente vazios: corredores de escola durante as férias, shopping centers depois do fechamento, aeroportos de madrugada, piscinas de hotel sem ninguém, parques infantis abandonados ou escritórios funcionando fora do horário comercial. O desconforto não nasce porque esses lugares são perigosos. Nasce porque nosso cérebro espera encontrar vida neles e, quando essa expectativa não é atendida, alguma coisa parece ligeiramente deslocada.

Quando comecei a ler sobre isso, percebi que já conhecia essa sensação muito antes de descobrir seu nome. Sempre senti um incômodo difícil de explicar quando chegava cedo demais à escola e encontrava corredores completamente vazios, ou quando saia mais tarde do trabalho e o escritório estava vázio, ou quando caminhava por um shopping prestes a fechar, onde tudo permanecia perfeitamente iluminado apesar da ausência quase total de pessoas.
Essa sensação ficou ainda mais evidente nos últimos anos, principalmente aqui nos Estados Unidos, onde muitos shopping centers perderam movimento desde o crescimento do comércio online. Não era exatamente medo, nem tristeza. Era a impressão de que alguma coisa importante tinha acabado de acontecer ou estava prestes a acontecer, mas na prática, nunca acontecia nada. Os Backrooms capturam esse sentimento com uma ótima precisão. Eles parecem um lugar que continua esperando pessoas que nunca mais vão chegar.
Existe um paralelo interessante entre esse tipo de desconforto e o conceito de uncanny valley. Aqui nos USA usamos essa expressão para explicar por que robôs extremamente parecidos com seres humanos acabam parecendo assustadores. Quanto mais uma representação se aproxima da realidade sem conseguir reproduzi-la completamente, mais desconfortável ela se torna. Acho que os Backrooms fazem exatamente isso com arquitetura. Eles não assustam porque parecem alienígenas. Assustam porque parecem um lugar comum, mas existe alguma coisa discretamente errada em cada detalhe. O cérebro reconhece aquele ambiente, mas ao mesmo tempo percebe que existe um pequeno desvio impossível de localizar. É justamente essa diferença quase imperceptível que mantém uma sensação constante de alerta.

Foi essa sensação que Kane Parsons conseguiu transformar em narrativa quando publicou o primeiro vídeo da série em seu canal no YouTube. Na época ele tinha apenas dezesseis anos, uma informação impressionante não apenas pela idade, mas porque praticamente todo aquele universo foi produzido usando Blender, criatividade e um entendimento muito sofisticado de atmosfera. O primeiro Found Footage dura poucos minutos e explica quase nada. Acompanhamos um cinegrafista, um acidente durante uma gravação e, logo em seguida, alguém perdido naquele labirinto impossível. A criatura quase não aparece, e talvez esse seja justamente o maior acerto do vídeo. O medo nasce muito antes do primeiro encontro. Ele surge durante a caminhada, no zumbido constante das lâmpadas fluorescentes, na repetição quase hipnótica dos corredores, no eco dos passos e naquela sensação persistente de que existe alguma coisa logo na próxima esquina, mesmo quando não existe absolutamente nada.
Na minha opinião, essa foi a maior contribuição de Kane Pixels para o universo dos Backrooms. Antes dele existia uma creepypasta extremamente eficiente. Depois dele passou a existir um universo inteiro, com cronologia, personagens, empresas, registros científicos, documentação institucional e uma narrativa aberta o suficiente para que a comunidade inteira começasse a construir interpretações próprias. Foi exatamente nesse momento que os Backrooms deixaram de ser apenas uma história de horror para se tornarem uma das experiências de ficção científica mais interessantes já produzidas pela internet.

Boa parte das creepypastas segue um ciclo relativamente previsível. Alguém publica uma história num fórum, outras pessoas acrescentam detalhes, surgem novas versões, aparecem fanarts, alguns jogos independentes, vídeos no YouTube e, alguns meses depois, a internet encontra outra obsessão para ocupar aquele espaço.
Os Backrooms seguiram um caminho completamente diferente porque encontraram alguém que não estava interessado apenas em expandir uma mitologia coletiva. Kane Parsons parecia interessado em fazer uma pergunta muito mais ambiciosa: e se esse lugar realmente existisse? Mais importante ainda, e se alguém tentasse compreendê-lo usando exatamente as ferramentas que utilizaríamos para investigar qualquer fenômeno científico?
Foi assim que surgiu a Async.

Diferentemente da maioria das corporações presentes em histórias de horror, a Async não existe apenas para desempenhar o papel da empresa maligna que inevitavelmente provoca uma catástrofe. Ela representa uma mentalidade extremamente característica da segunda metade do século XX: a convicção de que qualquer fenômeno desconhecido pode ser estudado, catalogado e eventualmente dominado desde que existam recursos, engenheiros suficientes e tempo para pesquisar. Existe quase uma inocência científica naquele projeto. Em nenhum momento a empresa parece interessada em abrir um portal para outra dimensão por puro delírio ou ambição. O objetivo inicial é muito mais banal e, justamente por isso, muito mais convincente: resolver um problema de armazenamento.
Dentro da narrativa criada por Kane, a Async tenta desenvolver uma tecnologia capaz de criar espaço físico praticamente ilimitado. Em vez de continuar expandindo cidades, depósitos e edifícios industriais, bastaria produzir uma nova forma de armazenamento. É uma proposta que parece absurda à primeira vista, mas também curiosamente plausível quando lembramos que boa parte das grandes revoluções tecnológicas nasceu tentando resolver problemas muito menos filosóficos do que costumamos imaginar. A internet não surgiu para conectar bilhões de pessoas em redes sociais. O GPS não foi criado para facilitar aplicativos de entrega. O scanner também nasceu para resolver um problema extremamente específico de digitalização de documentos. Quase sempre inventamos uma ferramenta para resolver uma questão prática e só anos depois descobrimos que ela alterou completamente a maneira como vivemos.
Quando alguma coisa finalmente dá errado durante os experimentos, Kane evita transformar aquele momento num espetáculo cinematográfico cheio de explicações. A ruptura da realidade acontece quase como um acidente de laboratório, e as consequências passam a ser reconstruídas através de fitas VHS, relatórios internos, vídeos institucionais, apresentações corporativas e pequenos fragmentos espalhados pela cronologia. O espectador nunca recebe uma explicação definitiva. Em vez disso, precisa montar o quebra-cabeça exatamente da mesma forma que os pesquisadores da Async tentam compreender aquilo que acabaram de descobrir.

Essa escolha narrativa muda completamente a relação entre a obra e quem está assistindo. Em vez de assumir que o público precisa receber todas as respostas imediatamente, Kane parece confiar que parte do prazer está justamente em investigar. Cada novo vídeo resolve algumas dúvidas, mas imediatamente cria outras, e isso faz com que a série permaneça interessante mesmo depois de várias revisões. Quase sempre existe um detalhe despercebido, uma data escondida, um documento mal enquadrado ou uma pequena inconsistência capaz de alterar completamente a interpretação anterior.
Foi justamente durante essas releituras que comecei a prestar atenção numa teoria bastante popular da comunidade. É importante dizer desde o início que ela nunca foi confirmada oficialmente e, por isso, deve ser tratada apenas como uma interpretação. Uma das coisas mais divertidas dos Backrooms é justamente separar aquilo que pertence ao cânone daquilo que surgiu da criatividade coletiva da internet. Ainda assim, algumas teorias conseguem conectar tantos elementos da narrativa que acabam parecendo extensões naturais da própria obra. A que mais me chamou atenção foi a hipótese de que os Backrooms não funcionam apenas como um espaço infinito, mas como uma gigantesca máquina de cópia.
Essa leitura parte de uma coincidência curiosa. A Async trabalha justamente com tecnologias relacionadas ao armazenamento e à organização de espaços físicos. Se o experimento realmente rompeu a estrutura da realidade, talvez aquela nova dimensão tenha herdado exatamente essa função, mas de maneira completamente descontrolada. Em vez de simplesmente armazenar objetos, ela teria passado a registrar tudo aquilo que entra em contato com ela, tentando reproduzir essas informações continuamente.
A diferença está justamente no verbo: registrar não significa compreender.
Uma fotocopiadora não entende um documento. Ela não sabe o que é uma assinatura, uma fotografia, uma planta arquitetônica ou uma carta escrita à mão. Ela apenas registra padrões visuais e tenta reproduzi-los da maneira mais fiel possível. Se o papel estiver amassado, ela copia o amassado. Se houver uma sombra atravessando a folha, aquela sombra passa a fazer parte da imagem final. Se alguém movimentar o documento durante a digitalização, a máquina não interpreta aquilo como movimento. Ela apenas incorpora aquela distorção ao resultado porque acredita que ela pertence ao original.
Talvez os Backrooms façam exatamente a mesma coisa.
Essa hipótese começou a reorganizar completamente a forma como eu enxergava aquele universo. As criaturas deixaram de parecer apenas monstros. Os corredores deixaram de ser apenas corredores. Passei a olhar para tudo aquilo como tentativas de reconstrução produzidas por uma inteligência que registra padrões com enorme eficiência, mas nunca chega a compreender o significado daquilo que está registrando.

Foi impossível não pensar em inteligência artificial, não porque Kane estivesse tentando antecipar modelos generativos anos antes de eles se tornarem parte do cotidiano, mas porque o paralelo parece surgir quase naturalmente hoje. Um modelo de IA não conhece um cachorro da maneira como nós conhecemos. Ele nunca brincou com um, nunca ouviu um latido nem sentiu o peso de um animal encostando a cabeça no seu colo.
Ele conhece milhões de fotografias, descrições, relações estatísticas e padrões associados ao conceito de cachorro. Quando produz uma imagem, não está lembrando de um cachorro específico. Está reconstruindo uma aproximação extremamente sofisticada daquilo que acredita que um cachorro deva parecer. Na maior parte das vezes funciona. Em outras, aparecem patas extras, dentes impossíveis, olhos desalinhados ou pequenas deformações que imediatamente denunciam que alguma coisa deu errado.
Quanto mais pensei nisso, menos consegui olhar para os Backrooms como uma simples dimensão paralela. Eles passaram a parecer um sistema tentando desesperadamente reconstruir o nosso mundo usando apenas fragmentos da informação que conseguiu capturar. Deve ser por isso que tudo ali parece ser tão familiar e ao mesmo tempo tão profundamente errado.
O que exatamente os Backrooms estão copiando?
No começo eu queria entender o que existia dentro dos Backrooms. Quais criaturas viviam ali? Quantos níveis existiam? Era possível escapar? Quais eram as regras daquele lugar? Depois de algum tempo, essas perguntas começaram a perder importância. A que realmente passou a me interessar era outra: o que exatamente os Backrooms estão tentando copiar?
Essa mudança de perspectiva altera completamente a leitura da obra. Se aceitarmos a hipótese de que aquela dimensão funciona como um sistema de reprodução da realidade, praticamente tudo passa a obedecer à mesma lógica, eles passam a parecer o resultado de um processo que nunca considera seu trabalho concluído. A dimensão continua expandindo escritórios, corredores, depósitos, salas de reunião, estacionamentos e ambientes industriais porque essas são algumas das informações que recebeu do nosso mundo. O problema é que ela parece incapaz de compreender por que esses lugares existem. Ela conhece sua aparência, suas proporções e alguns padrões de organização, mas não entende sua função. É como alguém que consegue desenhar perfeitamente um piano sem jamais ter ouvido sua música.

E dai vem aquele sentimento de que aqueles ambientes parecem tão familiares e, ao mesmo tempo, tão profundamente errados. Eles reproduzem forma com enorme precisão, mas significado parece ser outra história. Um escritório deixa de ser apenas um conjunto de paredes, divisórias e luminárias quando pessoas passam oito horas por dia trabalhando ali. Um corredor deixa de ser apenas um corredor quando conecta dois lugares que fazem sentido. Nos Backrooms, essa relação parece desaparecer. Os espaços continuam existindo, mas já não conduzem a lugar nenhum. Permanecem presos numa espécie de simulação permanente de arquitetura, como se alguém tivesse aprendido a construir edifícios observando milhares de fotografias sem jamais entrar em um deles.
Essa mesma lógica ajuda a explicar uma das teorias mais interessantes envolvendo os Still Life. Oficialmente, Kane nunca revela exatamente o que aquelas criaturas são, e pra mim, essa é uma das decisões mais inteligentes da série. A comunidade acabou adotando esse nome para descrevê-las, mas sua origem permanece aberta a interpretações. Uma das hipóteses mais populares sugere que elas seriam tentativas da própria dimensão de reproduzir corpos humanos utilizando apenas a informação disponível. Ela entende que pessoas possuem cabeça, braços, pernas, olhos e boca, mas não compreende completamente como essas partes se relacionam nem quais pequenas irregularidades fazem um ser humano parecer vivo.
Foi impossível não lembrar da frase atribuída a Alan Turing sobre tentar descrever um cachorro para alguém que jamais viu um cachorro. É perfeitamente possível listar todas as suas características físicas, explicar quantas patas possui, descrever o formato do focinho, das orelhas e da cauda. Ainda assim, continuará faltando alguma coisa impossível de traduzir apenas por meio da descrição. Existe um conhecimento que depende da experiência direta, e talvez seja justamente esse tipo de informação que os Backrooms jamais consigam adquirir.

Essa hipótese também muda completamente a maneira como comecei a olhar para as criaturas. Elas deixaram de parecer monstros convencionais e passaram a se aproximar muito mais de reconstruções incompletas. Não porque lhes falte inteligência, mas porque lhes falta contexto. Elas conhecem o conceito de um corpo humano, mas não o processo que transforma aquele conceito em alguém vivo. O resultado são figuras profundamente familiares e profundamente estranhas ao mesmo tempo, exatamente como acontece quando observamos uma imagem produzida por inteligência artificial que parece perfeita à primeira vista, mas revela pequenas deformações assim que passamos alguns segundos examinando os detalhes.
O interessante é que esses erros nunca aconteciam porque o sistema fosse incapaz de desenhar uma mão. Eles aconteciam justamente porque o sistema nunca compreendeu o que uma mão é. Ele apenas reconheceu padrões estatísticos associados ao conceito de mão. Talvez os Backrooms façam exatamente isso com pessoas, ambientes e objetos. Eles não reproduzem indivíduos. Reproduzem padrões. E essa pequena diferença talvez seja suficiente para transformar uma simples cópia em alguma coisa profundamente perturbadora.
A memória talvez funcione exatamente da mesma maneira
Foi nesse ponto que a teoria deixou de conversar apenas com inteligência artificial e passou a me lembrar outra coisa: a forma como nossa própria memória funciona. Durante muito tempo, imaginamos que lembrar fosse equivalente a abrir um arquivo guardado em alguma gaveta do cérebro e reproduzi-lo exatamente como ele foi armazenado. Hoje sabemos que não é assim. Cada vez que recuperamos uma lembrança, ela entra novamente em processo de reconstrução. O cérebro reorganiza detalhes, preenche lacunas, incorpora interpretações recentes e, depois, armazena essa nova versão como se ela fosse a original. Em outras palavras, lembrar nunca é apenas recuperar uma memória; é produzir uma nova cópia dela.
Esse processo explica por que irmãos que cresceram na mesma casa frequentemente descrevem infâncias completamente diferentes, ou por que acontecimentos que jurávamos lembrar com absoluta certeza acabam sendo desmentidos por uma fotografia antiga ou por alguém que estava presente na mesma situação. Nenhum dos dois está necessariamente mentindo. Ambos estão reconstruindo. A memória humana é muito menos parecida com um HD e muito mais parecida com um documento que passa por uma fotocopiadora toda vez que alguém decide consultá-lo.

Foi impossível não enxergar os Backrooms sob essa perspectiva. Talvez aquela dimensão não esteja tentando reproduzir o mundo em tempo real. Talvez ela esteja tentando lembrar do mundo. Isso explicaria por que tudo parece tão próximo da realidade sem jamais coincidir perfeitamente com ela. As paredes continuam nos lugares esperados, mas uma porta desaparece. Um corredor termina onde deveria existir outra sala. Um teto parece alguns centímetros mais baixo do que deveria. São erros pequenos, quase imperceptíveis individualmente, mas que, acumulados, produzem aquela sensação persistente de estranhamento.
Essa leitura também muda completamente a forma como enxergamos os objetos espalhados pelos Backrooms. Muita gente interpreta aquelas cadeiras, telefones, armários, escadas e mesas apenas como elementos de cenário, mas talvez eles sejam mais do que isso. Se a dimensão realmente reconstrói informações a partir de fragmentos, faz sentido imaginar que ela não esteja copiando apenas matéria física, mas também relações de significado. O problema é que essas relações parecem se degradar da mesma forma que uma lembrança se degrada com o tempo.
Um escritório continua possuindo mesas e divisórias porque essas duas coisas costumam existir juntas. Uma escola continua possuindo corredores e portas. Uma casa continua possuindo cozinha, banheiro e sala. O sistema reconhece que esses elementos pertencem ao mesmo conjunto, mas perde justamente aquilo que faz aquele conjunto funcionar.
É interessante perceber que isso acontece também conosco. Quando tentamos lembrar da casa onde crescemos, dificilmente recuperamos um modelo tridimensional perfeito. Lembramos de um corredor específico, da textura de uma parede, do cheiro de algum cômodo, da posição aproximada da televisão ou da janela da cozinha. O restante é preenchido automaticamente pelo cérebro. Talvez seja exatamente por isso que tantos sonhos pareçam espacialmente impossíveis. Entramos pela porta da casa da infância e, alguns segundos depois, estamos caminhando pelo corredor da escola ou pela sala de um apartamento onde moramos anos mais tarde. Enquanto sonhamos, essas transições parecem completamente naturais. Só percebemos que elas eram absurdas depois que acordamos.

Os Backrooms parecem obedecer exatamente à lógica dos sonhos e das lembranças, não porque ignorem completamente a realidade, mas porque tentam reconstruí-la utilizando apenas fragmentos suficientes para torná-la reconhecível. A sensação de familiaridade permanece, mas a coerência desaparece aos poucos. É como observar uma fotografia antiga tantas vezes que, em algum momento, deixamos de lembrar do momento retratado e passamos a lembrar apenas da própria fotografia.
Essa interpretação também ajuda a explicar por que tantas pessoas sentem um desconforto tão difícil de definir ao assistir aos vídeos do Kane. O medo não surge apenas porque existe alguma coisa escondida no final do corredor. Surge porque nosso cérebro reconhece aquele espaço como uma lembrança imperfeita. Não parece um lugar desconhecido; parece um lugar que esquecemos parcialmente. Eles não exploram o medo do desconhecido. Exploram o medo de perceber que aquilo que julgávamos conhecer talvez nunca tenha sido lembrado corretamente.
Quanto mais eu pensava nisso, mais a Async deixava de parecer uma empresa e começava a parecer um modelo de inteligência artificial
Foi nesse momento que percebi uma coisa que, sinceramente, não sei se Kane pretendia colocar ali ou se surgiu apenas porque hoje convivemos diariamente com ferramentas de IA. A Async começou a me lembrar muito menos uma empresa e muito mais um modelo de aprendizado de máquina.
Quando pensamos em inteligência artificial generativa, normalmente imaginamos ChatGPT, Midjourney, Stable Diffusion ou qualquer outra ferramenta capaz de produzir textos e imagens em poucos segundos. É fácil esquecer que nenhuma delas realmente entende aquilo que produz. Elas trabalham reconhecendo padrões em quantidades absurdas de informação. Não sabem o que é uma casa, um cachorro ou uma pessoa da mesma forma que nós sabemos. Sabem apenas quais elementos costumam aparecer juntos quando alguém fala sobre esses conceitos. Depois, reorganizam essas relações para produzir alguma coisa nova.

Quanto mais informação os Backrooms recebem, melhores parecem ficar suas reconstruções. Não porque desenvolvam consciência, mas porque passam a trabalhar com um conjunto maior de referências. É quase como se toda pessoa, objeto ou ambiente que atravessasse aquele espaço se tornasse mais um dado disponível para o sistema. O problema é que acumular dados nunca significou compreender significado. Uma inteligência artificial pode aprender que cozinhas costumam possuir geladeiras, fogões e armários, mas isso não significa que ela compreenda o que é cozinhar. Da mesma forma, talvez os Backrooms saibam perfeitamente como organizar um corredor de escritório sem jamais entender por que um escritório precisa existir.
Essa interpretação também ajuda a explicar por que as reconstruções parecem melhorar sem jamais se tornarem perfeitas. Existe uma tendência muito humana de imaginar aprendizado como uma linha reta em direção à excelência, mas sistemas de aprendizado estatístico não funcionam exatamente assim. Eles diminuem erros. Refinam aproximações. Corrigem padrões. Ainda assim, permanecem produzindo resultados baseados em probabilidade. Talvez seja justamente por isso que os Backrooms continuem gerando pequenos desvios. Eles não estão falhando completamente. Estão apenas produzindo a versão estatisticamente mais provável da realidade.
Foi impossível não lembrar de um comportamento extremamente comum em modelos de IA atuais. Quanto mais tempo observamos uma imagem gerada artificialmente, maior costuma ser a chance de encontrarmos algum detalhe errado. À primeira vista, tudo parece convincente. Depois percebemos um reflexo impossível, uma cadeira atravessando outra, uma sombra incompatível com a iluminação da cena ou uma mão cuja anatomia simplesmente deixou de obedecer às leis da biologia. Nenhum desses erros compromete imediatamente a ilusão. Pelo contrário. Eles costumam aparecer justamente quando já estávamos convencidos de que a imagem era perfeita.

Os Backrooms produzem exatamente esse efeito. O primeiro olhar aceita aquele ambiente como familiar. O segundo começa a perceber pequenas inconsistências. O terceiro já não consegue deixar de vê-las. É uma sensação muito diferente do horror tradicional, porque não nasce de uma ameaça explícita. Ela surge lentamente, conforme nossa confiança na realidade vai sendo corroída por detalhes quase imperceptíveis.
Existe uma palavra em inglês que gosto muito para descrever esse tipo de experiência: off. É uma palavra difícil de traduzir porque não significa exatamente "errado". Alguma coisa pode estar off sem que saibamos explicar por quê. Não conseguimos apontar um erro específico. Apenas sentimos que existe alguma coisa fora do lugar. Os Backrooms parecem viver permanentemente nesse estado. Eles nunca chegam a produzir uma realidade completamente absurda. Produzem uma realidade que parece quase correta, e talvez esse "quase" seja muito mais assustador do que qualquer criatura escondida no fim de um corredor.
Foi justamente aí que comecei a desconfiar de que o verdadeiro protagonista da história talvez nunca tenha sido uma entidade específica. A criatura pode perseguir personagens, atacar pesquisadores ou aparecer inesperadamente em algum corredor, mas ela continua funcionando apenas como consequência de um sistema muito maior. O elemento realmente fascinante é o próprio mecanismo de reprodução da realidade. A criatura é apenas um dos seus produtos. O espaço, os objetos, a arquitetura, os corredores e até as pessoas talvez obedeçam exatamente à mesma lógica. Todos parecem existir porque alguma coisa continua tentando reconstruir o nosso mundo utilizando apenas fragmentos da informação disponível, exatamente como fazemos quando lembramos de uma infância distante ou como uma inteligência artificial faz quando tenta gerar uma fotografia de um lugar onde nunca esteve.
Talvez seja por isso que a Async me pareça muito mais trágica do que maligna
Uma das coisas que mais gosto na forma como Kane constrói a Async é que ela dificilmente pode ser reduzida ao clichê da "corporação maligna". É claro que existe negligência, arrogância científica e uma confiança exagerada na própria tecnologia, mas isso está muito longe daquele estereótipo da empresa que conscientemente decide colocar o mundo em risco em troca de lucro. A impressão que tive assistindo à série foi justamente a oposta. A Async parece composta por pessoas extremamente competentes tentando resolver um problema real e que, em determinado momento, simplesmente deixam de compreender as consequências daquilo que descobriram.
Isso acontece o tempo inteiro na história da ciência. Quase nenhuma tecnologia revolucionária nasceu porque alguém queria transformar completamente a sociedade. O transistor não foi criado pensando em smartphones. A internet não surgiu para produzir redes sociais. O GPS não foi desenvolvido para localizar motoristas de aplicativo, assim como scanners tridimensionais nunca foram concebidos imaginando uma dimensão infinita tentando reconstruir o mundo. A maior parte das grandes descobertas começa resolvendo problemas relativamente modestos e, anos depois, alguém percebe que elas mudaram completamente a maneira como a realidade funciona.
Os pesquisadores continuam tratando aquele fenômeno como qualquer outro objeto de estudo. Eles registram dados, elaboram hipóteses, organizam expedições, produzem documentação e tentam transformar o desconhecido em alguma coisa mensurável. O curioso é que, quanto mais conhecimento acumulam, menos controle parecem possuir sobre aquilo que descobriram. Em vez de dominarem o fenômeno, passam lentamente a ser reorganizados por ele. A pesquisa deixa de existir para responder uma pergunta científica e passa a existir porque a própria existência dos Backrooms exige novas perguntas continuamente.

Talvez Kane tenha construído uma narrativa cuja estrutura imita o próprio funcionamento dos Backrooms.
Pense nisso por alguns segundos:
- Nós assistimos aos vídeos.
- Tentamos reconstruir uma cronologia.
- Preenchemos lacunas.
- Produzimos teorias.
- Compartilhamos essas teorias.
- Outra pessoa acrescenta uma informação nova.
- Voltamos aos vídeos.
- Reconstruímos novamente nossa interpretação.
- O processo nunca termina.
Percebi que isso é exatamente o que acontece com memória, exatamente o que acontece com ciência, exatamente o que acontece com inteligência artificial e talvez seja exatamente o que acontece dentro dos próprios Backrooms. Tudo naquele universo parece funcionar através de sucessivas reconstruções. Oespaço reconstrói arquitetura, nós reconstruímos a história, a comunidade reconstrói o significado e cada camada produz uma nova versão da anterior. Nenhuma delas é definitiva. Achei essa ideia particularmente bonita porque transforma o próprio espectador em parte da narrativa. Não estamos apenas assistindo a uma história sobre reconstruções, mas estamos participando desse processo toda vez que formulamos uma nova interpretação. Cada teoria publicada em fóruns, cada vídeo explicando a cronologia, cada diagrama produzido pela comunidade e, inclusive, esta própria review acabam funcionando como novas tentativas de reconstruir um universo que talvez nunca tenha sido feito para possuir uma resposta definitiva.
Foi nesse momento que percebi que minha obsessão por Backrooms talvez tivesse menos relação com terror do que eu imaginava. Eu não continuei pesquisando porque queria descobrir qual criatura apareceria no próximo vídeo ou qual seria o próximo nível daquela dimensão. Continuei pesquisando porque raramente encontro obras que confiam tanto na inteligência do espectador a ponto de permitir que ele participe ativamente da construção de significado. Acho que foi por isso que esse universo continua crescendo anos depois daquela fotografia publicada anonimamente no 4chan. Ele nunca pertenceu apenas ao Kane Pixels. Pertence também às pessoas que continuam tentando entendê-lo, mesmo sabendo que provavelmente nunca chegarão a uma resposta definitiva.
Eu colocaria essa seção logo depois da parte em que você fala sobre o desenho de som e antes da comparação com memória. Ela conversa naturalmente com o restante da review.
Existe outro elemento fundamental nos Backrooms que, curiosamente, costuma receber muito menos atenção do que merece: a trilha sonora. Na verdade, chamar aquilo apenas de "trilha" talvez seja simplificar demais. Boa parte da experiência é construída pelo desenho de som. O zumbido constante das lâmpadas fluorescentes, os sistemas de ventilação, o eco dos passos e os ruídos industriais já criam uma sensação de desconforto permanente antes mesmo que qualquer criatura apareça. Quando a música finalmente entra, ela não tenta conduzir as emoções do espectador como acontece na maior parte dos filmes de terror. Ela parece funcionar como uma extensão daquele próprio espaço.
Foi impossível não pensar em The Caretaker, projeto musical de Leyland Kirby que se tornou conhecido principalmente por Everywhere at the End of Time, uma obra concebida para representar musicalmente o avanço da demência. Ao longo de mais de seis horas, músicas antigas vão lentamente perdendo definição. Pequenas falhas aparecem, trechos começam a se repetir, ruídos tomam conta da gravação e melodias que antes pareciam perfeitamente reconhecíveis passam a existir apenas como fragmentos tentando desesperadamente permanecer inteiros. O resultado é profundamente desconfortável porque não estamos ouvindo uma música se deteriorar; estamos ouvindo uma memória tentando sobreviver ao próprio esquecimento.
Acho difícil assistir aos Backrooms sem estabelecer algum paralelo com essa ideia. Não porque exista uma ligação oficial entre as duas obras, mas porque ambas parecem partir da mesma pergunta: o que acontece quando um sistema tenta reconstruir alguma coisa que já não consegue compreender completamente? Em Everywhere at the End of Time, essa reconstrução acontece através da memória. Nos Backrooms, ela parece acontecer através da própria realidade. Em ambos os casos, o resultado permanece reconhecível por tempo suficiente para produzir familiaridade, mas nunca suficiente para produzir conforto.

Existe ainda uma coincidência visual curiosa que muita gente passou a comentar depois do lançamento do filme. O retângulo de fita adesiva azul usado por Clark para marcar o portal dos Backrooms lembra bastante a capa de um dos álbuns de Everywhere at the End of Time, de The Caretaker, que também apresenta um quadrado delimitado por fita azul. Mas nunca encontrei nenhuma confirmação de que isso tenha sido uma referência intencional de Kane Pixels.
Ainda assim, é difícil ignorar como ela conversa simbolicamente com duas obras obcecadas por memória, reconstrução e pela tentativa quase impossível de preservar alguma coisa que continua se deteriorando.

Talvez seja justamente por isso que os Backrooms pareçam tão inquietantes. Eles não apresentam um mundo completamente estranho. Apresentam um mundo que continua tentando lembrar de si mesmo, exatamente como uma melodia que ainda reconhecemos por alguns segundos antes de ela desaparecer novamente no ruído.
Essa talvez seja uma das comparações que mais ficaram na minha cabeça depois de terminar o filme, porque reforça a impressão de que o verdadeiro horror nunca esteve nas criaturas. Ele sempre esteve nesse lento processo de degradação, em que a realidade continua tentando se reconstruir sem jamais conseguir voltar a ser exatamente aquilo que um dia foi.