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Caliban and the Witch

Autor: Silvia Federici

Cover of Caliban and the Witch by Silvia Federici

Caliban and the Witch é um daqueles livros que reorganizam coisas que você já sabia, mas nunca tinha visto colocadas lado a lado.

Eu já entendia que o capitalismo não surgiu de forma neutra, quase espontaneamente, porque algumas pessoas começaram a trabalhar mais, poupar dinheiro e construir empresas. Também já entendia que a exploração das mulheres, a colonização, a escravidão e a destruição de formas comunitárias de vida estavam conectadas à formação do mundo moderno.

Mas Silvia Federici junta essas peças de um jeito muito mais brutal:

O capitalismo não precisou apenas criar uma nova forma de trabalho. Ele precisou criar um novo tipo de corpo, de família, de mulher e de disciplina social.

E é isso que torna o livro tão interessante.


A história do capitalismo também é uma história sobre corpos

A versão mais popular da origem do capitalismo costuma parecer quase administrativa. O feudalismo foi acabando, o comércio cresceu, as cidades se desenvolveram, surgiu o trabalho assalariado e, em algum momento, chegamos ao sistema econômico atual.

Só que essa narrativa limpa esconde a violência necessária para transformar pessoas em trabalhadores dependentes de salário.

Federici mostra que a chamada acumulação primitiva não foi apenas o acúmulo inicial de dinheiro ou propriedade nas mãos de algumas pessoas. Ela também envolveu a expulsão de camponeses de terras comunitárias, a destruição de formas coletivas de subsistência, a colonização, a escravidão e a imposição de novas regras sobre a reprodução e o corpo das mulheres.

As pessoas precisavam perder a capacidade de sobreviver fora do mercado para serem obrigadas a vender seu trabalho.

Isso muda completamente a forma de pensar o surgimento do capitalismo. Ele não aparece apenas como uma transformação econômica. Ele aparece como um projeto de reorganização da vida inteira.

A caça às bruxas não foi uma histeria isolada

A parte mais conhecida do livro é a análise das caças às bruxas.

Normalmente, esse período é tratado como uma espécie de surto coletivo de superstição: pessoas ignorantes, dominadas pela religião e pelo medo, começaram a perseguir mulheres acusadas de fazer magia.

Federici não ignora o papel da religião ou das crenças da época, mas propõe que essa perseguição também cumpriu uma função política e econômica.

As mulheres perseguidas frequentemente ocupavam posições que se tornaram ameaçadoras para a nova ordem social: parteiras, curandeiras, mulheres pobres, mulheres idosas, mulheres que viviam sozinhas, mulheres que conheciam métodos contraceptivos ou que simplesmente não correspondiam ao modelo de feminilidade que estava sendo imposto.

A bruxa era, muitas vezes, a mulher que não podia ser facilmente incorporada à nova disciplina do trabalho, da família e da reprodução.

Isso não significa que cada julgamento tenha sido organizado conscientemente por alguém pensando em construir o capitalismo. A história raramente funciona com um grupo de vilões reunido numa sala planejando os próximos séculos.

Mas instituições, leis, crenças e interesses materiais podem caminhar na mesma direção sem precisar de uma conspiração centralizada.

E o resultado foi a criminalização de conhecimentos, comportamentos e formas de autonomia feminina que dificultavam o controle sobre a reprodução e sobre o trabalho.


O trabalho que sustenta tudo, mas quase nunca é chamado de trabalho

Uma das ideias mais importantes do livro é que o capitalismo depende de uma quantidade enorme de trabalho que não aparece como trabalho.

Cozinhar, limpar, criar filhos, cuidar de pessoas doentes, manter uma casa funcionando, dar suporte emocional, garantir que alguém esteja vivo, alimentado e minimamente funcional para voltar ao trabalho no dia seguinte.

Tudo isso produz e reproduz a força de trabalho. Sem esse cuidado, não existe trabalhador disponível para ser explorado pelo mercado.

Mas, quando essas tarefas foram associadas à natureza feminina, deixaram de parecer trabalho e passaram a ser tratadas como obrigação, instinto ou demonstração de amor.

O sistema não eliminou o trabalho das mulheres. Ele apenas tornou uma parte enorme desse trabalho invisível, não remunerada e aparentemente natural.

Essa discussão continua assustadoramente atual.

Até hoje, muitas mulheres trabalham fora, recebem salário e ainda são consideradas as principais responsáveis pela casa, pelos filhos, pelas consultas médicas, pelas datas, pelas compras, pelos parentes e por todo o trabalho mental necessário para impedir que a vida doméstica desmorone.

A mulher entra no mercado de trabalho, mas o trabalho doméstico não desaparece. Ele apenas se empilha.

Quando o controle da reprodução vira uma política econômica

O livro também mostra como o controle sobre a sexualidade e a reprodução das mulheres não pode ser separado das necessidades econômicas de uma sociedade.

Quando um sistema depende da existência contínua de trabalhadores, o nascimento, o cuidado e a sobrevivência das próximas gerações deixam de ser questões puramente privadas.

O corpo feminino passa a ser tratado como recurso social.

Isso ajuda a entender por que temas como contracepção, aborto, maternidade e sexualidade provocam disputas políticas tão intensas até hoje. Não é apenas uma questão de moralidade individual.

Existe uma disputa sobre quem controla a reprodução, quem define o que uma mulher pode fazer com o próprio corpo e quem vai realizar o trabalho necessário para sustentar a sociedade.

E acho impossível ler essa parte sem pensar no presente.

Mesmo em sociedades que se consideram modernas, ainda existe uma expectativa constante de que mulheres assumam o custo físico, emocional e econômico da reprodução enquanto decisões sobre seus corpos são tomadas por governos, igrejas, empregadores e homens que jamais precisarão arcar com as mesmas consequências.


A violência não desapareceu. Ela só aprendeu novas linguagens

Uma coisa que me marcou no livro é como a violência pode mudar de forma sem perder sua função.

Hoje, em muitos lugares, não existe uma caça às bruxas oficialmente reconhecida como política de Estado. Mas ainda existem mecanismos para punir mulheres que fogem do comportamento esperado.

A mulher sexualmente livre, a mulher que não quer ter filhos, a mulher pobre, a mulher que envelhece, a mulher que fala demais, a mulher que não serve, a mulher que não cuida, a mulher que não perdoa, a mulher que não demonstra gratidão.

Talvez ela não seja levada para uma fogueira, mas pode ser humilhada, descredibilizada, assediada, perseguida, criminalizada ou transformada em uma caricatura pública.

As ferramentas mudam. A lógica de disciplinar quem ameaça uma determinada ordem pode continuar bastante familiar.

O que o livro acerta e onde ele exige cuidado

Caliban and the Witch é um livro muito ambicioso. Ele conecta séculos de transformações econômicas, violência de gênero, religião, colonização, trabalho e reprodução.

Essa ambição é justamente sua força, mas também exige leitura crítica.

Nem toda relação histórica apresentada no livro deve ser tratada como uma fórmula simples de causa e efeito. A caça às bruxas aconteceu de formas diferentes em regiões distintas, e debates históricos sobre sua escala, suas motivações e sua relação direta com a formação do capitalismo são mais complexos do que uma única interpretação consegue encerrar.

Eu não acho que isso invalide o livro.

Na verdade, acho que o valor dele está menos em oferecer uma explicação definitiva para cada evento e mais em obrigar a gente a fazer perguntas que geralmente são removidas das narrativas tradicionais.

Quem teve que perder autonomia para que o novo sistema funcionasse? Quem realizou o trabalho invisível? Quais formas de vida precisaram ser destruídas? E por que algumas dessas violências foram apresentadas como progresso?


Caliban, a bruxa e as pessoas consideradas descartáveis

O título do livro junta duas figuras simbólicas.

Caliban, personagem de A Tempestade, representa o sujeito colonizado, considerado selvagem e inferior por aqueles que tomam sua terra e exigem seu trabalho.

A bruxa representa a mulher perseguida, disciplinada e transformada em ameaça.

Os dois ocupam lugares diferentes, mas compartilham algo importante: são figuras construídas como irracionais, perigosas e menos humanas para que a violência contra elas pareça justificável.

Esse mecanismo continua sendo usado o tempo inteiro.

Antes de explorar, prender, deportar, esterilizar, colonizar ou abandonar um grupo, é conveniente descrevê-lo como atrasado, preguiçoso, violento, ignorante, promíscuo ou incapaz de cuidar de si mesmo.

A desumanização não é um efeito colateral da exploração. Muitas vezes, ela é parte da infraestrutura.

Por que esse livro ficou comigo

Eu gostei de Caliban and the Witch porque ele se recusa a contar a história do capitalismo apenas por meio de reis, comerciantes, fábricas, invenções e grandes pensadores.

Ele olha para as pessoas que aparecem como nota de rodapé, quando aparecem.

Mulheres pobres. Camponeses expulsos. Pessoas escravizadas. Povos colonizados. Parteiras. Curandeiras. Trabalhadores sem terra. Pessoas cujos conhecimentos foram destruídos ou apropriados.

O livro mostra que o mundo moderno não foi construído apenas por aquilo que inventou. Ele também foi construído por aquilo que precisou quebrar.

E talvez seja isso que eu tenha achado mais poderoso na leitura.

Muita gente fala do capitalismo como se ele fosse simplesmente o resultado natural da evolução humana, quase como se todos os caminhos históricos inevitavelmente levassem até aqui.

Federici mostra que não.

Outras formas de viver existiam. Outras relações com o trabalho, a terra, o cuidado e a comunidade existiam. Elas não desapareceram porque eram naturalmente inferiores. Muitas foram ativamente destruídas.

O capitalismo não venceu apenas porque era mais eficiente. Ele também venceu porque pessoas foram expulsas, disciplinadas, perseguidas e obrigadas a depender dele.

Caliban and the Witch não é uma leitura leve, nem um livro com o qual eu concordaria de maneira automática em cada detalhe. Mas é o tipo de livro que muda as perguntas que você faz depois.

E, para mim, isso vale muito.

Depois dele, fica mais difícil olhar para trabalho doméstico, maternidade, controle reprodutivo, pobreza, colonização e violência contra mulheres como problemas separados.

E fica ainda mais difícil acreditar que sistemas econômicos existem apenas em planilhas, bolsas de valores ou decisões empresariais.

Eles existem nos corpos.

Especialmente nos corpos que foram ensinados a trabalhar, cuidar, obedecer e sofrer sem chamar nada disso de exploração.

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