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ATLiens

Artista: Outkast

Ano de lançamento: 1996

Cover of ATLiens by Outkast

Alguns álbuns envelhecem porque representam perfeitamente a época em que foram lançados. Outros envelhecem porque pareciam vir do futuro desde o primeiro dia. ATLiens pertence completamente ao segundo grupo.

Ouvindo hoje, quase trinta anos depois, é difícil acreditar que esse disco saiu em 1996. Enquanto boa parte do hip-hop da época estava preocupada em provar autenticidade através da violência, da ostentação ou das disputas entre costas dos Estados Unidos, o OutKast decidiu olhar para outro lugar.

Eles olharam para dentro.

ATLiens é um álbum sobre parecer estranho num mundo que insiste em dizer como você deveria ser.

Alienígenas em casa

O próprio título já resume boa parte da proposta. "ATLiens" mistura Atlanta com aliens, como se André 3000 e Big Boi estivessem dizendo que, mesmo dentro da própria cidade, ainda se sentiam deslocados.

Essa sensação aparece o tempo inteiro. O álbum não fala apenas sobre pobreza, sucesso ou criminalidade. Ele fala sobre identidade. Sobre crescer em um lugar enquanto sente que nunca pertence completamente a ele.

Existe uma solidão curiosa atravessando praticamente todas as músicas. Mesmo quando as batidas são pesadas, elas parecem carregar uma melancolia silenciosa por baixo.

O hip-hop encontrou o espaço

O que mais me impressiona em ATLiens é a produção. Organized Noize já era um grupo brilhante, mas aqui tudo parece respirar diferente.

Os beats deixam espaço para o silêncio. Os sintetizadores soam frios, quase cósmicos. Existem momentos em que o álbum parece mais próximo da ficção científica do que do gangsta rap que dominava aquela década.

Em vez de tentar parecer maior, mais alto ou mais agressivo, o disco parece confortável em permanecer estranho.

E talvez seja exatamente isso que faça ele soar tão moderno até hoje.

Enquanto muita gente tentava soar poderosa, o OutKast parecia interessado em soar diferente.

André 3000 e Big Boi

Uma das maiores forças do OutKast sempre foi o contraste entre seus dois integrantes.

Big Boi mantém um pé firme na realidade. Seus versos são diretos, técnicos e profundamente ligados à vida cotidiana do sul dos Estados Unidos.

André 3000 parece estar constantemente tentando escapar dela.

Mesmo quando fala sobre os mesmos assuntos, existe uma inquietação filosófica que começa a aparecer aqui e que mais tarde explodiria completamente em Aquemini e Stankonia.

Eles não competem um com o outro. Eles funcionam como duas perspectivas diferentes olhando para o mesmo mundo.

Atlanta antes de dominar o rap

Hoje é praticamente impossível imaginar o hip-hop sem Atlanta. Grande parte do que domina o gênero nasceu ali.

Mas quando ATLiens foi lançado, a cidade ainda precisava convencer o restante da indústria de que existia algo importante acontecendo fora de Nova York e Los Angeles.

O OutKast ajudou a mudar isso.

Não apenas porque fazia boa música, mas porque recusava a ideia de copiar o som das costas para ser levado a sério. Eles construíram uma identidade própria quando ainda era muito mais fácil simplesmente seguir o mercado.

Em vez de tentar parecer com alguém, o OutKast decidiu criar um lugar completamente novo dentro do hip-hop.

Elevators continua sendo perfeita

Se eu tivesse que escolher uma única música para explicar por que esse álbum continua tão relevante, provavelmente seria Elevators (Me & You).

Existe uma tranquilidade naquela faixa que continua difícil de encontrar em qualquer outro disco da época. Ela não tenta impressionar pela velocidade nem pela agressividade. Parece uma conversa.

Quanto mais você escuta, mais percebe detalhes pequenos na produção, na forma como os versos entram e na quantidade de espaço que a música permite entre uma ideia e outra.

É uma faixa que nunca parece envelhecer porque nunca dependeu de tendências para funcionar.

Um disco sobre amadurecer

Apesar de toda a estética espacial, ATLiens me parece um álbum profundamente humano.

Ele fala sobre amizade, fama, dinheiro, responsabilidade, espiritualidade e insegurança sem transformar nenhuma dessas coisas em respostas prontas.

Talvez seja justamente isso que torne o disco tão interessante. Ele nunca tenta parecer mais inteligente do que realmente é, mas também nunca simplifica sentimentos complexos.

Existe maturidade sem cinismo.

Existe vulnerabilidade sem autopiedade.

O futuro continua chegando

Hoje muita gente chama ATLiens de clássico, e com razão. Mas acho curioso que ele ainda consiga soar surpreendente para quem o escuta pela primeira vez.

Não porque seja difícil de entender, mas porque continua parecendo deslocado no tempo. É um daqueles discos que nunca envelheceram completamente porque sua principal característica era justamente não soar igual ao restante.

Alguns álbuns registram o presente. ATLiens passou a carreira inteira antecipando o futuro.

Talvez seja por isso que ele continue tão relevante. Não importa quantos anos passem, ainda existe alguma coisa nesse disco que parece estar alguns passos à frente de todo mundo.

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