Existem álbuns que você escuta.
E existem álbuns que passam tantos anos acompanhando a sua vida que, em algum momento, você deixa de conseguir separá-los das suas próprias lembranças.
Around the Fur é um desses discos para mim.
Cada fase da minha vida encontrou uma música diferente para chamar de favorita. Quando eu era adolescente, era impossível não ficar obcecada por My Own Summer. Depois veio Be Quiet and Drive. Em outro momento foi Mascara. É como se o álbum envelhecesse junto comigo, revelando coisas diferentes dependendo de quem eu era quando apertava o play.
É um disco que nunca parece terminar de dizer tudo o que tem para dizer.
O peso nunca foi só o peso
Muita gente coloca o Deftones dentro da mesma caixa do nu metal porque cronologicamente faz sentido. O problema é que Around the Fur já parecia interessado em escapar dessa definição muito antes de ela existir de verdade.
Enquanto várias bandas da época apostavam quase exclusivamente em agressividade, o Deftones parecia fascinado por textura. O peso nunca existia sozinho. Sempre vinha acompanhado de silêncio, sensualidade, melancolia ou alguma estranha sensação de vazio.
As guitarras de Stephen Carpenter são enormes, mas raramente parecem querer apenas esmagar quem está ouvindo. O baixo de Chi Cheng preenche espaços que muita gente nem percebe conscientemente, e a bateria de Abe Cunningham dá ao disco um groove que ainda hoje soa diferente de praticamente qualquer banda pesada daquela geração.
E então existe Chino Moreno.
Ele nunca canta como alguém tentando impressionar pela técnica. Parece sempre que está tentando sobreviver à própria música.
Talvez seja exatamente isso que torne o Deftones tão difícil de copiar.
Calor, desconforto e desejo
Sempre achei curioso como esse álbum soa quente.
Não no sentido de verão ou praia. Quente como um quarto sem ventilação. Como um carro parado no sol. Como uma conversa que ficou desconfortável e ninguém sabe exatamente como sair dela.
My Own Summer (Shove It) nunca me passou a sensação de liberdade. Pelo contrário. Ela soa como alguém sufocado pelo mundo inteiro, querendo apenas que tudo se afaste por alguns minutos.
Já Be Quiet and Drive talvez seja uma das músicas mais bonitas que o Deftones já escreveu justamente porque ela nunca explica para onde está indo.
Ela entende uma sensação muito específica: às vezes você não quer chegar em lugar nenhum. Você só precisa deixar o lugar onde está.
Antes do White Pony
É impossível ouvir Around the Fur hoje sem perceber quantas ideias floresceriam completamente em White Pony.
O lado atmosférico já está aqui. A obsessão por dinâmica também. A mistura entre brutalidade e delicadeza aparece em praticamente todas as faixas, ainda que de forma mais crua.
Se White Pony seria o momento em que o Deftones encontrou sua identidade definitiva, Around the Fur é o instante em que essa identidade começa a aparecer entre rachaduras.
E talvez justamente por ainda estar em transformação ele continue soando tão vivo.
O álbum que cresceu comigo
Talvez seja impossível para mim separar este disco da minha própria história.
Ele esteve presente em viagens, relacionamentos, mudanças de cidade, noites dirigindo sem destino e momentos em que eu simplesmente precisava colocar um fone de ouvido e desaparecer do mundo por alguns minutos.
Algumas bandas fazem parte da nossa playlist.
Outras acabam fazendo parte da nossa personalidade.
O Deftones foi uma dessas bandas para mim.
Around the Fur continua sendo um dos poucos álbuns que consigo ouvir do começo ao fim sem sentir vontade de pular uma única faixa.
Quase trinta anos depois, ele ainda não soa preso aos anos 90. Continua estranho, sensual, pesado, vulnerável e surpreendentemente moderno.
Existem discos que definem uma época.
Around the Fur acabou definindo pessoas.