Devo ficar ou devo partir?
Um registro sobre desmontar uma casa e colocar dez anos de vida em caixas.

Eu comecei a escrever esse texto algumas semanas atrás, ainda deitada na cama do quarto que passei o último ano transformando no lugar mais parecido com um lar que já tive nos Estados Unidos. Naquela madrugada, eu tinha acabado de esvaziar meu guarda-roupa, desmontar parte do escritório, separar doações, enfiar caixas em todos os espaços possíveis e finalmente encarar fisicamente uma decisão que já estava tomada havia meses: eu estava indo embora. Não sabia exatamente para onde, o que continua sendo um pequeno problema logístico quando você está empacotando dez anos de vida, mas a mudança já tinha começado muito antes de eu conseguir formular uma resposta convincente para essa pergunta.

Talvez seja justamente por isso que eu tenha adiado tanto este primeiro Pulse Check. Eu queria registrar essa fase enquanto ela acontecia, mas toda vez que começava a escrever alguma coisa, a situação mudava novamente. O plano original era relativamente simples dentro dos meus parâmetros pessoais de simplicidade, que aparentemente incluem abandonar uma residência, entrar numa turnê, viajar pelos Estados Unidos e depois possivelmente mudar de continente. Eu deixaria a casa em agosto, guardaria minhas coisas, entraria em tour com o Worst, aproveitaria a estrada para fotografar, filmar e criar conteúdo, depois faria algumas viagens sozinha e, no final do ano, começaria o processo de enviar para o Brasil aquilo que acumulei durante uma década morando aqui. Na minha cabeça existia uma linha do tempo, mas a vida, como de costume, tem sempre planos diferentes.
A decisão de sair da casa, pelo menos, não aconteceu de repente. Eu já tinha conversado com minha amiga com bastante antecedência, justamente porque não gosto de tomar decisões que reorganizem a vida de outra pessoa sem lhe dar tempo para se preparar. Pouco depois, o namorado dela encontrou um trabalho em Filadélfia muito mais rápido do que esperávamos e acabou se mudando para cá antes da minha saída. No começo eu fiquei incomodada e não vejo motivo para fingir que não. Sou territorial com meu espaço, gosto de organização e limpeza, trabalho em casa e tinha me acostumado a passar grande parte do dia sozinha. De repente havia outra pessoa, mais coisas, outro gato, menos privacidade e uma energia masculina que eu definitivamente não tinha solicitado como atualização do contrato de aluguel.

Com o tempo, porém, consegui separar duas coisas que inicialmente estavam misturadas na minha cabeça: alguém pode me irritar como pessoa com quem divido uma casa sem ser uma pessoa ruim. Ele não é. Na verdade, acho que é um rapaz muito bom, de boas intenções e principalmente alguém que parece gostar genuinamente da minha amiga. Quando conversei sobre coisas que estavam me incomodando, ele tentou ajustar o que conseguia e nossa convivência, no geral, foi boa. Eu jamais namoraria com ele, mas felizmente ninguém está solicitando que eu faça isso. Existem características que para mim seriam incompatibilidades absolutas e que para outra pessoa são simplesmente hábitos irritantes de um ser humano que ela ama. Descobrir essa diferença talvez seja uma das pequenas vantagens de ficar mais velha: nem toda coisa que eu não aceitaria para mim precisa ser transformada numa tese sobre aquilo que outras pessoas deveriam aceitar.
Também estou genuinamente feliz por ela. Acompanhei os primeiros anos da nossa amizade enquanto ela estava presa num relacionamento que parecia consumir uma quantidade absurda da energia dela e em consequência, consumia a minha energia também. Quase todo rolê terminava em alguma história sobre uma discussão, alguma coisa cruel que ele tinha feito, uma promessa quebrada ou uma situação que a deixava magoada. O ponto final veio depois de uma viagem nossa para Nova York para assistir ao projeto audiovisual do Turnstile e depois ao show deles, que continua sendo uma das melhores apresentações deles que já vi. Enquanto tentávamos aproveitar o dia, o então namorado dela passou horas enviando mensagens paranóicas e fazendo acusações completamente desconectadas da realidade. Quando voltamos para Filadélfia, ela descobriu

outras coisas, decidiu terminar e a situação escalou para uma crise grave em que ele se feriu na nossa frente, houve sangue, ambulância e internação. Eu não preciso reconstruir cada detalhe daquela noite para lembrar o quanto aquilo também me afetou.
Durante muito tempo eu assisti minha amiga tentando salvar pessoas que não estavam conseguindo se responsabilizar nem pela própria vida e talvez por isso eu tenha ficado tão feliz quando ela resolveu dar outra chance ao relacionamento que tem agora. Eles já tinham se envolvido muitos anos antes, seguiram caminhos diferentes e se reencontraram numa fase em que finalmente fazia sentido tentar novamente. Eu mesma incentivei. Ele esperou sem transformar essa espera numa cobrança, respeitou as experiências que ela teve enquanto estavam separados e continuou ali. Acho bonito quando alguém que amo finalmente encontra uma relação que parece acrescentar alguma coisa em vez de consumir tudo ao redor.
Só que observar uma pessoa construindo uma direção inevitavelmente me fez olhar para a minha.
E aí começou o problema.
Eu sei ir embora, mas ainda estou aprendendo a ficar.
Eu sempre fui muito boa em movimento. Se uma situação deixa de fazer sentido, eu saio. Se um relacionamento me faz constantemente infeliz, não consigo permanecer nele apenas porque já investi alguns anos. Se uma cidade começa a parecer pequena demais, começo a pesquisar outra. Se existe algum lugar que quero conhecer, normalmente encontro um jeito de chegar. A liberdade de ir e vir sempre foi uma das coisas mais importantes para mim, talvez justamente porque durante a infância eu tinha muito pouca autonomia e poucas condições financeiras para experimentar o mundo da maneira que queria.

Quando comecei a trabalhar, dinheiro significava principalmente mobilidade. Eu queria ir a shows, viajar, conhecer cidades, entrar num cinema, comer alguma coisa diferente, voltar para casa com uma história. Passei uma parte enorme da vida criando acontecimentos futuros aos quais pudesse me agarrar porque sempre tive uma relação estranha com dias repetitivos. Quando muitas semanas começam a parecer uma única semana muito longa, tenho a sensação de que o tempo está desaparecendo. Existe inclusive uma explicação psicológica razoável para isso: períodos com poucos eventos distintos produzem menos marcos diferenciados na memória retrospectiva, enquanto experiências novas e mudanças de contexto criam mais pontos de referência. Talvez seja por isso que uma viagem de cinco dias consiga ocupar uma ala inteira da nossa memória enquanto três meses de rotina parecem ter acontecido numa terça-feira.
Durante muito tempo, meu problema era não ter liberdade suficiente para criar esses marcos. Agora tenho liberdade demais e energia de menos, o que descobri ser uma combinação surpreendentemente confusa.
Posso continuar nos Estados Unidos. Posso voltar para o Brasil. Posso deixar minhas coisas guardadas e viajar por algum tempo. Posso tentar morar em outro país. Posso encontrar outra casa em Filadélfia. Posso tentar Nova York. Posso eventualmente comprar algum lugar e construir um QG para onde sempre consiga voltar. Todas essas opções são possíveis e quanto mais tento escolher uma delas como resposta definitiva, menos certeza tenho de qualquer coisa.

Eu quero voltar para o Brasil porque sinto falta da minha mãe, dos meus amigos, da língua, da cultura e de uma sensação de conexão que nem sempre encontro aqui. Ao mesmo tempo, quando imagino morar definitivamente no Brasil, também não quero. Não quero mais ficar nos Estados Unidos, mas claramente existe uma parte de mim procurando alguma desculpa para continuar. A ideia de ir embora me alivia e me entristece ao mesmo tempo, o que seria uma ótima maneira de resumir praticamente todas as minhas decisões recentes.
Às vezes eu gostaria sinceramente que alguém decidisse por mim, embora provavelmente passasse quinze minutos discordando da decisão e fizesse outra coisa.
A pior parte de desmontar uma casa é descobrir que você gostava dela
Esta foi a primeira casa em muitos anos em que me permiti decorar como se fosse realmente ficar. Eu sempre comprei móveis pensando que algum dia teria que vendê-los, sempre guardei caixas de eletrônicos imaginando outra mudança e sempre mantive alguma parte da vida pronta para ser transportada. Aqui eu relaxei um pouco essa regra.
Meu quarto ficou exatamente com a minha cara. As cortinas são verdes escuras, o abajur é listrado em preto e branco e quase sempre fica aceso em verde porque aparentemente qualquer decoração minha eventualmente desenvolve alguma relação com Beetlejuice. Acima da cama coloquei as fases da lua porque vivo fotografando a lua. Nas paredes existem pinturas escuras, uma mulher melancólica que acabou se tornando uma espécie de autorretrato acidental, um gato preto, um corvo, um castelo perto de um lago, uma caveira e outras pequenas coisas que fui encontrando e pensando que pertenciam ali.
Tenho uma luna moth e uma death's-head hawkmoth preservadas e emolduradas, uma fotografia minha roubando o microfone num show do H2O que uma amiga fotógrafa fez e que meu ex-marido transformou em canvas de aniversário, candelabros de parede com velas artificiais e um closet que eu mesma montei. Na verdade, fui eu quem organizou e decorou boa parte da casa quando nos mudamos. Minha amiga estava trabalhando muito e ainda atravessando uma fase emocional complicada, enquanto eu tinha tempo, gosto por decoração e aparentemente uma necessidade psicológica de transformar caixas em ambientes aconchegantes.

Pela primeira vez também tive um escritório separado do quarto, uma coisa que queria havia anos. Coloquei minha standing desk, uma cadeira confortável, meus equipamentos de fotografia e vídeo, materiais de arte, impressora, Cricut e todas as ferramentas necessárias para que qualquer interesse passageiro meu consiga imediatamente virar um projeto desproporcionalmente elaborado. Foi nesse escritório que construí grande parte do VannyZone. Foi ali que voltei a escrever, editar, fotografar, desenhar e criar coisas simplesmente porque queria criá-las.
Quando comecei a empacotar tudo novamente, tive uma sensação estranha porque percebi que não estava apenas encerrando um contrato de aluguel. Estava desmontando o primeiro lugar em muito tempo que realmente conseguiu me convencer de que eu gostava de ter um lar.
A casa é uma rowhome em South Philly, com três andares, basement finalizado, espaço suficiente para que duas pessoas consigam viver juntas sem necessariamente viver uma em cima da outra e um banheiro com aquele chuveiro de corpo inteiro que me fez desenvolver uma relação ainda mais forte com a hora do banho. Minha janela tem um dos pores do sol mais bonitos que já tive dentro de casa.

Passei dias maravilhosos olhando por ela e também alguns dos dias mais deprimidos que tive em muitos anos, quando levantar da cama parecia uma atividade desnecessariamente sofisticada.
Foi aqui que, pela primeira vez em muito tempo, eu me permiti não preencher imediatamente a tristeza com alguma coisa.
No passado, quando me sentia mal ou sozinha, existia uma tendência de preencher aquele espaço com movimento. Saía, marcava dates, conversava com gente, criava planos, começava projetos e fazia qualquer coisa que impedisse minha cabeça de permanecer parada tempo suficiente para me alcançar. Passei muitas horas em aplicativos de relacionamento encontrando pessoas pelas quais eu não tinha interesse suficiente e que provavelmente também não tinham grande interesse em mim além daquela circunstância específica.
Desta vez aconteceu o contrário.
Eu fiquei em casa.
Passei semanas saindo pouquíssimo, algumas vezes praticamente sem conversar com ninguém, inclusive pela internet. Isso é muito estranho para alguém que durante a pandemia odiava tanto ser obrigada a ficar dentro de casa que pegava a bicicleta praticamente todos os dias apenas para sentir que ainda existia uma cidade do lado de fora. Pedalei bairros inteiros naquela época. Hoje tenho uma bicicleta elétrica, moro numa cidade que sempre quis explorar e em alguns dias, não encontro vontade nem de colocá-la na rua.

Ainda estou tentando entender se isso foi descanso, burnout, depressão, isolamento, amadurecimento ou uma reunião de condomínio entre todas essas coisas. Fiz inclusive alguns exames porque existem explicações físicas que também merecem ser descartadas antes de transformar tudo numa teoria existencial. Talvez seja ferro. Talvez vitaminas. Talvez seja anedonia. Talvez seja simplesmente o efeito de anos funcionando em alta rotação e finalmente encontrar um período em que meu corpo percebeu que podia parar.
O que sei é que me tornei muito mais consciente das minhas emoções. Não acho que necessariamente sinta mais do que antes; talvez apenas consiga observar melhor. Durante grande parte da vida eu trabalhava, estudava, atravessava cidades, mantinha relacionamentos e resolvia problemas numa velocidade que deixava pouco espaço para processar qualquer coisa. Hoje consigo perceber quando estou magoada antes de transformar aquilo em raiva, esperar uma emoção diminuir antes de falar alguma coisa e reconhecer que posso amar uma pessoa e ainda assim ficar profundamente irritada com ela.
Isso é amadurecimento, provavelmente, mas também é extremamente inconveniente. Prestar mais atenção na própria dor significa, infelizmente, perceber que ela está ali.
Eu gostaria de gostar tanto de alguém que ficar não parecesse desistir de alguma coisa
Não vou fingir que não quero parceria. Quero. Só não quero uma parceria simplesmente para poder dizer que tenho uma.

Eu tentei construir isso antes. Fui casada, fiz terapia de casal antes de decidir pelo divórcio, reorganizei minha vida em torno de relacionamentos, dirigi quase duas horas repetidamente para passar tempo com alguém e até escolhi morar num bairro que não era minha primeira opção porque queria estar mais perto de outra pessoa. Nunca mudei aquilo que considero essencial em mim para caber numa relação, mas fiz esforço, concessões e investimentos reais para que algumas funcionassem.
Então não foi por falta de tentar.
O problema é que hoje tenho muito menos energia para investir meses numa pessoa até descobrir que conversar com ela me entedia, que nossos valores não combinam ou que seu maior projeto para o futuro consiste em continuar exatamente onde está. Eu não preciso que alguém seja idêntico a mim, mas preciso sentir curiosidade, profundidade, movimento, inteligência e alguma vontade de experimentar o mundo.
Talvez por isso exista uma pequena fantasia dentro dessa viagem que estou começando agora. Não exatamente encontrar alguém, mas encontrar alguma coisa que mude a trajetória. Uma cidade. Uma oportunidade. Um projeto. Uma pessoa. Uma versão minha que eu ainda não conheço.
Algumas semanas atrás, inclusive, resolvi fechar uma pergunta que carregava havia anos e mandei mensagem para uma pessoa do meu passado. Fui eu quem saiu daquela história, bloqueou contato e decidiu desaparecer, e agora aparentemente essa pessoa não quer reconstruir nenhum vínculo. É justo. Existem portas que permanecem abertas durante anos apenas dentro da nossa cabeça, e quando finalmente tentamos atravessá-las descobrimos que a outra pessoa já trocou a fechadura.

Acho que precisava disso.
Nem sempre encerramento significa receber a resposta que você queria. Às vezes significa finalmente parar de imaginar todas as respostas possíveis.
Quando terminei de empacotar minhas coisas, consegui colocar praticamente tudo que considero importante dentro de um utility closet, debaixo da cama e em algumas bolsas. É uma visão estranha. Dez anos vivendo nos Estados Unidos, uma década inteira de objetos que sobreviveram a diferentes cidades, relacionamentos, trabalhos e versões minhas, agora comprimidos dentro de espaços que nunca foram projetados para guardar uma biografia.
Ainda não enviei nada para o Brasil. Minha intenção é voltar para Filadélfia depois dessa primeira etapa da viagem, organizar o que restou, vender ou doar mais coisas e deixar a maior parte guardada até novembro. Depois quero contratar uma empresa de mudança internacional e enviar aquilo que realmente vale a pena por carga marítima. Não sei quanto tempo levará para chegar, onde exatamente vou estar quando chegar ou se já terei uma residência pronta para receber tudo.
Existe alguma coisa maravilhosamente absurda em enviar seus pertences para um país antes de ter certeza de que você mesma pretende morar nele.
Talvez o mais racional fosse justamente não decidir agora. Guardar as coisas, viajar, continuar trabalhando e observar se algum lugar consegue me convencer a permanecer.
Foi com essa cabeça que finalmente saí de Filadélfia.
E, depois de semanas quase sem vontade de sair de casa, comecei a viagem dirigindo.
Primeira parada: Bed-Stuy
Vim para Nova York passar alguns dias na casa do meu amigo que conheço desde a adolescência, dos rolês de hardcore em São Paulo e que acabou se tornando uma dessas pessoas que atravessaram continentes comigo sem que a amizade precisasse de grande manutenção para continuar existindo. Era aniversário dele e eu queria fazer alguma coisa pessoal de presente, então, no meio de caixas, mudança, burocracia e uma quantidade completamente inadequada de sono, resolvi fabricar um enfeite de centro de mesa de espelho e gravar nele o símbolo do Corinthians.

Porque aparentemente minha maneira de demonstrar afeto é adicionar mais uma tarefa artesanal quando já não tenho tempo para absolutamente nada.
Deu certo, ficou pronto.
De Bed-Stuy, nosso próximo destino seria Buffalo. O Alexisonfire estava comemorando os vinte anos de Crisis, e existia pouca possibilidade de eu estar no estado de Nova York, ter ingresso e simplesmente decidir que sete horas de estrada eram excessivas. Então fomos.
Na teoria, Brooklyn até Buffalo já é uma viagem considerável. Na prática, com trânsito, paradas e a geografia interminável do estado de Nova York, foram aproximadamente sete horas para ir e outras sete para voltar. Quatorze horas de estrada por causa de um show é exatamente o tipo de decisão que eu provavelmente deveria começar a questionar aos 34 anos e ao mesmo tempo, exatamente o tipo de decisão que continua me lembrando por que gosto de estar viva.
No caminho para Buffalo, paramos num posto para abastecer e usar o banheiro. Voltei para o carro, seguimos viagem e algum tempo depois percebi que minha carteira não estava comigo, u tinha deixado no banheiro do posto de gasolina, a centenas de quilômetros de onde estaria quando percebesse.

Existe um tipo muito específico de desespero que acontece quando você está viajando e percebe que deixou carteira, documentos e cartões num banheiro de posto de gasolina no meio do estado de Nova York. Felizmente consegui localizar o lugar, ligar para lá e confirmar que os funcionários tinham encontrado e guardado tudo. Como voltar imediatamente significaria provavelmente perder o show, continuamos até Buffalo ecno caminho de volta, passamos novamente pelo posto para buscar minha carteira que aparentemente resolveu fazer sua própria viagem.

Recentemente tenho pensado que talvez esse tipo de situação seja a melhor explicação possível para a fase em que estou vivendo: eu tenho um plano, alguma coisa sai completamente do roteiro, entro em pânico por alguns minutos, encontro uma solução improvisada e continuo dirigindo. A carteira resolveu conhecer o interior do estado de Nova York sem mim, a tour que deveria organizar boa parte das próximas semanas está progressivamente se desintegrando por causa dos vistos, minhas coisas estão empacotadas numa casa que tecnicamente já estou deixando e eu ainda não sei exatamente em qual país vou querer morar depois de tudo isso.
Mesmo assim, de algum jeito, continuo chegando aos lugares.
Eu já estava cansada antes mesmo de entrar no show, mas bastou o Alexisonfire começar a tocar para eu lembrar por que ainda aceito fazer essas viagens completamente desproporcionais por música. A apresentação comemorava os vinte anos de Crisis, um álbum que fez parte da minha vida por tempo suficiente para que algumas músicas já não estejam associadas apenas à banda, mas a versões específicas de mim mesma, lugares onde morei e pessoas com quem dividi determinadas épocas. Ouvir aquele disco ao vivo, tantos anos depois, enquanto eu mesma estou encerrando um período enorme da minha vida, teve um peso que eu não estava exatamente esperando.

Foi um dos melhores shows a que fui nos últimos tempos. Existe alguma coisa diferente em assistir a uma banda tocar um álbum inteiro quando você conhece não apenas as músicas, mas os espaços entre elas. Você sabe o que vem depois, reconhece os primeiros segundos antes de todo mundo reagir e percebe que uma quantidade enorme das pessoas naquele lugar carregou aquele mesmo disco durante vinte anos por razões completamente diferentes.
Voltar para Bed-Stuy depois de Buffalo também deveria significar que eu estava prestes a entrar numa rotina completamente diferente, porque o plano original era encontrar os meninos do Worst e começar a tour. Só que, neste momento, a tour parece estar sendo organizada diretamente por alguma entidade especializada em caos burocrático. Os problemas com os vistos já engoliram as duas primeiras semanas e ninguém consegue afirmar com certeza quando eles vão conseguir entrar nos Estados Unidos, quais datas ainda poderão acontecer ou até que ponto o itinerário original continuará existindo. Passei semanas me preparando para uma agenda extremamente específica e, de repente, estou em Nova York com malas, equipamentos, carro funcionando perfeitamente e absolutamente nenhum compromisso equivalente ao que deveria estar fazendo.
Mas isso não me deixou tão frustrada quanto eu imaginaria. Talvez porque, depois dos últimos meses, eu tenha finalmente desenvolvido alguma tolerância para planos provisórios. Talvez por aceitar que ninguém (além dos USA) é culpado pelo atraso dos vistos, está fora das nossas mãos e que estar temporariamente sem roteiro seja exatamente o tipo de coisa que eu costumava desejar quando minha vida era organizada demais. Ou talvez porque percebi que posso simplesmente usar esse tempo.
Estou em Nova York, tenho carro e existem milhares de lugares daqui, de New Jersey e dos estados ao redor que nunca visitei. Tenho equipamentos de fotografia e vídeo que estou morrendo de vontade de usar, um drone, meu blog finalmente funcionando como eu queria e uma quantidade quase irresponsável de ideias de conteúdo acumuladas na cabeça. Se a tour começar, ótimo, eu sigo com ela. Enquanto não começa, não existe nenhuma razão para eu ficar sentada esperando a burocracia internacional decidir meu calendário.
Quero dirigir, fotografar, conhecer lugares que sempre salvei numa lista e nunca tive tempo de visitar, transformar essa fase estranha, em que tecnicamente estou entre casas e talvez entre países, numa oportunidade de registrar as coisas que ainda quero viver aqui.

Aproveitei que estou aqui em NYC e fui ao cinema da AMC no Madison Square Garden para assistir Spider-Man, e foi uma experiência muito mais divertida do que eu esperava, principalmente por estar vendo aquilo aqui da própria cidade do Miranha. Mas vou deixar para falar mais sobre na minha resenha do filme.
E uma dessas ideias começou a tomar uma forma um pouco mais concreta nos últimos dias.
Depois que o Lou Koller faleceu, alguma coisa mudou na maneira como comecei a pensar sobre as pessoas que admiro e sobre todo o material que passei anos dizendo que algum dia gostaria de produzir. Existe uma quantidade enorme de músicos que conheci através da cena, alguns pessoalmente, outros através do trabalho, de shows ou simplesmente de anos acompanhando aquilo que fazem e percebi que sempre imaginei que haveria tempo suficiente para conversar com essas pessoas depois.
Depois é uma palavra extremamente conveniente até deixar de existir.
A morte do Lou me fez pensar em todas as histórias que desaparecem junto com alguém, principalmente dentro de cenas musicais construídas muito mais através de memória coletiva do que de documentação formal. Hardcore existe em discos, fotografias e flyers, claro, mas existe principalmente nas pessoas que estavam lá. Nas casas onde bandas começaram a ensaiar, nos lugares onde aconteceram shows, nos restaurantes onde todo mundo se encontrava depois, nas lojas de discos, nos bairros, nos carros, nas histórias ridículas que nunca chegaram a uma entrevista oficial porque pareciam pequenas demais para serem importantes.
E eu quero registrar algumas delas.
Então eu finalmente fiz um upgrade na minha câmera e equipamentos fotográficos para poder fazer esse projeto acontecer. Troquei minha Canon T8i por uma Canon R7 e estou absurdamente feliz com a decisão. Eu já estava querendo dar esse passo havia algum tempo, principalmente porque quero voltar a fotografar e filmar com mais intenção, criar mais conteúdo para o site, registrar a estrada, os shows e tudo aquilo que estou planejando para os próximos meses. Então precisava começar essa fase justamente com uma câmera nova nas mãos. Para mim, equipamento nunca foi só equipamento; ele sempre vira uma desculpa para sair de casa, testar alguma coisa, aprender uma função nova, editar até tarde e eventualmente voltar com uma memória que não existiria se eu tivesse decidido ficar parada.
O que sei é que quero voltar a criar conteúdo.
Durante muito tempo, produzir entrevistas, fotografar bandas e conversar com artistas que admiro fazia parte de uma versão minha que parecia extremamente curiosa sobre as pessoas. Em algum momento, entre trabalho, mudanças, relacionamentos, burnout e vida adulta, fui deixando isso de lado. A morte do Lou me lembrou de uma maneira bastante brutal que não existe nenhum motivo inteligente para continuar adiando as coisas que realmente tenho vontade de fazer.
Talvez seja essa uma das coisas que estou tentando recuperar agora: curiosidade suficiente para voltar a sair de casa sem precisar saber exatamente onde tudo isso vai terminar.
Há poucos dias eu estava deitada no meu quarto em Filadélfia, chorando enquanto olhava para as paredes que passei um ano decorando e tentando compreender por que estava desmontando o primeiro lugar em muito tempo que realmente senti como lar. Agora estou em Nova York depois de dirigir quatorze horas para ver Alexisonfire em Buffalo, perder minha carteira num banheiro de posto de gasolina, recuperar minha carteira, comemorar o aniversário de um amigo, comprar um disco que amo e descobrir que a tour que deveria determinar as próximas semanas talvez nem aconteça como planejado.
Estranhamente, minha cabeça parece um pouco menos parada.
Ainda não sei se quero morar no Brasil. Ainda não sei se quero continuar nos Estados Unidos. Não sei onde vou colocar minhas coisas depois de novembro, não sei se quero comprar uma casa, continuar viajando ou encontrar algum lugar inesperado no meio do caminho que faça todas essas perguntas mudarem novamente. Continuo querendo uma parceria e ao mesmo tempo, sem disposição para construir uma só para não ficar sozinha.
Continuo cansada, embora esteja tentando entender quanto desse cansaço é físico, emocional, burnout ou simplesmente o resultado de ter passado meses processando mudanças que durante boa parte da vida eu teria resolvido correndo para a próxima coisa.

Mas alguma coisa mudou desde que comecei a empacotar aquele quarto, talvez eu tenha finalmente parado de exigir que esta fase produza imediatamente uma resposta. Eu não preciso decidir hoje onde vou morar pelos próximos dez anos. Não preciso transformar o Brasil em destino definitivo nem os Estados Unidos numa história encerrada. Posso deixar minhas coisas guardadas, trabalhar, viajar, visitar pessoas, fotografar, criar e descobrir aos poucos quais lugares ainda produzem alguma vontade de permanecer.
Durante muito tempo achei que liberdade significava saber que eu podia ir embora a qualquer momento. Talvez agora eu precise descobrir se existe algum lugar, projeto ou pessoa que consiga fazer ficar também parecer liberdade.
Por enquanto, tenho gasolina no carro, uma carteira novamente em minha posse, algumas semanas que inesperadamente ficaram vazias e uma lista gigantesca de lugares onde nunca estive.
Já é alguma coisa.





































