
Frankenstein me pegou muito mais pela ideia de abandono do que pela ideia de monstruosidade.
A gente cresce conhecendo essa história de forma completamente distorcida, como se Frankenstein fosse simplesmente um cientista maluco que criou um monstro verde, enorme, burro e com parafusos no pescoço. Só que o livro não é exatamente sobre isso.
Na verdade, Frankenstein é o nome do criador, Victor Frankenstein, e a criatura nem sequer recebe um nome. E isso, por si só, já diz muita coisa.
Dar um nome é reconhecer que alguém existe. Victor cria vida, mas se recusa a reconhecer sua criação como alguém.
O abandono começa no nascimento
Victor passa tanto tempo obcecado pela possibilidade de criar vida que nunca para para pensar no que faria depois que conseguisse. Ele quer provar que é capaz, quer ultrapassar os limites da ciência, quer alcançar alguma espécie de grandeza e ser lembrado como a pessoa que venceu a própria morte.
Mas ele não desenvolve nenhuma responsabilidade emocional, moral ou prática pelo que está criando. Enquanto a criatura ainda está sobre a mesa, ela é um projeto, um desafio científico, uma extensão da inteligência e da ambição dele. No segundo em que abre os olhos e passa a existir como um ser com necessidades próprias, Victor sente repulsa e foge.
E eu acho que essa é a parte mais cruel do livro.
Victor não tenta entender o que criou. Não tenta ensinar, acolher, alimentar ou descobrir se aquele ser sente fome, frio, dor ou medo. Ele olha para aquilo que passou meses construindo e decide que a aparência é suficiente para apagar toda a responsabilidade que tinha.
Ele queria o poder de criar vida, mas não queria lidar com a vida depois que ela existisse. Queria ser Deus durante o experimento e um estranho depois do nascimento.
Ela aprende a ser humana sozinha
A criatura nasce completamente sozinha, sem entender o mundo, sem linguagem, sem referências e sem ninguém que explique o que está acontecendo. Ela aprende através da observação, quase como uma criança obrigada a crescer sem qualquer forma de cuidado.
Primeiro, aprende sobre sensações básicas: fome, frio, fogo, luz e abrigo. Depois, observando a família De Lacey, começa a compreender linguagem, afeto, família, generosidade e pertencimento.
E é justamente aí que sua consciência se transforma em tortura. Antes, ela apenas sentia solidão. Depois, passa a entender exatamente o que está faltando.
Quanto mais humana ela se torna, mais doloroso fica perceber que ninguém a considera humana.
A criatura aprende a falar porque acredita que a linguagem poderá aproximá-la das pessoas. Ela pensa que, se conseguir explicar quem é, talvez alguém enxergue além da aparência.
Isso me marcou muito porque, no começo, ela não quer dominar ninguém, não quer destruir o mundo e nem está buscando vingança. Ela quer apenas ser ouvida. Mas o livro mostra repetidamente que, para algumas pessoas, nenhuma explicação é suficiente quando o preconceito aparece antes da fala.
O monstro aparece antes dos crimes
É muito fácil olhar para o que a criatura faz depois e dizer que ela virou um monstro. Ela mata, ameaça, manipula e usa pessoas inocentes para atingir Victor. O sofrimento dela não apaga a gravidade dessas escolhas.
Ela é responsável pelas crueldades que comete. O sofrimento explica muita coisa, mas não transforma violência em justiça.
Ao mesmo tempo, o livro constantemente obriga a gente a perguntar quem criou essa monstruosidade de verdade: a pessoa que nasceu diferente ou a sociedade que respondeu a ela apenas com medo, violência e rejeição?
A criatura não é rejeitada depois de provar que é perigosa. Ela é rejeitada antes.
Victor abandona primeiro. As pessoas atacam primeiro. A família que ela observa reage à aparência antes de escutar sua história. A violência chega antes da oportunidade de escolha.
Isso não significa que ela não poderia ter escolhido outro caminho. Mas significa que o caminho para se tornar algo diferente foi fechado várias vezes. Ela tenta bondade, aprendizado, aproximação e diálogo. Em troca, recebe medo.
Depois de certo ponto, decide que, se nunca será amada, será temida. Essa decisão é terrível, mas também é uma das coisas mais trágicas do livro. A criatura começa querendo entrar no mundo e termina querendo puni-lo.
Culpa não é responsabilidade
Victor passa o livro inteiro tentando se colocar como vítima de uma situação que ele mesmo criou. Ele abandona a criatura, se recusa a assumir responsabilidade e depois parece indignado porque as consequências continuam perseguindo a vida dele.
O que mais me irrita nele é que existe uma diferença enorme entre sentir culpa e assumir responsabilidade. Victor sente culpa o tempo inteiro. Ele sofre, desmaia, adoece, viaja para paisagens dramáticas e reflete longamente sobre a própria desgraça.
Mas quase nunca transforma essa culpa em alguma ação útil.
Victor sofre muito com as consequências, mas continua evitando fazer aquilo que poderia impedir que elas crescessem.
Ele sabe que a criatura está envolvida nas mortes. Sabe que Justine está sendo acusada injustamente. Mesmo assim, permanece em silêncio porque acredita que ninguém entenderia sua história ou porque revelar a verdade destruiria sua reputação.
Ele protege a própria imagem enquanto outras pessoas pagam pelo que fez. Mesmo quando reconhece que causou uma tragédia, continua contando a história como se o maior horror fosse aquilo ter acontecido com ele.
O problema nunca foi a ciência
Eu acho interessante como Frankenstein também funciona como uma crítica à arrogância humana diante da ciência.
Não no sentido simplista de que “a ciência foi longe demais”, porque eu não acho que esse seja o problema. O problema não é criar algo novo. O problema é criar sem ética, sem planejamento e sem considerar que aquilo terá existência própria.
É a diferença entre perguntar “eu consigo fazer isso?” e perguntar “o que acontece se eu fizer isso?”.
Victor está tão obcecado pela capacidade técnica que nunca desenvolve uma resposta moral. Ele se interessa pelo processo, não pelo resultado vivo.
Talvez por eu ter vindo da área de tecnologia, essa parte tenha ficado ainda mais evidente para mim. A gente vive cercado por pessoas e empresas criando sistemas, algoritmos e inteligências artificiais porque existe capacidade técnica e dinheiro para isso, mas frequentemente sem pensar nas consequências sociais, nos vieses, na exploração, na privacidade ou em quem vai ser prejudicado.
A tecnologia não surge espontaneamente e depois resolve se tornar perigosa. Sempre existe alguém tomando decisões, definindo prioridades, escolhendo quais riscos são aceitáveis e decidindo quem terá de lidar com as consequências.
Victor não perde o controle da criação porque ela se tornou misteriosamente maligna. Ele perde o controle porque nunca tentou construir uma relação responsável com aquilo que criou.
Isso lembra muito a forma como certos produtos tecnológicos são lançados. Primeiro existe a empolgação, a inovação e a promessa de mudar o mundo. Depois aparecem os danos, e os criadores agem como se as consequências fossem completamente imprevisíveis.
Como se ninguém pudesse imaginar que sistemas feitos sem cuidado reproduziriam preconceitos, explorariam trabalhadores, violariam privacidade ou seriam usados para controlar pessoas.
Victor Frankenstein seria perfeitamente capaz de lançar uma plataforma, dizer que estava “democratizando o futuro” e depois desaparecer quando os usuários começassem a ser prejudicados.
Criar não é cuidar
Também existe uma leitura muito forte sobre maternidade, paternidade e criação.
Mary Shelley escreveu Frankenstein numa época em que mulheres tinham pouquíssimo controle sobre a própria vida, o próprio corpo e a própria produção intelectual. Ela própria viveu perdas, gravidezes e mortes de filhos em um período em que a maternidade era extremamente perigosa.
Dentro desse contexto, Victor tenta criar vida sem uma mulher, sem gestação, sem cuidado, sem vínculo e sem comunidade. Ele deseja a capacidade de produzir vida, mas rejeita tudo aquilo que normalmente acompanha o nascimento de alguém.
Ele quer ser pai apenas no momento da conquista. Depois, ele não quer ser nada.
E eu acho que isso continua extremamente atual.
Existem muitas pessoas fascinadas pela ideia de construir, liderar, fundar, criar ou deixar algum legado, mas que desaparecem quando chega a parte menos glamourosa: cuidar, sustentar, corrigir erros, escutar reclamações e admitir responsabilidade.
Victor se apaixona pelo nascimento da ideia, mas despreza a manutenção da vida.
A única coisa que ela pede
Em determinado momento, a criatura pede que Victor crie uma companheira. Não porque queira construir um exército ou substituir a humanidade, mas porque quer alguém que não sinta repulsa ao vê-la.
Ela promete abandonar a sociedade humana e viver longe de todos. Quer um vínculo que não dependa da aceitação de pessoas que já decidiram odiá-la.
Victor aceita inicialmente, mas depois destrói a segunda criatura antes de concluí-la. Ele teme que ela seja ainda mais perigosa, que rejeite o primeiro monstro ou que os dois tenham filhos e criem uma nova espécie.
Esses medos não são completamente irracionais. O problema é que Victor volta a tomar uma decisão unilateral sobre a vida de seres que ele criou, sem assumir qualquer responsabilidade pelo resultado.
Victor não apenas nega amor à criatura. Ele destrói a única chance de pertencimento que ela consegue imaginar.
É nesse momento que a relação entre os dois deixa de ser apenas abandono e se transforma em guerra declarada. A criatura entende que Victor nunca permitirá que ela tenha uma vida e decide que Victor também não terá.
Quando a dor vira uma guerra particular
Uma das coisas mais frustrantes no livro é perceber como a guerra entre Victor e a criatura destrói principalmente pessoas que não tiveram participação alguma na criação do problema.
William morre. Justine é condenada. Clerval é assassinado. Elizabeth é morta. O pai de Victor adoece e morre consumido pelo sofrimento.
A criatura mata para atingir o criador. Victor persegue a criatura para vingar os mortos. E ninguém consegue interromper o ciclo porque ambos se enxergam como a vítima principal.
Victor e a criatura transformam outras pessoas em instrumentos de uma vingança que só existe entre os dois.
A criatura acredita que sua dor justifica a destruição da vida de Victor. Victor acredita que seu sofrimento justifica dedicar o restante da própria vida à perseguição.
Os dois passam a existir em função um do outro. É quase como se criador e criação fossem a mesma obsessão dividida em dois corpos.
Quem recebe o direito de ser humano?
O livro também me fez pensar sobre como a sociedade distribui humanidade de forma desigual.
A criatura é inteligente, sensível, capaz de aprender, refletir sobre moralidade e sentir amor, vergonha, raiva e arrependimento. Mesmo assim, é tratada como menos humana por causa da aparência.
Isso é uma lógica que aparece repetidamente na história. Antes de explorar, prender, colonizar, esterilizar, deportar ou abandonar um grupo, é conveniente descrevê-lo como menos racional, menos civilizado, mais violento ou naturalmente perigoso.
A criatura não recebe a chance de demonstrar humanidade porque sua aparência já foi usada para negar que ela possua alguma.
A aparência do monstro funciona como justificativa imediata para tudo o que fazem contra ele. Ninguém precisa conhecer sua história. Ninguém precisa perguntar o que aconteceu. O corpo já foi transformado em prova de culpa.
Isso torna o livro muito mais político do que a versão popular da história costuma sugerir. Não é apenas sobre um cientista e sua experiência. É também sobre quem tem o direito de ser reconhecido como pessoa.
Até que o monstro começa a falar
Uma das melhores partes do livro é quando a criatura finalmente narra sua própria experiência.
Até aquele momento, conhecemos o monstro através do medo de Victor. Ele é descrito como algo horrível, quase incompreensível. Quando ganha voz, porém, a história muda.
Ele continua assustador e capaz de violência, mas deixa de ser apenas uma imagem. Passa a ser sujeito.
Enquanto Victor narra, a criatura parece apenas perseguidora. Quando a criatura fala, Victor também aparece como alguém cruel, irresponsável e covarde.
Nenhuma das duas narrativas elimina a outra. O livro obriga a gente a conviver com versões conflitantes.
E isso deixa tudo muito mais interessante do que uma história simples sobre herói e vilão.
Os livros ensinam tudo o que o criador não ensinou
A criatura aprende sobre humanidade através dos livros que encontra. Essas leituras oferecem uma linguagem para compreender o mundo, mas também aumentam seu sofrimento.
Ela aprende conceitos como virtude, justiça, família, propriedade, poder e desigualdade. Descobre que os seres humanos são capazes de beleza e crueldade ao mesmo tempo.
Em especial, sua relação com Paradise Lost é importante. A criatura se enxerga tanto como Adão quanto como Satanás.
Como Adão, foi criada e abandonada por quem deveria amá-la. Como Satanás, observa a felicidade dos outros com ressentimento e decide se rebelar contra o criador.
Ela queria ser o primeiro homem de uma nova história, mas foi tratada como o demônio dela.
Essa comparação reforça a ideia de que Victor assume o papel de Deus apenas durante a criação e abandona todas as obrigações associadas a esse poder.
Não existe paisagem grande o bastante para esconder a culpa
O livro tem muitas descrições de paisagens, montanhas, gelo, tempestades e natureza. Em alguns momentos, parece que Victor passa metade da história caminhando dramaticamente por algum lugar enquanto pensa sobre a própria desgraça.
Mas a natureza não está ali apenas para enfeitar. Ela funciona como contraste para as ações humanas.
Victor procura paisagens grandiosas quando não consegue lidar com a culpa. A criatura encontra algum tipo de conforto longe das pessoas. Os lugares mais frios, vazios e violentos acabam parecendo menos cruéis do que a sociedade.
A natureza pode matar, mas não finge que está sendo moral.
Ela não rejeita a criatura por considerá-la pecadora, feia ou indigna. Ela simplesmente existe.
Ao mesmo tempo, toda vez que Victor tenta usar a paisagem como forma de escapar de si mesmo, o problema retorna. Ele pode viajar, subir montanhas, atravessar países e navegar pelo gelo, mas não consegue fugir da responsabilidade.
Victor, pelo amor de Deus, pare de desmaiar
É impossível ignorar que o livro foi escrito no século XIX e carrega bastante do romantismo da época.
Tem sofrimento grandioso, desmaios, doenças causadas por emoção, paisagens sublimes e personagens refletindo sobre a própria desgraça durante várias páginas.
Em alguns momentos, eu queria interromper a leitura e falar:
Victor, você pode parar de desmaiar e resolver o problema que criou?
Mas até esse excesso emocional ajuda a mostrar o quanto Victor está preso dentro da própria narrativa.
Ele transforma tudo em sofrimento pessoal. Mesmo quando outra pessoa morreu, a cena rapidamente volta para a dor dele.
Isso faz dele um personagem irritante, mas também extremamente coerente. Victor é incapaz de sair do centro.
Os dois estão sozinhos, mas não da mesma maneira
No fundo, eu acho que Frankenstein é uma história sobre solidão.
A solidão da criatura é óbvia. Ela não tem família, espécie, comunidade ou lugar. Mas Victor também se isola.
Primeiro, ele se afasta da família, dos amigos e da própria saúde para criar a criatura. Depois, se afasta novamente porque não consegue contar a verdade.
A diferença é que Victor escolhe o isolamento várias vezes. A criatura recebe o isolamento como condição de existência.
Victor tinha vínculos e os rejeitou. A criatura tentou criar vínculos e foi rejeitada.
E acho que isso explica parte da diferença moral entre eles.
No fim, ninguém vence
No final, ninguém vence.
Victor morre perseguindo a criatura. Depois, ela aparece e demonstra algo que Victor raramente ofereceu: uma forma de luto.
A criatura reconhece o que fez. Reconhece que o ódio não produziu aquilo que desejava e que transformou sua dor em crueldade.
Isso não a absolve. Mas mostra uma capacidade de reflexão que Victor passou o livro inteiro negando que ela possuía.
Ela não comemora a morte do criador porque, sem Victor, perde até o centro da própria vingança.
Os dois construíram identidades inteiras em torno do conflito. Quando um desaparece, o outro já não sabe o que fazer com a própria existência.
Talvez esse livro nunca tenha sido antigo
Apesar do estilo mais antigo e dos momentos lentos, Frankenstein continua assustadoramente atual.
É um livro sobre criação sem ética, abandono, preconceito, solidão e sobre a diferença entre culpa e responsabilidade.
É sobre pais que querem filhos apenas enquanto eles correspondem às expectativas. Sobre empresas que lançam produtos e abandonam os danos. Sobre sociedades que transformam aparência em sentença. Sobre pessoas que são tratadas como monstros até começarem a agir de acordo com esse papel.
Também é um livro sobre o perigo de acreditar que inteligência técnica significa maturidade moral.
Victor é brilhante. Mas isso não faz dele sábio.
Ele sabe criar vida. Não sabe cuidar dela.
Talvez esse seja o verdadeiro horror do livro: a capacidade de fazer alguma coisa crescendo muito mais rápido do que a capacidade de assumir responsabilidade por ela.
O que ficou comigo
A criatura queria ser amada. Depois, queria ser compreendida. Depois, queria alguém semelhante a ela.
E, quando percebeu que não teria nenhuma dessas coisas, decidiu ser temida.
Isso não torna seus crimes aceitáveis. Mas torna sua história profundamente trágica.
Ela não nasceu um monstro. Nasceu sem nome, sem cuidado e sem qualquer pessoa disposta a ensiná-la a existir.
Talvez a maior tragédia de Frankenstein não seja alguém ter criado um monstro.
Talvez seja o fato de ninguém jamais ter permitido que ele se tornasse outra coisa.