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Never Enough

Artista: Turnstile

Ano de lançamento: 2025

Cover of Never Enough by Turnstile

É muito estranho escrever sobre Never Enough porque eu simplesmente não consigo separar o Turnstile da minha própria vida. Eu escuto a banda desde antes de eles serem conhecidos fora da cena hardcore, acompanhei a turnê de todos os álbuns lançados e vi, de perto, cada fase deles ficando maior sem perder completamente aquilo que me fez gostar da banda no começo.

Por isso, esse não é um álbum que eu consigo analisar com distância. Eu lembro de quando o Turnstile ainda era uma banda que quem frequentava show hardcore conhecia. Hoje eles lançam filmes, tocam nos maiores festivais do mundo e atraem um público que talvez nunca tivesse entrado num show desse tipo antes.

Ver o Turnstile crescer foi quase como acompanhar uma parte da minha própria vida ficando maior junto com eles.

Uma banda que nunca aceitou ficar parada

O Turnstile sempre foi uma banda muito física. Mesmo quando começaram a experimentar mais com melodia, textura e atmosfera, as músicas continuaram sendo feitas para o corpo. Você não escuta Turnstile parada. Você pula, dança, faz crowd surfing, sobe no palco, cai no chão e levanta de novo.

Mas Never Enough parece menos preocupado em provar força e mais interessado em entender o que acontece depois que toda essa energia explode. Ainda existe peso, ainda existe urgência, mas o álbum parece mais aberto, mais contemplativo e menos interessado em caber dentro de qualquer expectativa da cena.

Eu acho que esse é o momento em que o Turnstile aceita de vez que não precisa provar para ninguém que continua sendo uma banda de hardcore. Eles já provaram isso. Agora podem fazer o que quiserem.

O filme e a estreia

Eu fui à estreia do filme de Never Enough, e a banda estava lá. A Hayley também. Foi uma experiência muito especial porque não parecia apenas uma exibição promocional de um álbum novo. O filme funciona como parte do projeto, como se as músicas precisassem também de imagens, cores e movimento para existir completamente.

O Turnstile sempre teve uma identidade visual muito forte, mas nesse álbum isso ficou ainda mais evidente. Eles não estão apenas lançando músicas. Estão criando uma experiência inteira em volta delas.

Never Enough não parece apenas um álbum. Parece uma fase inteira da banda documentada em música, imagem e movimento.

Under the K Bridge

O show Under the K Bridge foi absurdo. Ver o Turnstile tocando embaixo de uma ponte, cercado por concreto e por uma multidão completamente entregue, parecia a combinação perfeita para a banda.

Mesmo agora, tocando em espaços muito maiores, eles ainda conseguem criar aquela sensação de que não existe uma divisão real entre o palco e o público. Ninguém fica apenas assistindo. Todo mundo participa.

E é isso que sempre fez os shows deles serem tão especiais para mim. Não é apenas sobre ouvir as músicas ao vivo. É sobre estar dentro daquilo, ser empurrada pela multidão, segurar alguém que está caindo, subir em cima das pessoas e, por alguns minutos, esquecer completamente o resto do mundo.

Do Under the K Bridge ao Lollapalooza Brasil

Depois eu vi o Turnstile novamente no Lollapalooza Brasil, o que foi uma experiência completamente diferente e, ao mesmo tempo, muito parecida. Era outro país, outro festival, outro público, mas a energia continuava a mesma.

Durante o show, fui entrevistada pela equipe da banda. Eu ainda estava fazendo crowd surfing e acabei aparecendo no telão. É muito bizarro pensar nisso porque eu acompanhava o Turnstile desde quando eles ainda não eram conhecidos, e anos depois eu estava sendo filmada pela própria equipe deles no Brasil, sendo carregada pela plateia durante o show.

Parece uma daquelas cenas que alguém teria inventado para fechar um documentário, mas aconteceu de verdade.

Eu vi essa banda crescer, mas também consigo olhar para cada show e lembrar exatamente de quem eu era naquela época.

Nunca é suficiente

O título do álbum resume bem a inquietação que existe nele. Nunca é suficiente. Sempre existe outro show, outra cidade, outro público, outro projeto e outra versão da banda tentando nascer.

Isso não soa necessariamente como ambição. Em muitos momentos, parece ansiedade. Como se chegar em algum lugar nunca fosse suficiente para fazer você sentir que finalmente terminou alguma coisa.

O álbum carrega essa mistura de conquista e insatisfação. O Turnstile chegou a lugares que provavelmente pareciam impossíveis anos atrás, mas continua se movimentando como se parar significasse desaparecer.

Hardcore sem prisão estética

Uma das coisas que mais admiro no Turnstile é que eles nunca trataram o hardcore como uma prisão. Eles vieram daquela cena, carregam aquela energia e continuam entendendo a importância da comunidade, mas nunca aceitaram que isso significava repetir a mesma fórmula para sempre.

Cada álbum foi abrindo mais espaço para outras influências, outras texturas e outras formas de escrever. Para algumas pessoas, isso significa que a banda ficou menos pesada ou menos autêntica. Para mim, significa que eles entenderam que peso não depende apenas de guitarra alta ou breakdown.

Peso também pode existir numa melodia, numa bateria que muda completamente a direção da música ou numa letra que parece simples até você perceber que ela ficou presa na sua cabeça por dias.

Uma banda que cresceu comigo

Eu fui às turnês de todos os álbuns. Vi o filme. Fui à estreia. Vi a banda e a Hayley lá. Vi o show Under the K Bridge. Vi o Lollapalooza Brasil. Fui entrevistada pela equipe deles, fiz crowd surfing e apareci no telão.

Em algum ponto, ficou impossível escrever sobre Turnstile como se fosse apenas mais uma banda que eu gosto.

Eles fazem parte da minha história. Não porque eu conheça pessoalmente cada integrante ou porque a banda me pertença de alguma forma, mas porque eu consigo olhar para cada fase deles e lembrar exatamente de onde eu estava, com quem eu estava e quem eu era.

Algumas bandas entram na nossa playlist. Outras acabam virando uma forma de medir o tempo.

Never Enough é um álbum sobre continuar, mesmo depois de chegar muito mais longe do que você imaginava. E talvez seja exatamente por isso que ele faça tanto sentido para mim.

Porque, depois de acompanhar essa banda por tantos anos, eu não consigo ouvir esse disco sem pensar em tudo o que aconteceu no caminho.

E, no fim, a coisa mais especial sobre tudo isso é poder olhar para trás e dizer:

Eu estava lá.

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