
Existem livros que respondem perguntas.
E existem livros que fazem você perceber que talvez estivesse fazendo as perguntas erradas o tempo inteiro.
Group Psychology and the Analysis of the Ego pertence completamente à segunda categoria.
Freud escreveu este livro em 1921, muito antes da televisão, da internet, das redes sociais ou dos algoritmos. Mesmo assim, foi impossível lê-lo sem pensar constantemente em Twitter, TikTok, fóruns, fandoms, movimentos políticos e até comunidades online aparentemente inofensivas.
O mais desconfortável neste livro é perceber que Freud não está descrevendo "as outras pessoas". Ele está descrevendo todos nós.
Quando deixamos de pensar como indivíduos
A pergunta central do livro parece simples: por que uma pessoa muda quando faz parte de um grupo?
Não porque ela seja necessariamente manipulada, mas porque o próprio pertencimento altera a maneira como enxergamos o mundo. Dentro de um coletivo, opiniões parecem mais óbvias, decisões parecem mais fáceis e dúvidas começam a desaparecer.
É confortável dividir responsabilidade. Quando centenas de pessoas acreditam na mesma coisa, questionar passa a exigir muito mais coragem do que simplesmente acompanhar o fluxo.
O grupo oferece algo extremamente sedutor: a sensação de que finalmente encontramos pessoas que confirmam aquilo que já sentimos. E isso pode ser maravilhoso. Também pode ser perigosíssimo.
Pertencer a um grupo nem sempre significa encontrar pessoas que pensam como você. Às vezes, significa começar a pensar como o grupo.
O líder como projeção
Uma das partes mais interessantes do livro é quando Freud tenta explicar a relação emocional entre um grupo e sua liderança.
O líder não é seguido apenas porque toma boas decisões. Muitas vezes, ele se transforma numa projeção coletiva. As pessoas passam a enxergar nele segurança, competência, coragem ou qualquer outra característica que gostariam de possuir.
É por isso que críticas ao líder frequentemente parecem ataques pessoais aos seguidores. Não se está apenas questionando alguém. Está se ameaçando uma parte importante da identidade daquele grupo.
Isso ajuda a entender fenômenos políticos, religiosos e até comunidades organizadas em torno de celebridades ou influenciadores. A lógica emocional continua surpreendentemente parecida.
Lendo Freud em 2026
Honestamente, a parte mais interessante do livro talvez seja tudo aquilo que Freud nunca poderia ter imaginado.
Hoje nós carregamos multidões no bolso. Não precisamos mais entrar numa praça, numa igreja ou numa manifestação para experimentar psicologia coletiva. Basta abrir qualquer rede social.
Os algoritmos descobriram algo que Freud apenas observava teoricamente: pessoas emocionalmente envolvidas permanecem mais tempo participando do grupo. Quanto maior a identificação, maior o engajamento. Quanto maior o engajamento, maior a sensação de pertencimento.
A tecnologia mudou completamente, mas o mecanismo psicológico continua assustadoramente familiar.
Talvez a maior diferença entre 1921 e hoje seja que as multidões nunca mais precisam ir embora.
O livro também envelheceu
Isso não significa que tudo aqui continue convincente.
Em vários momentos, Freud tenta explicar fenômenos históricos, políticos e sociais extremamente complexos utilizando praticamente apenas conceitos psicanalíticos. Às vezes funciona. Em outras, parece uma ferramenta pequena demais para um problema muito maior.
Fatores econômicos, propaganda, desigualdade, educação, nacionalismo e estruturas de poder recebem muito menos atenção do que provavelmente mereceriam.
Ainda assim, não acho que isso diminua o valor do livro. Pelo contrário. Ele continua sendo uma excelente lente para observar um aspecto específico do comportamento coletivo, mesmo sabendo que essa lente não mostra toda a paisagem.
Talvez ninguém seja tão independente quanto imagina
O que mais permaneceu comigo depois da leitura foi uma pergunta bastante desconfortável.
Quantas opiniões eu realmente construí sozinha?
É muito fácil identificar manipulação quando ela acontece com pessoas de quem discordamos. Muito mais difícil é reconhecer as formas pelas quais nós também adaptamos nossa linguagem, nossas crenças e até nossos valores para continuar pertencendo aos grupos que amamos.
Todos nós fazemos isso em algum nível. A questão talvez não seja evitar completamente essa influência, porque isso provavelmente é impossível. A questão é perceber quando pertencer começa a custar mais caro do que pensar.
Uma comunidade saudável permite discordâncias. Uma multidão costuma tratá-las como traição.
Mais atual do que deveria
Poucos livros me deram uma sensação tão forte de estar lendo algo escrito para explicar o presente, apesar de ter sido publicado há mais de cem anos.
Group Psychology and the Analysis of the Ego não oferece respostas fáceis e certamente não explica sozinho por que movimentos políticos, religiosos ou culturais surgem. Mas ele ajuda a entender por que pessoas inteligentes podem agir de maneiras completamente diferentes quando deixam de pensar apenas como indivíduos.
Depois de terminar a leitura, ficou difícil olhar para discussões na internet, campanhas de difamação, idolatria política ou guerras culturais sem lembrar constantemente das páginas deste livro.
Talvez porque Freud tenha entendido algo muito simples:
Antes de sermos cidadãos, eleitores, consumidores ou usuários de redes sociais, nós somos seres humanos desesperadamente interessados em pertencer a algum lugar.