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American Psycho

Diretor: Mary Harron

Ano de lançamento: 2000

Poster for American Psycho

É muito fácil assistir American Psycho pela primeira vez e sair acreditando que o filme é apenas uma sátira sobre um serial killer de Wall Street.

Mas, para mim, o assassinato nunca foi o assunto principal.

O verdadeiro horror do filme é perceber que Patrick Bateman poderia continuar sendo exatamente a mesma pessoa mesmo que nunca matasse ninguém.

A violência é chocante. A normalidade que existe entre uma cena e outra é muito mais.

Um homem completamente vazio

Patrick Bateman parece ter tudo. É bonito, rico, mora em Manhattan, trabalha em um dos empregos mais desejados da época e pertence ao tipo de círculo social que passa a vida inteira tentando demonstrar sucesso.

Só existe um problema.

Nada daquilo parece realmente pertencer a ele.

Sua rotina é construída por produtos, marcas, restaurantes, roupas, exercícios, cartões de visita e uma obsessão quase religiosa pela própria aparência. Não existe espaço para uma personalidade real porque toda a identidade dele foi terceirizada para objetos de consumo.

Patrick não sabe quem é.

Ele sabe apenas quem deveria parecer ser.

Todo mundo parece a mesma pessoa

Uma das coisas mais brilhantes do filme é como os personagens vivem confundindo uns aos outros.

Pessoas passam vários minutos conversando sem perceber que estão falando com alguém diferente. Colegas trocam nomes constantemente. Ninguém realmente presta atenção em ninguém.

No começo isso parece apenas uma piada.

Depois você percebe que essa confusão é justamente o ponto.

Num ambiente onde todo mundo constrói exatamente a mesma personalidade, deixar de existir como indivíduo se torna quase inevitável.

Eles usam os mesmos ternos, frequentam os mesmos restaurantes, escutam as mesmas bandas porque é socialmente aceitável gostar delas, repetem as mesmas opiniões e medem o próprio valor pelos mesmos símbolos de status.

A individualidade desaparece muito antes da violência começar.

Capitalismo como performance

Acho interessante que muita gente define American Psycho como uma crítica ao capitalismo, mas eu diria que ele é ainda mais específico do que isso.

O filme critica uma forma de capitalismo onde consumir deixa de ser consequência de uma vida confortável e passa a ser o próprio objetivo da existência.

Patrick não compra porque gosta.

Compra porque precisa continuar existindo dentro daquela hierarquia.

O famoso surto por causa dos cartões de visita talvez seja a melhor representação disso. Nenhum cartão é objetivamente superior. Todos são praticamente iguais. Ainda assim, pequenas diferenças de papel, tipografia e acabamento parecem capazes de destruir completamente sua estabilidade emocional.

É ridículo.

Justamente por isso funciona tão bem.

Violência ou fantasia?

O final continua sendo discutido décadas depois porque nunca oferece uma resposta definitiva sobre o que realmente aconteceu.

Patrick matou todas aquelas pessoas?

Parte daquilo aconteceu?

Ou tudo não passou de uma fantasia construída dentro de uma mente completamente fragmentada?

Particularmente, nunca achei que essa fosse a pergunta mais interessante.

O filme funciona das duas maneiras.

Se os assassinatos aconteceram, o mundo ao redor é tão superficial que ninguém sequer percebe.

Se não aconteceram, Patrick está tão desesperado para sentir alguma coisa que até sua imaginação precisa recorrer ao extremo para romper a monotonia.

Em qualquer uma das interpretações, a conclusão é igualmente perturbadora.

Masculinidade performática

Revendo o filme hoje, uma das coisas que mais me chama atenção é como ele antecipa discussões que se tornariam muito mais comuns décadas depois.

Patrick performa masculinidade o tempo inteiro.

Seu corpo precisa ser perfeito. Seu apartamento precisa ser perfeito. Sua carreira precisa ser perfeita. Seu status precisa ser perfeito.

Mas quase nunca vemos qualquer intimidade real, amizade verdadeira ou vulnerabilidade.

Tudo funciona como uma competição permanente.

O sucesso não serve para aproveitar a vida. Serve apenas para demonstrar que você está acima de outra pessoa.

Mais atual do que deveria

É curioso assistir American Psycho hoje porque muita coisa que parecia exagerada no ano 2000 passou a fazer parte do cotidiano.

Redes sociais transformaram identidade em curadoria constante. Pessoas constroem versões cuidadosamente editadas de si mesmas enquanto medem aprovação por números públicos. Marcas continuam funcionando como linguagem social. Aparência continua sendo confundida com caráter.

A diferença é que agora não precisamos trabalhar em Wall Street para viver esse tipo de pressão.

Basta ter um smartphone.

Patrick Bateman talvez fosse influencer hoje. E essa possibilidade me assusta mais do que qualquer cena de violência do filme.

Um filme frequentemente mal interpretado

Existe uma ironia muito grande em torno de American Psycho.

O filme foi criado para ridicularizar justamente o tipo de homem que parte da internet resolveu transformar em modelo de sucesso. Patrick Bateman virou meme de produtividade, disciplina e riqueza, como se toda a sátira tivesse passado completamente despercebida.

Isso talvez seja a maior prova de que a crítica do filme continua funcionando.

Algumas pessoas assistem a duas horas de desconstrução da masculinidade performática e conseguem sair admirando exatamente aquilo que estava sendo ridicularizado.

O verdadeiro psicopata

No fim das contas, acho que o título engana um pouco.

O psicopata não é apenas Patrick.

O ambiente inteiro parece incapaz de reconhecer qualquer humanidade que não possa ser convertida em status, dinheiro ou aparência.

Patrick apenas levou essa lógica até o limite.

É isso que torna American Psycho tão desconfortável mesmo depois de tantos anos. A violência envelheceu como ficção. A cultura que a cerca continua parecendo perigosamente familiar.

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