Recalculando a rota...

E saindo de casa sem saber exatamente para onde voltar.

Por Vanny5 de setembro de 202651 min de leitura9 visualizações

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Quando saí de Bed-Stuy naquela tarde, eu tinha a impressão bastante otimista de que a chuva seria apenas um inconveniente decorativo. Fui para Manhattan porque queria passar algumas horas no Met e, depois de andar pelo museu durante muito mais tempo do que originalmente pretendia, resolvi atravessar o Central Park a pé. Estava quente, ainda tinha energia e carregava meu guarda-chuva transparente, que gosto justamente porque funciona como uma janela portátil. Eu gosto de chuva quando existe alguma coisa entre mim e ela.

Gosto de vê-la escorrendo pelo vidro, ouvir o barulho da água, observar a cidade mudar de cor, mas não gosto da sensação de roupa molhada grudando no corpo nem daquela umidade progressiva que começa pelo pé e eventualmente parece alcançar a alma. O guarda-chuva transparente me permite manter uma relação contemplativa com a chuva sem precisar me tornar parte dela, ou pelo menos era essa a teoria antes de Nova York decidir testar os limites do equipamento.

Quanto mais eu avançava pelo parque, mais a chuva apertava. Havia alerta de inundação em algumas partes da cidade, a barra da minha calça começou a absorver água, meus sapatos já tinham desistido de qualquer resistência e, a certa altura, voltar ou continuar era praticamente a mesma distância. Então continuei. Quando finalmente entrei no metrô, estava tão encharcada que se formou uma pequena poça debaixo de mim e eu provavelmente parecia ter mijado no chão do vagão e decidido encarar as consequências com dignidade. Ainda faltava quase uma hora até a casa do meu amigo e, mesmo naquela situação objetivamente desagradável, eu estava de um humor excelente. Foi isso que me chamou atenção, porque algumas semanas antes eu passava dias quase inteiros dentro de casa, olhando para uma bicicleta elétrica que poderia me levar praticamente a qualquer lugar da cidade e sem encontrar dentro de mim vontade suficiente para colocá-la na rua.

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Eu ainda não sabia exatamente o que tinha acontecido comigo nos meses anteriores. Continuava tentando descobrir quanto daquilo era depressão, burnout, isolamento, sono completamente desregulado, alguma deficiência física que ainda valia investigar ou simplesmente o resultado de anos funcionando numa rotação tão alta que, quando finalmente apareceu espaço para parar, meu corpo resolveu cobrar todos os descansos atrasados de uma vez. Só sabia que alguma coisa tinha começado a mudar desde que saí de Filadélfia. Não era felicidade no sentido organizado da palavra, muito menos alguma transformação espiritual provocada por caminhar na natureza. Eu ainda tinha dúvidas demais, continuava cansada e não fazia a menor ideia de onde estaria morando alguns meses depois. A diferença era que eu tinha voltado a sentir curiosidade, e talvez eu tivesse subestimado durante muito tempo o quanto curiosidade também é uma forma de energia. Eu queria saber o que existia do outro lado da cidade, queria entrar em lugares, olhar coisas, fotografar, dirigir, ouvir histórias, experimentar comida, conversar com pessoas e descobrir o que aconteceria se eu simplesmente continuasse indo.

No dia anterior eu tinha ido sozinha para Rockaway Beach. Meu amigo originalmente iria me encontrar, mas passou um tempo considerável procurando um óculos que um dispositivo de rastreamento indicava estar em outro lugar, até descobrir que o rastreador estava sem bateria e o óculos continuava tranquilamente dentro da própria casa, completamente indiferente à crise logística que havia provocado. Quando tudo foi esclarecido, já não fazia muito sentido ele atravessar Nova York para me encontrar. Eu poderia ter desistido também, mas aquele era praticamente o único dia da semana em que a previsão prometia sol e calor suficientes para justificar praia, então fiquei. Não fiz disso uma celebração da minha independência nem uma declaração de que mulheres precisam aprender a apreciar a própria companhia. Eu simplesmente queria estar na praia e já estava lá. Às vezes independência é muito menos cinematográfica do que vendem por aí; é só não ir embora porque outra pessoa não conseguiu chegar.

Eu tinha comprado uma cadeira de praia dobrável na Costco que rapidamente se tornou um dos objetos mais importantes daquela fase da minha vida. Custou por volta de trinta dólares e possui porta-copo, espaço para celular, bolsos, uma pequena bolsa térmica e até almofada, o que significa que é mais funcional do que alguns apartamentos onde já morei. Passei horas ouvindo música, entrando no mar e aproveitando o sol, e voltei para Bed-Stuy um pouco mais bronzeada e com a autoestima inexplicavelmente elevada. Alguns meninos que pareciam novos demais também resolveram flertar comigo, o que me proporcionou a satisfação contraditória de pensar que aparentemente continuo bonita e, imediatamente depois, a responsabilidade adulta de ignorar todo mundo porque alguns pareciam ter no máximo dezessete anos. Não preciso transformar um dia agradável na praia numa investigação criminal.

No Met, no dia seguinte, encontrei Costume Art quase por acaso e acabei passando muito mais tempo naquela exposição do que esperava. Comecei olhando roupas e terminei pensando em corpo, mortalidade, gênero, classe, arte, capitalismo e no fato de que algumas das peças consideradas extremas pela história da moda entrariam tranquilamente no meu guarda-roupa. Eu estava fascinada por corpos distorcidos pela Comme des Garçons, corseteria, McQueen, Schiaparelli, Dilara Fındıkoğlu e uma quantidade preocupante de roupas que me fizeram questionar a necessidade de responsabilidade financeira. Algumas pessoas olham alta-costura pensando exclusivamente em técnica, construção e história; eu também penso nisso, mas existe inevitavelmente uma segunda linha de raciocínio tentando descobrir se aquilo ficaria bom com a minha bota.

Foi também no museu que um homem apareceu praticamente atrás de mim e começou a conversar perto demais do meu ouvido. Ele era bonito, mas beleza nunca conseguiu compensar completamente falta de noção espacial para mim. Fez algumas perguntas sobre a exposição que eu mesma estava ali tentando compreender, conversamos por pouquíssimo tempo e ele já pediu meu Instagram. Eu passei porque, apesar da quantidade de respostas atravessadas que minha cabeça consegue produzir instantaneamente, costumo ser educada quando a pessoa não está deliberadamente me tratando mal. Menos de três minutos depois de nos despedirmos, ele já tinha mandado mensagem querendo sair naquela noite. Eu, que vivo reclamando que homens americanos são enrolados e gostaria que fossem mais espontâneos, imediatamente achei espontâneo demais. Existe um ponto exato entre “esse homem nunca toma iniciativa” e “esse estranho aparentemente está na caça, por já está escolhendo onde vamos beber daqui a três horas”, e sigo procurando alguém que consiga localizá-lo.

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Outro homem em Nova York conseguiu me irritar pelo motivo oposto. Eu realmente queria encontrá-lo, estávamos próximos, havia atração e eu tinha deixado claro mais de uma vez que gostaria de vê-lo. Não estava tentando transformar aquilo num relacionamento, principalmente porque eu estava prestes a pegar a estrada e não queria colocar romance sério no meio de uma vida que eu mesma não sabia onde estaria na semana seguinte. Eu queria sair, conversar, dar uns beijos e provavelmente transar se a química existisse fora do telefone. Nada particularmente complexo. Mesmo assim, a conversa começou a migrar para aquela modalidade de sexualidade digital que parece fascinar alguns homens, em que existe uma mulher real, interessada e geograficamente acessível, mas a pessoa prefere transformar tudo em mensagens, fotos e masturbação assistida remotamente.

Isso me causa uma irritação quase filosófica porque eu cresci apaixonada pela internet justamente pela capacidade que ela tinha de expandir o mundo físico. A internet me apresentou música, pessoas, comunidades, idiomas, conhecimentos e lugares que eu não teria encontrado de outra maneira. Para mim, a tela sempre foi uma porta. Agora encontro homens que parecem preferir usá-la como parede. Não existe nada de errado em sexting quando duas pessoas querem aquilo, mas eu não entendo a necessidade de substituir uma experiência possível pela simulação dela. Se eu estou perto, tenho interesse e quero encontrar você, por que exatamente estamos interpretando um namoro com a própria mão através de um smartphone?

Foi aí que comecei a brincar que talvez estivesse me transformando numa incel feminina. Tenho Nintendo, comprei mais jogos, adquiri outro emulador, acumulo livros, passo tempo demais na internet e ultimamente desenvolvi um repertório extenso de reclamações sobre homens. A comparação, felizmente, termina aí. Eu não acredito que ninguém me deva desejo, sexo ou relacionamento e não tenho raiva de homens por não me escolherem. Meu problema é quase mais irritante: existem homens interessados, só que eu não quero vários deles, enquanto alguns dos que eu quero conseguem destruir meu interesse com uma eficiência admirável. O resultado é que cada experiência desagradável reduz um pouco minha disposição para investir energia na seguinte, e algum homem perfeitamente normal provavelmente vai aparecer um dia e encontrar uma mulher cuja paciência já foi consumida por funcionários anteriores de uma empresa onde ele nunca trabalhou.

Ainda acredito em amor. Só perdi a disposição de fazer estágio não remunerado para encontrá-lo.

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Filadélfia

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Quando voltei para Filadélfia, a casa já tinha começado a adquirir aquela sensação estranha dos lugares dos quais estamos saindo antes mesmo de termos ido completamente embora. Minhas coisas estavam parcialmente guardadas, meu quarto já não existia apenas como meu espaço e a própria rotina da casa começava a se reorganizar sem mim. Minha amiga e o namorado precisavam utilizar o meu antigo quarto porque havia um problema sério no teto do outro, com infiltração e mofo, e eu comecei a sentir que permanecer ali indefinidamente seria ocupar um espaço que já estava tentando assumir outra função. Não havia briga, expulsão ou grande ruptura dramática, o que de certa forma tornava tudo mais difícil de nomear. Eu tinha decidido sair, eles estavam construindo a vida deles e a casa simplesmente estava obedecendo às decisões que todos nós já havíamos tomado.

Passei aqueles dias reorganizando minhas coisas e fotografando. O VannyZone tinha começado a contaminar positivamente outras áreas da minha criatividade e eu estava obcecada pela estética da internet do final dos anos 90 e começo dos 2000, não apenas como nostalgia, mas porque aquele período corresponde exatamente ao momento em que comecei a imaginar quem eu poderia ser. Meu amigo tirou algumas fotos minhas em Nova York usando sua lente fisheye e elas tinham aquela aparência Y2K que na época significava futuro e hoje significa passado, uma inversão que adoro. Depois fiz outras cercada pelos meus MP3 players antigos, CDs, equipamentos eletrônicos e vinis, como se estivesse montando um editorial para uma revista que poderia ter existido dentro da cabeça da adolescente que eu fui.

Tenho vinis demais, inclusive. É uma coleção maravilhosa enquanto permanece imóvel numa estante e uma decisão financeira questionável no segundo em que penso em enviá-la para outro continente. Discos possuem uma característica física muito desagradável chamada peso e aparentemente passei anos construindo uma pequena singularidade gravitacional dentro da minha casa.

Mas foram justamente essas fotografias que me fizeram perceber uma coisa que eu talvez não diga com frequência suficiente: eu gosto muito da pessoa que me tornei. Quando olho para mim hoje, vejo muito da mulher que eu gostaria de ter sido capaz de imaginar completamente quando era adolescente. Naquela época eu sabia que gostava de determinadas roupas, músicas, estéticas e maneiras de existir, mas não tinha dinheiro, acesso, equipamento, referências ou conhecimento suficiente para construir tudo aquilo. Hoje me visto exatamente como gostaria de me vestir, tenho o cabelo que quero, trabalho com tecnologia, fotografo, escrevo, construí meu próprio site, vou a shows, viajo, faço arte, compro discos e tenho equipamentos que aquela menina sentada na frente de um computador provavelmente consideraria objetos de ficção científica.

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Não penso nisso como “curar minha criança interior”, porque nunca consegui enxergar minhas versões anteriores como pessoas separadas que ficaram congeladas dentro de mim esperando resgate. Aquela criança sou eu. A adolescente emo também. A mulher de trinta e quatro anos é apenas a continuação das duas, com mais informação, mais autonomia e uma conta bancária que, embora não permita absolutamente tudo, pelo menos permite comprar o delineador que quiser.

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Por isso também me incomoda a ideia de que personalidade deveria possuir prazo de validade. A sociedade concede aos jovens uma espécie de licença temporária para experimentar roupa, cabelo, música, sexualidade, arte e identidade e depois começa a tratar qualquer expressão visual mais intensa como se fosse um comportamento que deveria ter sido arquivado junto com o diploma da escola. Não sobrevivi à adolescência emo para chegar aos trinta e quatro anos e desenvolver medo de delineador. Se eu quiser parecer uma entidade fantasmagórica indo comprar papel higiênico, esse é um direito que adquiri pagando impostos durante tempo suficiente.

E nada disso entra em conflito com o fato de eu ter passado por um período depressivo. Essa talvez tenha sido outra coisa importante que comecei a compreender. Posso estar cansada da vida sem estar cansada de ser eu. Posso passar dias sem energia e continuar orgulhosa da minha trajetória. Posso não saber em qual país quero morar e ainda saber bastante bem quem sou. Posso me sentir um caco numa semana e olhar uma fotografia minha na seguinte pensando que sou um acontecimento. O corpo é o mesmo, a biografia é a mesma, mas a administração interna mudou de opinião.

Enquanto eu reorganizava minhas coisas, a turnê do Worst continuava sendo lentamente assassinada pela burocracia migratória americana. Primeiro algumas datas desapareceram, depois uma semana, depois duas. Todos conseguiram o visto, menos Thiago, e existe uma dificuldade operacional bastante óbvia em realizar uma turnê de uma banda sem o próprio vocalista. O cancelamento acabou se tornando inevitável.

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Eu tinha organizado semanas da minha vida ao redor daquela viagem. Comprei e preparei equipamento pensando em fotografia e vídeo, montei uma mala para passar grande parte do tempo dentro de trailer, separei menos roupas porque imaginava uma rotina entre estrada e show e já tinha construído mentalmente um itinerário inteiro. No plano original, eu seguiria para Atlanta acompanhando a banda, passando por Richmond no caminho. Quando tudo caiu, fiquei olhando para aquelas malas preparadas para uma vida que havia deixado de existir antes mesmo de começar e percebi que nada me impedia de continuar seguindo a mesma direção por conta própria.

A turnê tinha sido cancelada. O sul dos Estados Unidos não.

Reorganizei os armários da cozinha e aproveitei para doar mantimentos que, se ficassem lá, estragariam em alguns meses. Na Filadélfia, existe um espírito de solidariedade que dá um pouco de esperança. Em cada esquina, você encontra um “pantry” – um armário aberto onde os vizinhos podem doar produtos não perecíveis e de higiene. Quem precisar pode pegar o que precisa sem pedir nada. Eu sempre faço compras extra e ajudo a estocar.

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Então desmontei a mala de trabalho e montei uma para mim. Reduzi o equipamento para minha Canon R7, duas lentes e o drone, coloquei de volta as roupas novas que estava com vontade de usar, acrescentei jogos para o Nintendo, livros, meu monitor portátil, a cadeira de praia e todas as pequenas coisas necessárias para transformar um Fiat 500 numa residência temporária com rodas. Tentei colocar minha bicicleta elétrica lá dentro e descobri que existe uma fronteira objetiva entre confiança e delírio. A bicicleta é fat tire, enorme e pesada; meu carro parece ter sido projetado por alguém que considera duas sacolas de supermercado uma mudança residencial.

A bicicleta ficou em Filadélfia.

Eu peguei a estrada.

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Richmond

Meu Airbnb ficava na North 19th Street, numa região histórica de Richmond que imediatamente me agradou. Era limpo, grande, muito mais espaçoso do que eu precisava e tinha áreas externas onde eu conseguia sentar e trabalhar. Gostei tanto que pretendia estender a estadia e, numa demonstração impecável da minha capacidade administrativa, esqueci. Acabei precisando passar a última noite num hotel tão vagabundo que não tirei sequer uma fotografia, o que para alguém que fotografa praticamente tudo funciona como uma avaliação de uma estrela.

Richmond já possuía memória antes mesmo dessa viagem. Eu tinha ido outras vezes por causa do United Blood, festival de hardcore que costumava acontecer perto do meu aniversário, e cheguei a comemorar o dia 9 de abril ali duas vezes, em momentos completamente diferentes da minha vida. Na primeira eu ainda era casada. Na segunda estava solteira, recém-divorciada e vivendo aquela fase em que a liberdade parecia exigir algum tipo de pesquisa de campo. Por isso caminhar novamente perto do canal e do Canal Club não era apenas turismo; alguns lugares funcionavam como pequenos buracos temporais e eu lembrava de coisas que provavelmente não teriam voltado à cabeça se não estivesse fisicamente passando pelas mesmas ruas.

Uma dessas memórias envolvia um homem com quem fiquei naquela segunda viagem. Eu já tinha cruzado com ele anos antes num show, quando ainda era casada, e uma amiga chegou a comentar que ele estava me olhando bastante enquanto eu comprava camiseta da banda. Na época não significou nada para mim além do fato de ele ter me vendido uma camiseta com defeito na estampa, o que considero uma primeira impressão bastante pouco sedutora. Anos depois, já divorciada, ele começou a me seguir, comentar nas minhas fotos e flertar. Eu também flertava com praticamente qualquer homem que achasse minimamente interessante naquela fase, não necessariamente porque quisesse ficar com todos, mas porque tinha acabado de sair de um casamento e parecia divertido descobrir que ainda existiam outras pessoas no planeta.

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Chegamos a combinar que eu iria visitá-lo. Ele falou em churrasco, fogueira e toda aquela arquitetura verbal que alguns homens constroem com enorme entusiasmo antes de descobrir que executar planos exige mais do que palavras. Um dia antes ele desapareceu. No dia em que eu deveria sair de casa, continuava sem responder. Depois reapareceu dizendo que havia acontecido alguma coisa com o pai e sumiu novamente. Algumas semanas depois nos encontramos no United Blood e ele agiu como se nada tivesse acontecido. Quando perguntei sobre o pai, inicialmente pareceu nem lembrar do que eu estava falando.

Isso deveria ter encerrado meu interesse. Não encerrou. Eu estava recém-divorciada e aparentemente precisava cometer determinados erros pessoalmente para acreditar neles.

Acabamos saindo do festival para caminhar perto do canal. Eu lembro do lugar onde sentamos, lembro de pensar que os assuntos dele não eram particularmente interessantes e lembro também de concluir que eu não passaria meu aniversário completamente em branco depois de uma quantidade razoável de flerte naquela época. Ele tinha pelo menos atitude, beijava bem e possuía o que eu classificaria como configuração de camarão: talvez não fosse o homem cujo rosto eu escolheria para uma pintura renascentista, mas havia argumentos convincentes abaixo do pescoço.

Mais tarde fomos para o hotel onde ele estava hospedado e descobri, já chegando lá, que o quarto era dividido com vários outros integrantes da banda. A privacidade disponível consistia num banheiro pequeno e quente demais.

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O que aconteceu depois não merece descrição minuciosa, mas merece registro porque é impressionante como uma sequência de decisões individualmente questionáveis consegue formar, quando observada retrospectivamente, uma narrativa perfeitamente coerente. O banheiro era pequeno, o chuveiro estava ligado e transformou rapidamente o ambiente numa sauna involuntária, não havia privacidade de verdade e a experiência sexual conseguiu ser simultaneamente demorada e ruim, uma combinação que eu até então não sabia que deveria temer.

Em determinado momento eu já não estava me divertindo e só queria que aquilo terminasse para poder voltar para minhas amigas. Quando finalmente saí do banheiro, ainda precisei atravessar o quarto onde estavam os outros integrantes da banda sabendo perfeitamente que todos possuíam noção aproximada do que tinha acontecido ali durante tempo suficiente para tornar a caminhada até a porta uma experiência vexatória. Para completar, ele ainda demonstrou certa resistência em me levar de volta porque seria difícil estacionar a van na volta. Eu informei que esse era um problema logístico dele. Ele tinha me buscado, portanto me devolveria ao habitat original.

Hoje o que mais me diverte nessa memória é perceber que o desastre não começou naquele banheiro. Eu já tinha perdido parte do interesse quando ele desapareceu antes do encontro que tínhamos combinado e reapareceu depois com uma explicação vaga sobre o pai, para então agir no festival como se absolutamente nada tivesse acontecido. Minha cabeça atual teria encerrado a história ali, não porque hoje eu seja mais puritana ou menos disposta a fazer coisas impulsivas, mas porque aprendi a reconhecer uma diferença importante entre espontaneidade e insistir numa experiência depois que minha vontade já começou a morrer. Naquela época eu tinha acabado de sair de um casamento, estava descobrindo novamente como era desejar pessoas diferentes, flertava muito, viajava, encontrava gente e tinha uma disposição experimental que hoje admiro naquela versão minha, mesmo quando os resultados foram ruins. Eu precisava descobrir algumas coisas na prática, e uma delas foi que liberdade sexual também inclui a liberdade de pensar isso foi uma merda e nunca mais repetir.

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Anos depois ele voltou a aparecer discretamente nas minhas redes sociais, reagindo a stories e deixando aqueles emojis que exigem esforço mínimo e oferecem interpretação máxima. Quando abri o perfil, percebi que as fotografias da namorada tinham desaparecido e concluí que provavelmente estava solteiro. Não respondi. Algum tempo depois fui olhar novamente e as fotos dela tinham voltado. Talvez eles tivessem terminado e reatado, talvez existisse alguma explicação perfeitamente inocente, talvez não. Não era mais problema meu. A única coisa que me interessava naquela história era perceber que eu já não tinha curiosidade suficiente para descobrir.

Voltar ao canal tantos anos depois foi estranho porque o lugar continuava praticamente indiferente a tudo isso. O concreto, a água, os prédios e o Canal Club não tinham qualquer obrigação de reconhecer que ali eu tinha comemorado aniversários, atravessado diferentes relacionamentos, beijado pessoas, tomado decisões ruins e voltado anos depois com uma cabeça completamente diferente. Lugares são excelentes depositários de memória justamente porque não participam dela. Podemos carregar uma esquina durante dez anos enquanto a esquina continua apenas sendo uma esquina.

Fiz também um passeio de barco pelo canal, em parte porque estava cansada de caminhar naquele calor e gostei da ideia de sentar enquanto alguém explicava a cidade para mim. Richmond cresceu em torno do James River e de uma rede de canais que foi fundamental para transporte e comércio, e aquela região concentra camadas da história industrial, política e econômica da cidade que hoje ficam estranhamente pacíficas quando observadas de um barquinho turístico. Eu tentei acompanhar tudo que o guia explicava, mas ventava bastante e parte da aula de história foi levada pelo ar antes de chegar aos meus ouvidos. Ainda assim, foi gostoso simplesmente ficar sentada olhando Richmond passar devagar, especialmente depois de tantas horas tentando conhecer cidades usando meus próprios pés como principal infraestrutura de transporte.

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Naquela mesma passagem por Richmond encontrei também um homem com quem conversava pela internet havia bastante tempo. Ele era praticamente o oposto daquela memória antiga do canal: bonito de um jeito que sempre me chamou atenção, inteligente, advogado, politicamente alinhado comigo e com uma semelhança física suficientemente grande com Anthony Kiedis jovem para eu ter reparado nisso muito antes de decidir encontrá-lo. Nossa história online já tinha passado por aquela fase que me irrita profundamente em que homens falam sobre viagens, encontros e coisas que supostamente farão no futuro sem transformar nada em ação concreta. Eu não gosto de promessa romântica em versão beta. Prefiro que alguém me diga que comprou a passagem depois de comprar a passagem. Eventualmente perdi a paciência, dei uma cortada e paramos de manter aquela conversa constante, embora continuássemos nos acompanhando pelas redes.

Dessa vez eu já estaria em Richmond por mim mesma, então mandei mensagem. Não atravessei estados para vê-lo, não reorganizei minha viagem ao redor de um homem e não construí expectativa de relacionamento. Eu queria encontrá-lo porque finalmente estaríamos na mesma cidade, porque ainda o achava atraente e porque às vezes sexo pode simplesmente ser sexo sem precisar imediatamente se candidatar à posição de grande amor da vida. Jantamos, conversamos, ele me contou coisas sobre Richmond e casas de show da região, passamos um tempo juntos e foi exatamente o tipo de encontro que eu queria naquele momento: agradável, adulto, sem a necessidade de transformar algumas horas boas numa reunião sobre o futuro. Depois de tantas experiências recentes com homens que pareciam preferir a representação digital do desejo ao trabalho relativamente simples de aparecer pessoalmente, foi refrescante encontrar alguém que finalmente existia em três dimensões. E foi gostoso caminhar de mãos dadas depois de meses sem contato físico com alguém... Dentre outras coisas. #iykyk

No dia seguinte fui ao Hollywood Cemetery. Cemitérios antigos me interessam por uma combinação de história, arquitetura, fotografia e morbidez que provavelmente não precisa mais de defesa neste ponto da minha personalidade. Existe algo fascinante na quantidade de esforço que seres humanos investem em deixar uma estrutura permanente sobre um corpo destinado a desaparecer. Algumas famílias constroem lápides; outras aparentemente olharam para a morte e decidiram resistir a mortalidade com esculturas que possivelmente dure eternamente, se nada a destruir antes. Hollywood Cemetery é enorme, arborizado, irregular, cheio de monumentos, mausoléus e caminhos que descem em direção ao James River, e eu fiquei feliz de ter ido de carro porque o calor continuava completamente incompatível com turismo pedestre.

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Foi ali que finalmente comecei a usar meu drone de maneira mais séria. Eu tinha levado aquele equipamento na viagem justamente porque queria registrar paisagens de uma perspectiva diferente, mas os primeiros testes foram suficientes para eu descobrir algumas coisas de que não gostava. Minha solução para o problema foi obviamente comprar outro drone, porque aparentemente estou vivendo uma fase em que qualquer inconveniência tecnológica pode ser resolvida adicionando mais tecnologia à quantidade de objetos que posteriormente precisarei descobrir como enviar para o Brasil ou vender para outra pessoa. Eu sei, eu tenho um problema. O novo era inclusive mais barato e veio acompanhado de um headset de realidade virtual que eu não precisava. Agora possuo dois drones, controles redundantes e um equipamento de VR que entrou na minha vida sem processo seletivo. Pretendo vender o antigo e provavelmente o headset. Escrevo “pretendo” porque tenho sagas inteiras construídas sobre essa palavra.

Também passei pelo James River no final da tarde, quando o calor começou finalmente a perder um pouco da agressividade. Gosto de rios atravessando cidades porque eles expõem uma coisa que prédios tentam fazer esquecer: a cidade chegou depois. Richmond organizou uma parte enorme da própria história ao redor daquela água, utilizou o rio para transporte, indústria, energia e comércio, construiu riqueza e violência em torno dele e, séculos depois, eu estava simplesmente sentada olhando a correnteza e tentando decidir qual cidade visitaria depois. Existe alguma coisa humilhante e reconfortante na escala disso. Nossas crises são gigantescas enquanto estão dentro da cabeça e absolutamente irrelevantes se comparados com a imensidão e importância de um rio.

Antes de sair definitivamente de Richmond fui ao Lewis Ginter Botanical Garden, onde já tinha estado anos antes com meu ex-marido. Naquela primeira visita ele tinha insistido para que eu levasse a câmera sem explicar para onde estávamos indo porque sabia que eu gostaria do lugar. Era abril, havia menos flores do que ele esperava e lembro que ficou um pouco decepcionado por a surpresa não estar no auge da temporada, embora eu tivesse gostado mesmo assim. Voltar tantos anos depois, sem ele, foi uma dessas pequenas colisões temporais que esta viagem começou a produzir com frequência. Eu não estava triste por estar ali novamente. Só conseguia enxergar simultaneamente a mulher que tinha visitado aquele jardim dentro de um casamento e a que agora aparecia sozinha numa road trip sem saber sequer em qual país estaria morando alguns meses depois.

Dessa vez encontrei ali outro rapaz com quem já conversava havia algum tempo, também do rolê hardcore. Caminhamos pelo jardim naquele calor absurdo, conversamos e eventualmente a tarde adquiriu um caráter menos botânico. Digamos apenas que experimentei um tipo de sorvete que ainda não tinha provado e gostei bastante. O problema de consumir sorvete em temperatura elevada é que ele derrete com rapidez, escorre para lugares inesperados e transforma uma experiência teoricamente simples numa operação um pouco mais bagunçada. Não tenho reclamações sobre o sabor. Talvez apenas recomendasse um ambiente climatizado na próxima degustação.

Saí de Richmond naquele mesmo dia em direção a Virginia Beach, com o ar-condicionado ligado, o carro cheio e a sensação de que eu tinha acumulado memórias suficientes naquela cidade para precisar ir embora antes que surgisse mais alguma.

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Virginia Beach

Em Virginia Beach eu escolhi a hospedagem por um critério muito mais simples do que os que normalmente utilizaria: queria abrir a porta e encontrar o mar. Depois de semanas pensando em mudança, trabalho, vistos, homens, países e futuro, eu não queria uma experiência urbana sofisticada. Queria deixar o Fiat estacionado, carregar minha cadeira até a areia e reduzir minhas decisões diárias à quantidade de protetor solar necessária antes de entrar na água.

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O hotel era antigo, com aquela arquitetura típica das praias americanas que parece ter sido construída numa época em que carpete estampado, corredores intermináveis e iluminação fluorescente ainda eram considerados sinais confiáveis de modernidade. Não era luxuoso, mas era confortável e estava exatamente onde precisava estar. A piscina interna, por outro lado, parecia ter sido desenhada por alguém que passou tempo demais olhando imagens de espaços liminares. Azulejos, luz artificial, água parada e aquele silêncio estranho de ambiente recreativo quando ninguém está recreando. Depois de ter passado os últimos meses pensando em Backrooms, eu agora estava hospedada num hotel que possuía seu próprio Poolroom. Eu nem cogitei tocar naquela água.

No primeiro dia caminhei pelo boardwalk e fui até o pequeno parque de diversões. Tenho uma mania de andar em rodas-gigantes quando encontro uma, não exatamente pela atração em si, mas porque gosto de observar cidades de cima. Memória para mim é muito espacial; consigo lembrar melhor de um lugar quando entendo minimamente como as coisas se organizam ao redor. Lá de cima vi a praia, os hotéis, o boardwalk e aquela faixa de cidade construída quase inteiramente para pessoas passarem alguns dias fingindo que nenhuma obrigação existe além de encontrar comida e voltar para o mar.

Depois jantei no Las Palmas Mexican, perto do Boardwalk Resort and Villas. A comida estava ótima, as pessoas foram extremamente simpáticas e o preço não carregava aquela punição econômica habitual por estar perto de uma atração turística. Voltei andando para o hotel enquanto o céu ficava completamente rosa sobre o oceano, uma daquelas cores que fotografias normalmente tentam exagerar e que naquele dia não precisava de ajuda nenhuma.

Nos dois dias seguintes fiz muito pouco e gostei profundamente disso. Minha cadeira da Costco virou base operacional. Havia um Ben & Jerry’s por perto, então minha rotina consistia basicamente em praia, água, cadeira, sorvete e caminhadas pelo boardwalk. Fui ver a estátua de Netuno, fotografei, voltei para o mar, repeti. Não precisava transformar cada hora em conteúdo ou cada cidade numa lista de atrações concluídas. Eu estava começando a entender que viajar por mais tempo exige aceitar dias em que a grande atividade é simplesmente existir num lugar diferente.

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Minha autoestima também voltou de uma maneira quase cômica. Antes de chegar à praia eu tinha passado alguns dias me sentindo um caco, mais sensível, irritada e vulnerável do que normalmente me reconheço. Então minha menstruação veio e parte daquela crise adquiriu uma explicação hormonal extremamente menos literária do que eu gostaria. Isso não significa que sentimentos pré-menstruais sejam falsos; significa apenas que às vezes o cérebro pega uma preocupação real, aumenta o volume até onze e depois entrega a conta para a filosofia.

Entrei no mar menstruada e, enquanto boiava, comecei a pensar se tubarões conseguiriam detectar sangue menstrual. Depois me perguntei se alguém na praia conseguiria imaginar que eu estava menstruada. Depois percebi que ninguém provavelmente estava pensando nada sobre mim e que eu tinha transformado alguns minutos no Atlântico numa investigação interdisciplinar envolvendo biologia marinha, menstruação e percepção social. Nenhum tubarão apareceu, mas uma mulher apareceu.

Ela estava com o marido e eu já tinha percebido que os dois olhavam bastante na minha direção. Em determinado momento ela veio conversar comigo. Achei inicialmente que fosse apenas elogiar alguma coisa, mas a conversa começou a carregar uma segunda intenção suficientemente perceptível para eu concluir que talvez estivesse sendo sondada para alguma experiência envolvendo o casal. Ela era bonita, ele estava ali acenando de longe e ela toda discreta, me oferecendo companhia, mas simplesmente não era uma vaga para a qual eu pretendia me candidatar. Sorri, agradeci os elogios, voltei para minha cadeira e continuei meu dia. Já tenho dificuldade suficiente administrando relações com uma pessoa por vez; não preciso transformar afetividade em trabalho em grupo.

Aqueles dias também foram bons para fotografar e produzir conteúdo porque eu finalmente estava me sentindo novamente confortável dentro do meu corpo. Existe uma instabilidade quase ofensiva na maneira como conseguimos nos enxergar. O corpo é praticamente o mesmo de terça-feira, mas na terça parece errado; na quinta, depois de dormir melhor, menstruar, tomar sol, vestir uma roupa de que gostamos e receber algum estímulo positivo, de repente parece maravilhoso. Eu estava bronzeada, perto do mar, com energia e me sentindo muito bonita. Aproveitei. Tirei fotos. Gravei coisas. Algumas ainda estão esperando edição porque aparentemente minha vida atualmente produz arquivos mais rápido do que consigo processá-los.

Quando saí de Virginia Beach, estava melhor do que quando cheguei. Não de maneira transcendental. O oceano não resolveu minha vida, mas dois dias em que minhas maiores preocupações foram areia dentro da bolsa, sorvete derretendo e a possibilidade estatisticamente pequena de ser comida por um tubarão foram bastante úteis.

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Raleigh

Dirigi então para Raleigh, na Carolina do Norte, e a primeira coisa que fiz foi visitar o Historic Oakwood Cemetery. Ele não tem a escala monumental do Hollywood Cemetery, mas é bonito, arborizado e possui aquela combinação de história local e arquitetura funerária que sempre me interessa. Depois fui para a tiny house que tinha alugado, escolhida principalmente porque havia estacionamento em frente à porta. Depois de semanas carregando malas, equipamentos, bolsas e compras para dentro e para fora do Fiat, minha ideia de luxo havia sido reduzida a conseguir abrir o porta-malas, pegar o que eu preciso de dentro da mala e percorrer menos de cinco metros até a cama.

Raleigh estava tão quente que qualquer plano de explorar a cidade caminhando começou a parecer um atentado contra mim mesma. Tentei sair, caminhei um pouco, percebi que não estava aproveitando absolutamente nada e comecei a procurar atividades compatíveis com ar-condicionado. Foi assim que cheguei à Sorry State Records, onde imediatamente compensou qualquer dinheiro economizado em atrações turísticas gastando em vinil. Comprei um disco do Speed, outro do Angel Du$t, Meteora, do Linkin Park, e Three Cheers for Sweet Revenge, do My Chemical Romance. Também encontrei discos de bandas brasileiras no meio das prateleiras, uma coisa que sempre me dá uma pequena satisfação desproporcional, como se eu tivesse encontrado alguém conhecido num país estrangeiro mesmo estando apenas diante de um pedaço de plástico prensado. Encontrei Ratos de Porão, Point Of No Return e outra banda de integrantes de Santos, que inclusive, uma das integrantes, que se dizia lésbica e namorava uma menina muito mais nova na época, dava em cima do meu (então) namorado nas minhas costas, mas na minha frente agia descaradamente simpática. 

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A região ao redor era agradável, mas o calor continuava tornando qualquer passeio longo uma punição, então fui ao Boteco do Brasil. Comi mini coxinhas, um espetinho de picanha e pedi um gin com morango e hortelã tão bom que pedi outro. Existe um ponto em qualquer viagem longa pelos Estados Unidos em que meu corpo começa a exigir comida brasileira com a urgência de uma deficiência nutricional. Não importa quantas coisas diferentes eu goste de experimentar, chega uma hora em que uma coxinha aparece na mesa e alguma parte primitiva do meu cérebro reconhece território.

Depois fui ao cinema porque tenho assinatura da AMC e também gosto da idéia de utilizar o cinema também como intervalo entre cidades. Assisti a Buddy, que gostei justamente porque é estranho, simples e um pouco bobo de uma maneira que não parece envergonhada de ser boba. Tenho a impressão de que atualmente muitos filmes sentem necessidade de justificar a própria existência através de grandiosidade, ironia ou importância, então existe alguma coisa refrescante em assistir a uma história que simplesmente aceita sua própria natureza.

E então fui ao Sheetz, instituição sobre a qual não consigo manter neutralidade porque trabalhei para o departamento de TI deles (meu primeiro emprego nos USA) e provavelmente desenvolvi alguma versão gastronômica de Síndrome de Estocolmo. Ainda assim, afirmo com a convicção de quem já comeu comida demais dos dois lugares que Sheetz é superior a Wawa. A comida é melhor, os lugares geralmente me parecem mais limpos, o menu é mais interessante, os funcionários costumam ser simpáticos e os refreshers são perigosamente gostosos, mesmo eu sabendo que provavelmente estou bebendo uma quantidade de açúcar capaz de sustentar uma pequena colônia de formigas durante o inverno. Quem prefere Wawa são porcos acostumados com lavagem. Nem todo mundo teve acesso às coisas boas da vida, eu entendo. Eu posso falar isso porque vim da pobreza. Mas romantizar serviço ruim e comida mal feita é aceitar que não merece coisas boas na vida.

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Eu descobri através do Bands In Town (app que eu uso muito para saber de shows futuros) que Descendents e Social Distortion tocariam na cidade no dia seguinte. Comprei ingresso e reorganizei minha permanência ao redor do show, porque música continua sendo uma das poucas coisas capazes de modificar meus planos sem que eu sinta que estou cedendo alguma coisa.

No dia do show eu decidi pedir um Uber, por medo de ter dificuldade de encontrar estacionamento. Burrice a minha, pois havia estacionamentos em todos os cantos. Mas o carro que apareceu tinha modelo, cor e placa diferentes daqueles registrados no aplicativo. Talvez existisse uma explicação inocente; talvez o motorista tivesse trocado de carro e esquecido de atualizar a conta. Não entrei porque segurança não é uma área em que tenho interesse em oferecer benefício da dúvida a um estranho. Cancelei e pedi outro. Dessa vez apareceu exatamente o carro indicado e fui para o show sem precisar transformar a noite numa estatística que alguém posteriormente utilizaria para explicar por que mulheres deveriam “tomar mais cuidado”, como se conferir a placa não fosse justamente uma das coisas que fazemos o tempo inteiro porque aprendemos muito cedo que uma parte considerável da nossa segurança depende de desconfiar preventivamente de situações que talvez não tenham absolutamente nada de errado.

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Cheguei praticamente na hora do Descendents e fiquei um pouco mais atrás durante o show. Depois fui chegando mais perto para Social Distortion. Eu estava com uma roupa meio navy, meio pin-up, listrada, com saia lápis, e percebi algumas pessoas olhando e elogiando minhas tatuagens e o look. Era uma roupa que fazia sentido naquele ambiente sem ter sido montada deliberadamente para parecer figurino de show, embora provavelmente alguém pudesse me colocar ao lado de um carro antigo, adicionar um filtro ligeiramente amarelado e produzir uma fotografia convincente de alguma década em que eu nem era nascida.

Foi olhando ao redor que tive uma das constatações mais estranhas da noite: todo mundo estava envelhecendo.

Não de uma maneira triste. Também não estou dizendo isso daquela perspectiva apocalíptica de internet em que completar quarenta anos aparentemente significa receber uma carta do governo informando que sua juventude foi oficialmente revogada. Era simplesmente muito visível que aquela música havia atravessado décadas junto com as pessoas. Os integrantes das bandas estavam mais velhos, naturalmente, mas o público também. Havia casais, gente com filhos, pessoas grisalhas, tatuagens que claramente tinham sido feitas muitos anos antes e aquela postura física de quem ainda gosta de estar perto do palco, mas já descobriu que não existe medalha por acordar no dia seguinte sem conseguir mexer o pescoço. Algumas daquelas pessoas provavelmente frequentaram shows quando precisavam mentir para os pais sobre onde estavam indo (tipo eu) e agora tinham trazido os próprios filhos.

A iconografia do punk e do hardcore raramente acompanha essa parte. As imagens que ficam são quase sempre juventude congelada: corpos pulando, gente se jogando do palco, suor, sangue, cabelo, coturno, fotografia granulada de alguém com vinte e poucos anos berrando num microfone. A cultura visual preserva a rebeldia jovem porque ela é fotogênica, enquanto a continuidade é muito menos espetacular. Só que existe alguma coisa bonita em perceber que a cena não desapareceu quando as pessoas começaram a pagar financiamento, criar filhos, tomar remédio para pressão ou precisar trabalhar na manhã seguinte. Elas simplesmente continuaram indo aos shows. Talvez algumas tenham ficado menos interessadas em levar um chute na cabeça, o que considero uma evolução perfeitamente razoável.

Eu também estou envelhecendo dentro disso. Tenho trinta e quatro anos e ainda consigo ficar horas num show, viajar por causa de uma banda, comprar camiseta, discutir disco, ficar na frente do palco e achar alguém bonito no meio da multidão. Só que agora também consigo perceber quando meus pés estão doendo e pensar que talvez sentar durante a troca de equipamento não seja uma traição ideológica ao punk. Não sinto saudade de ser adolescente porque gosto muito mais de quem sou hoje, mas existe algo estranho em assistir às mesmas bandas que conheci quando era muito nova e perceber fisicamente quanto tempo coube entre uma versão minha e a outra.

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Perto de mim havia um homem que ajudou consideravelmente a impedir que essa reflexão se transformasse numa meditação excessivamente solene sobre mortalidade. Ele era um pouco mais baixo do que eu, bigodudo, muito tatuado, com tatuagens realmente bonitas, usando uma camiseta do Speed e segurando uma criança no colo. Não vi nenhuma mulher que parecesse estar com eles, o que obviamente não significa nada além do fato de que eu não vi nenhuma mulher que parecesse estar com eles, mas meu cérebro registrou a informação com a eficiência investigativa de alguém que, apesar de toda a exaustão romântica dos últimos meses, continua aparentemente operacional.

A criança ficou abraçada ao pai e começou a olhar descaradamente para os meus seios. Criança não possui ainda aquela sofisticação social de perceber que encarar alguém durante tempo demais pode ficar estranho, então simplesmente continuou olhando com uma concentração quase científica. Em determinado momento o pai percebeu para onde o filho estava olhando, olhou para mim também e houve aquele segundo perfeitamente reconhecível em que duas pessoas adultas percebem uma à outra. E a criança apontou para a minha tattoo no peito e falou "dad look tattoo" e Social Distortion começou a tocar. Eu tinha acabado de passar vários minutos refletindo sobre envelhecimento, famílias e o tempo atravessando a cena punk e, imediatamente, meu cérebro produziu a conclusão intelectualmente sofisticada de que talvez eu pudesse ser uma excelente madrasta.

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Mas não houve oportunidade de submeter currículo.

O show em si foi tranquilo, principalmente comparado a várias coisas que costumo frequentar. Ninguém parecia particularmente interessado em provar resistência física, o que combinava com a demografia geral da noite. Depois de algum tempo eu mesma já estava cansada de ficar simplesmente em pé e comecei a esperar o final com aquela mistura muito adulta de “estou adorando” e “gostaria de sentar imediatamente”.

Quando estava terminando, pedi um Uber para evitar ficar esperando muito tempo do lado de fora. O carro demorou muito e quando finalmente o aplicativo avisou que o motorista estava chegando, eu fui para a área onde outras pessoas também aguardavam seus carros e, quando o meu apareceu, aconteceu exatamente a mesma coisa de antes: veículo diferente, placa diferente. Duas vezes no mesmo dia já ultrapassava a quantidade de coincidência que eu estava disposta a investigar. Algumas pessoas mais velhas que estavam ali esperando seus próprios Ubers perceberam a situação e também disseram para eu não entrar. Cancelei de novo.

Isso me irritou porque existe uma exaustão específica em precisar manter esse tipo de vigilância. Eu estava cansada, sozinha numa cidade que não conhecia bem, queria voltar para o Airbnb e dormir, e ainda precisava conferir se o objeto de metal no qual entraria com um desconhecido correspondia ao objeto de metal que uma empresa tinha prometido que apareceria. Provavelmente havia uma explicação perfeitamente banal para pelo menos um daqueles motoristas. Talvez para os dois. Mas existe uma diferença entre acreditar que a maioria das pessoas não pretende fazer mal e oferecer o próprio corpo como método para testar a hipótese.

Enquanto esperava meu próximo Uber, um homem baixinho, gordinho e visivelmente bêbado, começou a bancar o protetor, insistindo que ele não iria embora enquanto eu não pegasse o Uber certo. Ele estava acompanhado de uma mulher, que acredito ser sua irmã, por semelhança física e pela aparente indiferença dela ao seu flerte descarado comigo. É cansativo ser mulher, viu? Ainda bem que havia outra mulher, também bêbada, mas consciente, que percebeu meu desconforto e começou a conversar comigo. Ela elogiou minhas roupas e perguntou se eu tinha gostado do show. Ela perguntou sobre meu sotaque e até tentou falar algumas palavras em português quando eu disse que era Brasileira. Uma fofa.

O Uber seguinte estava correto. O motorista era simpático, conversamos durante o caminho e finalmente voltei para a tiny house, não sem antes pegar o Fiat e fazer outra parada no Sheetz para comprar jantar. Eu já tinha ido lá várias vezes durante minha estadia e continuava defendendo a instituição com um fervor que provavelmente deveria ser reservado a questões políticas mais importantes. Gosto dos hambúrgueres, gosto dos refreshers, gosto do sistema de pedir tudo na tela (que eu ajudei a desenvolver quando trabalhava lá) e gosto até daquela iluminação de posto que normalmente deveria produzir depressão, mas ali era bem iluminado e me trazia felicidade. Naquela noite pedi um refresher e ainda adicionei a opção de hidratação porque estava me sentindo o Bob Esponja desidratado, uma decisão de saúde cuja seriedade talvez seja ligeiramente comprometida pelo fato de o restante do copo provavelmente conter açúcar suficiente para alimentar uma família.

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Foi também em Raleigh que uma coisa aparentemente pequena começou a transformar meu retorno ao Brasil numa realidade menos abstrata. Comprei ingressos para ver Alexisonfire em São Paulo, no dia 20, e em Curitiba, no dia 22. Até então minha volta continuava existindo naquela região confortável do futuro composta por palavras como “depois”, “provavelmente”, “quando eu terminar essa parte da viagem”. Eu sabia que voltaria, mas ainda conseguia tratar a ideia como se estivesse falando da vida de outra pessoa. Comprar dois ingressos colocou números no calendário. De repente havia uma data da qual eu precisava estar no Brasil.

Alexisonfire também continuava aparecendo de maneira curiosa nessa fase. Depois do show de aniversário de Crisis em Buffalo e de eu ter comprado o vinil, comecei a postar mais sobre o disco e Wade MacNeil passou a reagir e comentar algumas coisas nos meus stories. Não estou projetando uma amizade inteira em cima de interações no Instagram, porque passei tempo suficiente online para saber como esse tipo de fantasia pode ficar ridícula rapidamente, mas fiquei feliz. Sempre achei que ele parecia uma pessoa interessante e gosto genuinamente da banda, não apenas como uma coisa que ouvi na adolescência, mas como artistas cuja trajetória continuei acompanhando e tenho respeito. Eu amo fazer amizade com pessoas que tocam em bandas das quais sou fã, é uma honra muito grande e também um delírio, se eu puder ser honesta.

A morte do Lou tinha mexido bastante com essa parte da minha cabeça. Passei anos pensando em entrevistas que gostaria de fazer, músicos com quem gostaria de conversar, projetos que poderia produzir e até na banda que sempre quis montar, tratando todas essas coisas como possibilidades armazenadas num futuro aparentemente infinito. Quando alguém morre, principalmente alguém que fazia parte justamente daquele universo de referências e conversas, a palavra “depois” perde um pouco da inocência. Não quero transformar luto numa lista de produtividade, porque seria uma conclusão grotesca, mas comecei a sentir menos paciência com a minha própria tendência de adiar coisas por insegurança. Se eu quero entrevistar alguém, posso perguntar. Se quero produzir um projeto, posso começar. Se quero montar uma banda mesmo sabendo que existem pessoas tecnicamente melhores do que eu em praticamente todos os instrumentos possíveis, talvez a existência dessas pessoas não seja uma razão particularmente convincente para eu permanecer em silêncio.

Essa ideia da banda continuava me perseguindo porque meu amigo falava sobre montar alguma coisa comigo havia bastante tempo e não era o único. Tenho amigos nos Estados Unidos e no Brasil que já sugeriram isso, e minha reação sempre foi uma mistura de vontade enorme e vergonha antecipada. Música é justamente uma das coisas que mais admiro, portanto também é uma das áreas em que tenho mais medo de parecer medíocre. Fiz aula de bateria quando era mais nova, tenho alguma noção, tentei guitarra e meu cérebro decidiu transformar o instrumento numa equação diferencial, não gosto particularmente da minha voz e conheço músicos bons demais para conseguir me enganar sobre meu nível técnico. Só que também conheço gente suficiente tocando em bandas com recursos técnicos bastante questionáveis e vivendo perfeitamente bem com isso. Algumas inclusive são boas justamente porque não dependem de virtuosismo.

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O que eu tenho vontade de fazer é escrever. Tenho vontade de colocar experiências, raiva, política, relações, humor e todas as coisas que normalmente despejo em texto dentro de letras e descobrir o que acontece quando elas precisam caber em música. Sempre fui uma yapper. Falo, escrevo, discuto, gravo vídeo, tenho opinião sobre coisas que ninguém perguntou e frequentemente preciso me policiar para não transformar uma resposta simples numa palestra acompanhada de contexto histórico. Uma banda seria apenas uma maneira muito mais barulhenta de continuar fazendo aquilo que já faço.

Lou era uma das pessoas que mais me incentivava nesse sentido. Eu sempre dizia que, se algum dia tivesse uma banda, ele seria uma das primeiras pessoas que eu gostaria de chamar para participar de alguma música. Admirava a energia dele no palco, a sinceridade, a força e a maneira como conseguia ocupar aquele espaço. Agora essa colaboração só existe numa linha temporal que não aconteceu. Não existe nada que eu possa fazer a respeito disso, mas existe alguma coisa que posso fazer sobre as outras coisas que ainda não aconteceram.

Raleigh acabou ficando associada a essa sensação estranha de tempo porque tudo ao redor parecia lembrar envelhecimento de alguma maneira. Descendents e Social Distortion no palco, famílias na plateia, eu comprando ingressos para ver outra banda que escuto desde adolescente em outro continente, discos antigos dentro do carro, minha própria volta ao Brasil começando a ganhar data. Eu tinha ido para a cidade sem grandes expectativas e saí pensando bastante em quantas versões minhas tinham conseguido chegar juntas até ali.

Na manhã em que precisava deixar a tiny house, acordei mais tarde do que pretendia e tive que executar aquela operação que já começava a ficar automática: banho, carregadores, computador, roupas, conferir banheiro, olhar debaixo da cama, recolher sacolas, abrir o porta-malas e tentar reorganizar tudo de uma maneira que permitisse fechar o carro sem esmagar nada importante. Meu Fiat já não parecia exatamente um carro; era um organismo digestivo cheio de objetos que mudavam de posição a cada cidade. Em algum lugar estavam os vinis. Em outro, equipamento fotográfico. Havia roupa, cadeira de praia, livros, Nintendo, produtos de higiene, sapatos, compras recentes e uma quantidade crescente de pequenos objetos adquiridos durante a viagem que eventualmente precisariam responder à pergunta de onde pretendiam morar.

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Eu estava vindo para Lexington, na Carolina do Sul (de onde estou escrevendo no momento) passar a noite na casa dos pais da minha amiga. No caminho, a mãe dela recomendou que eu parasse no South of the Border, e bastaram algumas fotografias para eu perceber que obviamente pararia. Tenho uma atração quase automática por lugares que parecem ter escapado de outra época sem receber a informação de que o mundo ao redor mudou.

South of the Border é exatamente isso. A atração surgiu na divisa entre as Carolinas e foi crescendo ao longo das décadas até se transformar naquele complexo enorme de estrada, cheio de placas, construções coloridas, publicidade antiquada e uma estética que em alguns pontos parece pertencer a uma América preservada acidentalmente em formol. Parte do imaginário visual também envelheceu de maneiras bastante questionáveis, principalmente a caricatura mexicana utilizada historicamente pelo lugar, e isso faz parte da estranheza de visitá-lo hoje. Não é um parque temático retrô cuidadosamente desenhado por alguém em 2026 para parecer antigo. Ele simplesmente é antigo. As décadas foram se acumulando sobre ele.

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Eu adoro esse tipo de coisa porque gosto de lugares em que o tempo ficou visível. Uma loja perfeitamente reformada pode ser bonita, mas não me diz necessariamente muita coisa sobre as pessoas que passaram por ela. Um letreiro desbotado, uma placa com tipografia que ninguém escolheria hoje ou um prédio cuja ideia de futuro pertence a 1974 possui uma honestidade histórica diferente. Às vezes é feio. Às vezes é politicamente desconfortável. Às vezes parece cenário de filme de terror onde uma família desaparece depois de decidir abastecer o carro. Tudo isso me interessa.

Depois parei no Buc-ee's, que representa uma filosofia completamente diferente de parada rodoviária. Se South of the Border parece um fragmento de estrada americana que envelheceu sem perceber, Buc-ee's parece o resultado de alguém perguntar quanto capitalismo seria fisicamente possível colocar ao redor de uma bomba de gasolina antes que o lugar precisasse eleger prefeito. É enorme, iluminado, cheio de comida, souvenirs, produtos com um castor estampado e pessoas tratando uma parada para abastecer como passeio familiar. Existe alguma coisa profundamente americana na capacidade de transformar até a necessidade fisiológica de parar durante uma viagem numa oportunidade de comprar decoração para casa.

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Quando finalmente cheguei a Lexington, já estava cansada daquele jeito específico que não vem apenas de dirigir. Era acúmulo de dias. Calor, praia, shows, museus, homens, hotéis, malas, quilômetros, refeições em horários completamente inadequados, fotografias esperando edição e trabalho acontecendo nos intervalos. A casa dos pais da minha amiga oferecia uma coisa que hotéis e Airbnbs não conseguem reproduzir completamente: a sensação de estar em casa. Não precisava descobrir como funcionava o prédio, procurar instruções de check-in ou analisar se a rua parecia segura para deixar minhas coisas no carro. Eu conhecia aquelas pessoas, já tinha passado Natal com eles e gostava genuinamente deles.

Sentar ali também produziu um contraste estranho com a forma como eu tinha começado essa viagem. Em Filadélfia, eu estava desmontando um quarto de que não queria me despedir. Agora minhas coisas estavam espalhadas dentro de um Fiat e eu já tinha desenvolvido uma rotina suficientemente funcional para não precisar saber exatamente onde dormiria uma semana depois.

Meu próximo destino agora é Augusta, na Geórgia. Uma amiga mora lá, namorada de um dos meus melhores amigos da Filadélfia, que originalmente também viria visitar sua namorada. A ideia era inclusive surpreendê-lo no aeroporto porque ele não sabia que eu estaria por perto. Mas infelizmente seu pai veio a falecer.

Eu ainda vou encontrar minha amiga. Estávamos pensando em fazer uma tatuagem juntas e talvez explorar Atlanta. Atlanta continua sendo um ponto curioso no mapa porque eu deveria chegar lá acompanhando o Worst. Na versão original dessas semanas, eu estaria dentro de um trailer, trabalhando com a banda, carregando equipamento e seguindo uma agenda definida por shows.

Isso começou a acontecer várias vezes durante a viagem: eu planejava uma coisa, ela morria, e o lugar continuava existindo depois da morte do plano. Talvez parte da minha angústia dos meses anteriores viesse de confundir roteiro com destino. Se a maneira como imaginei chegar a algum lugar deixava de existir, eu tratava aquilo quase como se o próprio lugar tivesse desaparecido.

Mas Richmond continuou lá sem a tour.

Virginia Beach continuou lá sem companhia.

Raleigh apareceu porque eu tinha liberdade para mudar de direção.

Atlanta continuava esperando sem qualquer obrigação de saber por que eu demorara.

E eu comecei a gostar dessa relação menos contratual com o futuro. Não no sentido irresponsável de abandonar completamente planejamento, porque gasolina custa dinheiro, hotéis precisam ser reservados e meu carro não funciona com desenvolvimento pessoal. Eu continuo olhando mapas, calculando distâncias, conferindo preços e tentando não terminar dormindo num estacionamento porque resolvi romantizar demais a espontaneidade. O que mudou foi a necessidade de decidir o significado de tudo antes de viver.

Eu ainda não sei se volto para o Brasil para ficar. Os ingressos do Alexisonfire agora garantiam que eu voltaria fisicamente, mas voltar fisicamente para um país não significa necessariamente decidir que ele será sua casa definitiva, assim como permanecer nos Estados Unidos por mais alguns meses não significa escolher esse país para sempre. Durante muito tempo tentei transformar a pergunta sobre onde morar numa questão de identidade, como se escolher um endereço fosse escolher qual versão minha merecia continuar existindo. Talvez seja por isso que nenhuma resposta parecia suficiente.

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Eu sinto falta do Brasil e consigo me irritar profundamente quando estou lá. Sinto falta da minha mãe e sei que, se passarmos tempo demais juntas, provavelmente vou querer uma porta fechada entre nós. Estou cansada dos Estados Unidos e consigo atravessar uma cidade americana desconhecida, encontrar um museu, uma loja de discos, um cemitério ou um show e lembrar imediatamente de várias razões pelas quais ainda gosto de estar aqui. Passei anos reclamando de coisas que me cansam neste país e, ao mesmo tempo, construí uma vida inteira nele. Existem amigos, memórias, bandas, estradas, hábitos, lugares e até uma preferência completamente irracional por uma rede específica de postos de gasolina. Dez anos não desaparecem porque decidi colocar meus objetos em caixas.

Talvez eu estivesse tentando transformar uma decisão prática numa espécie de divórcio geográfico. Se eu voltar para o Brasil, precisaria declarar encerrada a minha relação com os Estados Unidos; se permanecesse aqui, precisaria justificar por que continuava adiando uma volta que desejo há tanto tempo. Só que minha vida nunca respeitou muito bem essas categorias. Sou brasileira e americana. Sinto saudade enquanto estou longe e fico sufocada quando permaneço tempo demais no mesmo lugar. Quero ter uma casa e quero poder abandoná-la temporariamente sem que isso pareça uma crise. Quero uma parceria e preciso de espaço suficiente para continuar reconhecendo minha própria vida dentro dela. Quero estabilidade, desde que estabilidade não seja outro nome para repetição. Talvez o problema não seja eu ainda não ter escolhido um dos lados, mas ter passado tempo demais supondo que algum deles precisaria eliminar o outro.

Viajar começou a tornar essa contradição menos urgente. Não porque a estrada tenha me dado alguma sabedoria especial, mas porque dirigir por horas ocupa uma quantidade considerável do cérebro com problemas muito mais concretos. Preciso abastecer. Preciso comer. Preciso decidir se tenho energia para continuar por mais duas horas. Preciso descobrir onde estacionar. Preciso lembrar em qual bolsa coloquei o carregador que estava na minha mão quinze minutos atrás. Preciso verificar se o Airbnb tem estacionamento, porque aprendi rapidamente que “free street parking” pode significar “boa sorte, querida”. Quando o cotidiano se reduz a decisões assim, as perguntas gigantes continuam existindo, mas perdem temporariamente o direito de presidir todas as reuniões.

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Cheguei a Lexington carregando essa versão menos solene do futuro comigo. Eu já conhecia os pais da minha amiga e tinha passado um Natal com eles antes, então entrar naquela casa não teve a sensação ligeiramente impessoal de chegar a mais uma hospedagem. Não havia código de fechadura para decorar, instrução plastificada dizendo onde colocar o lixo nem a necessidade de descobrir se alguém no apartamento de cima utilizava sapatos de concreto. Havia pessoas que eu conhecia, uma casa de verdade, gatos circulando e aquela atmosfera que só existe quando você entra no espaço cotidiano de uma família e percebe que ali as coisas continuam acontecendo mesmo quando você não está olhando.

Os gatos ajudaram imediatamente. Tenho uma incapacidade quase completa de permanecer indiferente diante de um gato, então bastou existirem pequenos animais fofos andando pela casa para que parte da minha atenção fosse sequestrada. Depois de tantos dias dormindo em lugares diferentes, havia alguma coisa especialmente confortável em observar um gato agir como se aquele endereço fosse o centro incontestável do universo. Para ele não existia Brasil, Estados Unidos, storage unit, mudança internacional ou rota para Atlanta. Existia aquela casa. Provavelmente comida em determinado horário. Algum lugar específico onde gostava de dormir. Uma hierarquia doméstica da qual eu era apenas uma visitante temporária.

Passei boa parte do resto do dia conversando com os pais da minha amiga, e existe um tipo de conversa com pai e mãe que possui uma textura própria. Não precisa ser sobre nada extraordinário. São perguntas sobre onde eu estava, para onde vou, o que aconteceu, quem está fazendo o quê, se estou comendo direito, como está determinada pessoa, o que pretendo fazer depois. Aquele interesse doméstico e despretensioso começou a me parecer muito confortável depois de semanas em que grande parte das minhas conversas tinha acontecido entre deslocamentos, mensagens, encontros rápidos e pessoas que provavelmente não voltaria a ver tão cedo.

Naturalmente acabamos falando da filha deles.

E aí a situação ficou ainda mais engraçada porque eu conheço minha amiga por uma perspectiva completamente diferente da deles, mas existe uma interseção considerável entre nossas opiniões sobre os relacionamentos que ela teve. Começamos a conversar sobre algumas escolhas, comportamentos de ex-namorados, coisas que eu tinha presenciado durante nossa amizade e aquelas situações em que todos ao redor de alguém parecem enxergar um problema enquanto a pessoa emocionalmente envolvida continua tentando encontrar uma interpretação mais generosa.

Eu me senti um pouco como a irmã mais nova dela fazendo relatório para os pais.

O que é particularmente engraçado porque não havia qualquer intenção de fofoca maldosa. Era mais aquela familiaridade confortável de pessoas que amam a mesma pessoa de lugares diferentes e, portanto, desenvolveram suas próprias versões de meu Deus, por que ela fez isso? Eu contava alguma coisa que tinha vivido com ela, eles lembravam de outra, comparávamos impressões e eventualmente chegávamos à conclusão de que todos queríamos essencialmente a mesma coisa: que ela estivesse com alguém que acrescentasse alguma coisa à vida dela em vez de transformar cada semana numa nova reunião de gerenciamento de crise.

Acho que por isso que me senti tão à vontade. Eu não estava sendo tratada como “a amiga que veio visitar”. Havia uma familiaridade muito mais próxima daquela licença informal que famílias concedem a pessoas que já passaram tempo suficiente ao redor para poderem participar das reclamações. Eu podia falar dela com o carinho e a irritação de quem realmente a conhece, eles podiam responder com aquela resignação parental de quem conhece aquela criatura desde antes de ela conseguir formar frases, e por algumas horas eu quase me senti incorporada à árvore genealógica como uma irmã caçula importada do Brasil.

Depois fomos jantar juntos no Outback.

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Existe algo objetivamente engraçado em atravessar vários estados procurando experiências locais, comidas típicas e lugares que contem alguma coisa sobre a região para terminar uma noite perfeitamente feliz no Outback Steakhouse. Mas eu gosto disso também. Nem toda refeição precisa justificar a viagem. Às vezes você só quer sentar numa mesa com pessoas queridas, pedir alguma coisa previsível, conversar e não precisar pesquisar a história cultural do molho antes de comer.

A conversa continuou durante o jantar e eu percebi que estava relaxada de uma maneira diferente daquela de Virginia Beach. Na praia eu tinha conseguido desligar porque estava sozinha e não precisava responder a ninguém. Ali eu estava relaxada justamente porque estava acompanhada. Não precisava performar sociabilidade, impressionar ninguém, decidir se existia química, interpretar mensagem, descobrir intenção ou pensar se aquela pessoa continuaria na minha vida depois que eu pegasse a estrada. Eu podia simplesmente falar. Eles já sabiam quem eu era. Eu já sabia quem eles eram.

Talvez por isso aqueles papos de pai e mãe sejam tão confortantes. Existe alguma coisa quase infantil, no melhor sentido possível, em ser temporariamente incluída numa estrutura doméstica que já estava funcionando antes de você chegar. Depois de passar semanas decidindo tudo sozinha, alguém pergunta se você quer jantar. Alguém comenta o que pretende fazer amanhã. Existe café da manhã. Existem gatos. A vida ganha pequenas bordas novamente.

Amanhã de manhã vamos juntos a um flea market.

Fiquei genuinamente animada quando falaram porque flea market é uma das maneiras mais eficientes de me fazer perder completamente a noção de tempo. Posso passar horas olhando objetos que não preciso, tentando descobrir de que década vieram, imaginando quem os possuía e convencendo a mim mesma de que determinada coisa absolutamente inútil merece atravessar comigo vários estados e possivelmente um oceano. Isso seria menos preocupante se eu não estivesse justamente tentando reduzir dez anos de pertences antes de me mudar para outro país. Estou viajando com um Fiat cheio, comprei quatro vinis em Raleigh, adquiri um segundo drone porque o primeiro me irritou e agora vou voluntariamente entrar num lugar especializado em vender objetos usados.

Claramente aprendi muito sobre desapego. Só que não.

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