
Existem filmes que envelhecem porque seus efeitos especiais deixam de impressionar. Outros envelhecem porque a tecnologia imaginada por eles se torna ultrapassada. Interstellar fez exatamente o contrário.
Quanto mais tempo passa, mais eu percebo que esse nunca foi um filme sobre viajar pelo espaço. O espaço é apenas o cenário escolhido por Christopher Nolan para falar de algo muito mais difícil de medir: o tempo que perdemos vivendo e o tempo que nunca conseguiremos recuperar.
No fundo, Interstellar é um filme sobre todas as formas pelas quais o tempo nos separa das pessoas que amamos.
Ficção científica que respeita a ciência
Uma das coisas que mais me fascinam em Interstellar é que ele nunca trata a ciência apenas como decoração estética. A presença de Kip Thorne na produção faz diferença. Buracos negros, dilatação temporal, gravidade e relatividade não aparecem apenas para dar aparência de inteligência ao roteiro. Eles fazem parte da própria narrativa.
Isso não significa que tudo no filme seja perfeitamente realista. Algumas decisões claramente entram no campo da especulação. Mas existe um esforço genuíno para construir um universo que respeita o conhecimento científico disponível em vez de simplesmente ignorá-lo quando ele atrapalha a história.
É raro ver um blockbuster confiar tanto na curiosidade do público.
O terror de continuar vivendo
Quando as pessoas lembram de Interstellar, quase sempre falam da cena do buraco negro, da docking scene ou da trilha sonora de Hans Zimmer.
Para mim, a cena mais devastadora continua sendo aquela em que Cooper assiste às mensagens acumuladas dos filhos depois de perder apenas algumas horas em um planeta onde o tempo passa de forma diferente.
Não existe explosão.
Não existe monstro.
Não existe perseguição.
Existe apenas um pai percebendo que perdeu décadas da vida dos próprios filhos sem poder fazer absolutamente nada para impedir.
Poucos filmes conseguem transformar um conceito da física em uma experiência emocional tão devastadora.
A relatividade deixa de ser uma equação e vira luto.
A Terra também está morrendo
Curiosamente, quanto mais o filme fala sobre explorar outros planetas, mais ele parece falar sobre o nosso.
O colapso ambiental mostrado em Interstellar nunca é tratado como espetáculo. Não vemos cidades sendo destruídas por meteoros ou oceanos engolindo continentes. Vemos plantações morrendo, tempestades de poeira e uma humanidade que simplesmente foi ficando sem opções.
Isso torna tudo muito mais assustador.
Catástrofes raramente acontecem de uma vez. Muitas vezes elas chegam devagar, quase silenciosamente, até que um dia percebemos que aquilo que parecia temporário virou o novo normal.
O amor como força física
Existe uma parte de Interstellar que divide bastante as pessoas: a ideia de que o amor atravessa dimensões e se torna quase uma força física da natureza.
Eu entendo perfeitamente quem considera essa parte excessivamente sentimental. Também acho que, em alguns momentos, o roteiro aproxima demais emoção e ciência de uma forma que pode parecer forçada.
Mas eu nunca interpretei essa ideia literalmente.
Para mim, Nolan não está dizendo que o amor é uma quinta força fundamental da física. Ele está dizendo que o amor é uma das poucas coisas capazes de continuar influenciando nossas decisões mesmo quando todas as outras referências desapareceram.
Cooper não encontra o caminho de volta porque resolve uma equação mágica. Ele encontra porque nunca deixou de tentar voltar para Murph.
A ciência explica como atravessar o universo. O amor explica por que alguém atravessaria.
Murph é o verdadeiro centro da história
Apesar de toda a publicidade em torno de Cooper, sempre achei que Interstellar pertence muito mais à Murph.
Enquanto o pai atravessa galáxias tentando salvar a humanidade, ela passa a vida inteira resolvendo o problema que ele deixou para trás. Ela cresce, amadurece, envelhece e finalmente encontra a solução que permite à espécie sobreviver.
Cooper vive a aventura.
Murph vive as consequências.
E talvez justamente por isso ela seja a personagem que mais evolui durante todo o filme.
Hans Zimmer e o vazio
A trilha sonora merece praticamente um capítulo próprio.
Hans Zimmer faz algo curioso aqui. Em vez de criar músicas grandiosas apenas para representar o espaço, ele usa o órgão de tubos para produzir uma sensação quase religiosa diante da imensidão do universo.
Não é uma trilha sobre heroísmo.
É uma trilha sobre insignificância.
Quanto maior o universo parece, menor o ser humano se torna. E, paradoxalmente, mais importantes passam a parecer os pequenos momentos entre pais e filhos.
O tempo continua vencendo
Sempre que reassisto Interstellar, percebo que ele mudou menos do que eu.
Quando vi pela primeira vez, fiquei fascinada pelos conceitos científicos. Hoje continuo admirando toda essa parte, mas o que mais me atinge é perceber quanto tempo passa para cada personagem enquanto eles tentam salvar uns aos outros.
A vida inteira acontece enquanto Cooper está tentando voltar.
E talvez essa seja a parte mais dolorosa do filme.
Nós também estamos sempre tentando chegar em algum lugar. Trabalhando, estudando, viajando, planejando o futuro, imaginando que em algum momento finalmente teremos tempo para viver.
Enquanto isso, o relógio continua funcionando.
No fim, Interstellar não pergunta apenas como salvar a humanidade. Ele pergunta se percebemos quanto da nossa própria vida já passou enquanto estávamos ocupados tentando salvar o futuro.