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Crash Love

Artista: AFI

Ano de lançamento: 2009

Cover of Crash Love by AFI

Existem álbuns que parecem feitos para conquistar um público novo. Outros parecem existir apenas porque a banda precisava seguir em frente, mesmo sabendo que muita gente ficaria pelo caminho.

Crash Love sempre me pareceu exatamente isso: um disco sobre mudança. Não apenas musicalmente, mas sobre aceitar que crescer significa inevitavelmente decepcionar quem queria que você permanecesse a mesma pessoa para sempre.

Às vezes, amadurecer não significa abandonar quem você era. Significa apenas parar de pedir desculpas por continuar mudando.

O álbum que ninguém queria ouvir

Quando Crash Love foi lançado em 2009, a reação de muita gente foi estranha. Parecia que parte do público já tinha decidido, antes mesmo de ouvir, que qualquer coisa diferente de Sing the Sorrow ou Decemberunderground seria automaticamente uma decepção.

E eu nunca consegui entender completamente isso.

Talvez porque eu sempre tenha enxergado o AFI como uma banda em constante transformação. Desde os discos hardcore dos anos 90 até os trabalhos mais sombrios dos anos 2000, nunca existiu uma única versão definitiva do AFI.

Esperar que eles permanecessem fazendo exatamente o mesmo álbum para sempre seria ignorar justamente a característica que tornou a banda interessante desde o começo.

Menos escuridão, mais luz

Comparado aos dois discos anteriores, Crash Love parece respirar mais. As guitarras continuam enormes, mas existe espaço entre elas. A produção deixa de parecer sufocante e passa a privilegiar melodias muito mais claras.

Jade Puget continua criando camadas extremamente cuidadosas de guitarra, mas agora elas parecem menos interessadas em construir tensão permanente e mais preocupadas em servir às músicas.

Hunter Burgan e Adam Carson continuam fazendo aquilo que quase sempre passa despercebido em discussões sobre o AFI: criar uma base absurdamente sólida que permite que todo o restante aconteça.

E Davey Havok...

Davey canta de uma forma muito diferente aqui. Existe menos teatralidade gótica e muito mais vulnerabilidade. Não parece alguém escondido atrás de personagens ou metáforas o tempo inteiro. Pela primeira vez, tenho a impressão de estar ouvindo alguém confortável em simplesmente escrever sobre si mesmo.

Crash Love talvez seja o disco mais honesto que o AFI já lançou.

Um álbum sobre recomeços

O próprio título já sugere essa ideia. Um amor que colide. Um impacto que destrói alguma coisa, mas também cria espaço para outra.

Ao longo do disco, a sensação é de alguém tentando reorganizar a própria identidade depois que muitas certezas deixaram de existir.

Não existe o romantismo exagerado de Sing the Sorrow, nem o caos quase claustrofóbico de Decemberunderground. Existe uma tentativa constante de reconstrução.

Não por acaso, músicas como Beautiful Thieves, End Transmission e Torch Song parecem muito menos interessadas em impressionar do que em comunicar alguma coisa.

Uma carta de amor ao rock alternativo

Talvez o aspecto mais curioso de Crash Love seja que ele não tenta acompanhar nenhuma tendência de 2009.

Enquanto boa parte do rock alternativo daquela época buscava soar cada vez maior ou mais pesado, o AFI parece olhar para trás. Há muito de pós-punk, new wave e rock alternativo dos anos 80 e 90 espalhado pelo álbum.

Isso fez muita gente chamá-lo de "menos pesado". Para mim, ele apenas passou a usar outras ferramentas.

Peso nem sempre vem de distorção. Às vezes, ele aparece numa melodia que continua voltando dias depois que o disco terminou.

Beautiful Thieves

Se eu tivesse que escolher uma música para resumir esse álbum, provavelmente seria Beautiful Thieves.

Ela reúne praticamente tudo que torna Crash Love especial: refrão enorme, guitarras elegantes, bateria precisa e uma sensação constante de movimento.

É uma música que poderia facilmente soar excessivamente grandiosa nas mãos de outra banda. No AFI, ela parece natural.

Talvez porque exista sempre um pequeno desconforto escondido atrás da beleza.

O AFI nunca escreveu músicas completamente felizes. Mesmo quando a luz aparece, ela continua projetando sombras.

Envelheceu melhor do que muita gente esperava

Eu tenho a impressão de que Crash Love foi um álbum que precisou de tempo.

Quando saiu, muita gente o comparava apenas com os discos anteriores. Hoje, ouvindo com distância, fica muito mais fácil enxergar o quanto ele possui personalidade própria.

Ele não tenta repetir o sucesso de Miss Murder. Não tenta reconstruir Sing the Sorrow. Também não parece preocupado em provar que continua sendo pesado o suficiente para agradar uma cena específica.

Existe uma tranquilidade muito rara em uma banda que simplesmente aceita continuar evoluindo, mesmo sabendo que parte do público ficará pelo caminho.

Meu disco favorito do AFI

Eu entendo perfeitamente por que tantas pessoas colocam Sing the Sorrow como o melhor álbum do AFI. Ele provavelmente continuará sendo o disco mais importante da carreira deles.

Mas, para mim, Crash Love continua ocupando um lugar especial.

Talvez porque tenha chegado numa fase da minha vida em que eu também estava mudando muito. Talvez porque ele nunca tenha tentado agradar ninguém além da própria banda. Ou talvez simplesmente porque eu ache que essas músicas envelheceram de uma maneira incrivelmente elegante.

É um daqueles discos que eu continuo voltando anos depois e que, em vez de perder força, parece ganhar novas interpretações conforme eu também mudo.

Crash Love não é o álbum que consolidou o AFI. É o álbum que mostrou que eles tinham coragem de continuar sendo eles mesmos depois disso.

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