
Existem filmes que envelhecem porque se tornam retratos de uma época.
Beetlejuice faz exatamente o contrário. Quase quarenta anos depois, ele continua parecendo uma ideia estranha que alguém teve ontem e, por algum milagre, conseguiu convencer um estúdio a financiar.
É difícil imaginar um filme assim sendo aprovado hoje. Não porque seja ofensivo ou controverso, mas porque ele simplesmente não tenta explicar suas próprias regras. O mundo de Beetlejuice funciona como um sonho: quanto mais você tenta encontrar lógica, mais percebe que ela nunca foi importante.
O verdadeiro protagonista de Beetlejuice não é o fantasma. É a imaginação.
Antes de Tim Burton virar "Tim Burton"
Hoje é impossível olhar para o filme sem reconhecer imediatamente a identidade visual de Tim Burton. Personagens excêntricos, arquitetura distorcida, humor macabro, maquiagem exagerada, stop motion e aquele equilíbrio muito particular entre o assustador e o infantil.
Mas existe algo fascinante em assistir Beetlejuice sabendo que boa parte desses elementos ainda estava sendo construída. O filme não parece a reprodução de uma fórmula de sucesso. Pelo contrário, ele transmite a sensação de um diretor experimentando ideias sem saber exatamente quais delas definiriam toda a sua carreira dali para frente.
Existe uma liberdade criativa que talvez tenha desaparecido conforme Burton foi se tornando uma marca. Aqui, tudo parece imprevisível.
O além como uma repartição pública
Uma das ideias mais engraçadas do filme continua sendo a maneira como ele representa a morte.
Em vez de criar um universo espiritual grandioso ou misterioso, Burton transforma o pós-vida em uma repartição pública cheia de burocracia, filas, formulários e funcionários cansados.
É uma sátira tão simples quanto brilhante. Até morrer parece envolver papelada.
Essa escolha torna tudo muito mais divertido porque aproxima o sobrenatural da experiência cotidiana. O horror nunca vem de monstros particularmente assustadores. Ele vem da possibilidade de que nem a morte consiga livrar você da burocracia.
Poucos filmes conseguem transformar o além em um cartório e fazer isso funcionar tão bem.
Beetlejuice aparece menos do que parece
É curioso como muita gente lembra de Beetlejuice como se ele fosse o centro absoluto da história.
Na prática, o personagem aparece relativamente pouco. E talvez seja exatamente isso que o torne tão memorável.
Michael Keaton entra em cena como uma força completamente caótica. Ele fala rápido, mente, manipula, quebra qualquer expectativa de comportamento e parece existir apenas para transformar situações já absurdas em algo ainda mais imprevisível.
Se ele estivesse presente durante o filme inteiro, provavelmente perderia parte do impacto. Burton entende perfeitamente o valor da ausência.
Lydia continua sendo a alma do filme
Revendo Beetlejuice adulta, percebi que Lydia é muito mais importante para o filme do que eu lembrava quando era criança.
Ela não é apenas "a garota gótica". Ela representa alguém deslocada dentro da própria família, cercada por adultos que parecem completamente incapazes de enxergar o mundo da mesma maneira que ela.
Talvez seja por isso que sua amizade com Adam e Barbara funcione tão bem. Pela primeira vez, ela encontra pessoas que realmente a escutam, mesmo que estejam mortas.
Existe algo muito bonito nessa inversão. Os vivos são emocionalmente inacessíveis. Os fantasmas, não.
Efeitos especiais que escolheram envelhecer
Os efeitos especiais obviamente denunciam a época em que o filme foi produzido. Stop motion, maquiagem prática, miniaturas e efeitos ópticos estão por toda parte.
Mas, curiosamente, isso nunca me incomodou.
Acho que existe uma diferença importante entre um efeito parecer real e um efeito parecer interessante. Beetlejuice nunca tentou competir com a realidade. Ele constrói uma estética própria, quase artesanal, que continua charmosa justamente porque assume seu caráter artificial.
Hoje, quando tantos filmes dependem de CGI tentando convencer o público de que tudo é real, existe algo refrescante em assistir uma obra que claramente prefere criatividade à perfeição técnica.
Os efeitos envelheceram. A criatividade não.
Uma bagunça extremamente organizada
Existe uma sensação constante de caos em Beetlejuice, mas é um caos cuidadosamente planejado. Cada cenário, cada figurino e cada criatura parecem obedecer à mesma lógica absurda.
O filme nunca perde tempo explicando por que alguma coisa existe. Ela simplesmente existe. E o espectador aprende rapidamente que aceitar essa regra torna tudo muito mais divertido do que tentar racionalizar cada detalhe.
Isso exige uma confiança enorme no público. Burton assume que você está disposto a embarcar naquela maluquice sem precisar de um manual de instruções.
O tipo de filme que dificilmente existiria hoje
Sempre que revejo Beetlejuice, fico pensando em como a indústria mudou.
Hoje, boa parte das grandes produções parece preocupada em construir universos perfeitamente explicados, franquias planejadas para vários filmes e personagens preparados para futuros spin-offs.
Beetlejuice não parece interessado em nada disso. Ele só quer ser uma história estranha, engraçada e visualmente inesquecível durante pouco mais de uma hora e meia.
Talvez justamente por não tentar se transformar em um universo gigantesco, ele tenha conseguido permanecer tão único.
Algumas ideias são boas justamente porque ninguém tentou transformá-las em um plano de negócios.
Beetlejuice continua sendo um dos filmes mais criativos já produzidos por um grande estúdio. Não porque seja perfeito, mas porque parece completamente convencido de que a imaginação é mais importante do que a coerência absoluta.
E, sinceramente, eu ainda prefiro filmes que escolhem ser inesquecíveis a filmes que escolhem apenas fazer sentido.