MOVIES

Bram Stoker’s Dracula

Diretor: Francis Ford Coppola

Ano de lançamento: 1992

Poster for Bram Stoker’s Dracula

Existem adaptações que tentam ser fiéis ao livro.

E existem adaptações que entendem que ser fiel não significa reproduzir cada capítulo, mas preservar aquilo que faz a obra continuar viva.

Bram Stoker's Dracula, de Francis Ford Coppola, faz exatamente isso.

Embora altere partes importantes da história original, principalmente ao transformar Dracula em um personagem movido por um amor perdido, o filme consegue preservar algo que muitas adaptações esquecem: Dracula nunca foi apenas um monstro. Sempre foi um romance sobre desejo, medo, obsessão e o fascínio que existe em atravessar limites morais.

Coppola não adapta apenas o livro. Ele adapta toda a tradição gótica que nasceu ao redor dele.

O último grande filme gótico

É curioso assistir Bram Stoker's Dracula hoje porque ele parece pertencer a outra época do cinema. Não apenas porque foi lançado em 1992, mas porque ainda acredita que efeitos práticos podem ser mais interessantes do que realismo digital.

Quase tudo foi construído diante da câmera. Sombras, projeções, miniaturas, maquiagem, sobreposições, espelhos, fumaça e truques ópticos criam um mundo que parece constantemente preso entre sonho e pesadelo.

Em muitos momentos, o filme parece uma peça de teatro gigantesca filmada por alguém completamente apaixonado pela história do cinema.

E isso faz toda a diferença.

Em vez de tentar convencer o público de que aquilo é real, Coppola faz exatamente o contrário: lembra o tempo inteiro que estamos observando uma fantasia cuidadosamente construída.

Dracula como tragédia

A maior mudança em relação ao livro talvez seja também a mais controversa. No romance de Bram Stoker, Dracula representa muito mais uma força da natureza do que um herói trágico. Já no filme, ele ganha uma motivação romântica que muda completamente a forma como enxergamos suas ações.

Alguns leitores não gostam dessa decisão porque ela suaviza parte do horror original.

Eu gosto justamente porque ela não transforma Dracula em um bom homem. Apenas o transforma em alguém profundamente humano.

Ele continua manipulador, cruel e monstruoso. Mas agora existe uma perda gigantesca por trás de tudo aquilo. O horror deixa de nascer apenas do sobrenatural e passa a nascer também da incapacidade de abandonar o passado.

O verdadeiro castelo onde Dracula vive não é de pedra. É a memória.

Desejo, religião e culpa

Uma das coisas que mais gosto nesse filme é como ele transforma praticamente todas as cenas em um conflito entre repressão e desejo.

Quase ninguém age completamente por vontade própria. Os personagens vivem presos entre aquilo que desejam e aquilo que acreditam que deveriam desejar.

Mina ama Jonathan, mas sente uma atração impossível de ignorar por Dracula. Lucy representa uma liberdade sexual que a sociedade vitoriana tenta controlar desesperadamente. Van Helsing combate o mal utilizando símbolos religiosos, mas também demonstra uma curiosidade quase científica diante daquilo que deveria apenas destruir.

O filme entende que o horror sempre caminhou muito próximo do desejo. Quanto mais proibida uma coisa parece, maior passa a ser sua capacidade de sedução.

A beleza do exagero

Existem momentos em que Bram Stoker's Dracula parece exagerado em absolutamente tudo.

Figurinos gigantescos. Cores saturadas. Cenários teatrais. Atuações quase operísticas. Música dramática. Sangue. Veludo. Ouro. Vermelho.

Mas esse excesso nunca me incomodou.

Pelo contrário. Acho que ele faz parte da identidade do filme. Coppola entende que o horror gótico sempre trabalhou melhor quando abraça o melodrama em vez de fugir dele.

Quase tudo parece grande demais porque os sentimentos dos personagens também são grandes demais.

É um filme que nunca pede desculpas por ser bonito.

Uma adaptação imperfeita — e justamente por isso interessante

Se alguém procura uma adaptação absolutamente fiel ao romance de Bram Stoker, provavelmente sairá frustrado.

O filme altera personagens, muda relações, adiciona motivações e romantiza elementos que originalmente eram muito mais ambíguos.

Mas fidelidade nunca foi, para mim, o critério mais importante de uma adaptação.

O importante é entender o espírito da obra.

E nisso Coppola acerta de maneira impressionante. O filme continua falando sobre obsessão, morte, desejo, religião, culpa e imortalidade. Apenas escolhe uma linguagem diferente para fazer isso.

Depois de mais de trinta anos

Hoje, quando tantos filmes de terror parecem buscar realismo absoluto ou depender de efeitos digitais cada vez mais sofisticados, Bram Stoker's Dracula continua parecendo único.

Não porque envelheceu perfeitamente. Algumas atuações continuam dividindo opiniões e certas escolhas narrativas ainda parecem excessivas.

Mas justamente porque ele nunca tentou seguir uma tendência.

Coppola fez um filme apaixonado pela linguagem do cinema, pela literatura gótica e pelo exagero romântico. Em vez de esconder seus artifícios, decidiu transformá-los em parte da experiência.

Poucos filmes conseguem ser, ao mesmo tempo, tão elegantes, tão excessivos e tão profundamente melancólicos.

Mais de um século depois do romance de Bram Stoker e mais de três décadas depois desta adaptação, Dracula continua sobrevivendo pelo mesmo motivo de sempre.

Não porque seja um vampiro.

Mas porque algumas histórias encontram maneiras diferentes de permanecer vivas cada vez que alguém decide contá-las novamente.

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